Operação Wi-Fi Livre expõe conexões entre contratos públicos, produção audiovisual e disputa política
Após a realização da “Operação Wi-Fi Livre” pela Polícia Civil de São Paulo em 1º de junho de 2026, o senador Flávio Bolsonaro classificou a investigação como uma “perseguição da parte do Estado brasileiro para tentar interferir no resultado das eleições”. Em entrevista à rádio Itatiaia, o parlamentar afirmou que “não tem nada de errado” nos contratos investigados e que a prefeitura de São Paulo já teria apresentado todas as explicações necessárias.
Flávio utilizou o termo “pescaria probatória” para descrever a ação policial, alegando que a operação utilizou uma justificativa “muito frágil” com o objetivo deliberado de “atrapalhar esse filme” (Dark Horse). Apesar de sustentar a tese de perseguição política, o senador declarou em um evento no Rio de Janeiro que, tecnicamente, “a operação não tem nada a ver com o filme”.
Além da esfera estadual, o caso também repercute no Supremo Tribunal Federal, onde há pedidos para incluir Flávio e Jair Bolsonaro em inquéritos que apuram se o financiamento do filme possui conexões com tentativas de coação no processo e outras irregularidades.
A Operação Wi-Fi Livre
A investigação teve origem em denúncias encaminhadas inicialmente ao Ministério Público, que apontavam possíveis irregularidades em contratos relacionados ao programa WiFi Livre SP, iniciativa criada para ampliar o acesso gratuito à internet em regiões periféricas da capital paulista.
A operação foi conduzida pela Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração (DICCA), ligada ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). Mandados de busca e apreensão foram cumpridos na Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT), responsável pela gestão do programa.
O principal foco da apuração é o Contrato nº 01/SMIT/2024, firmado com o Instituto Conhecer Brasil para a implantação e manutenção de pontos de acesso gratuito à internet.
Contrato sob investigação
Segundo documentos analisados pelos investigadores, o contrato passou por alterações financeiras relevantes ao longo de sua execução.
Resumo do contrato
| Indicador | Valor Inicial | Situação Investigada |
| Valor global do contrato | R$ 108 milhões | R$ 157,1 milhões após aditivos |
| Meta de instalação | 5.000 pontos de acesso | Cerca de 3.200 pontos instalados |
| Custo mensal por ponto | R$ 1.800 | Valor considerado acima de referências utilizadas pela Prodam |
| Pagamentos antecipados | Não previsto | Aproximadamente R$ 26 milhões analisados pelos investigadores |
| Notas fiscais sob análise | — | R$ 16,5 milhões em documentos investigados |
Além da ampliação do valor contratual, investigadores analisam possíveis divergências entre os pagamentos realizados e a execução efetiva dos serviços contratados.
O Tribunal de Contas do Município (TCM) havia apontado questionamentos técnicos durante o processo licitatório e recomendado medidas cautelares antes da continuidade do certame.
Quem é Karina Ferreira da Gama
No centro da investigação está a empresária Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e sócia da produtora Go UP Entertainment.
Sua trajetória profissional começou em projetos ligados ao terceiro setor e produção cultural. Ao longo dos últimos anos, ampliou significativamente sua atuação empresarial, passando a administrar entidades e empresas ligadas a eventos, produção audiovisual, consultoria e projetos educacionais.
A investigação busca compreender a relação entre os contratos públicos firmados por organizações vinculadas à empresária e o crescimento de sua estrutura empresarial.
A principal linha de investigação da Polícia Civil e do Ministério Público é que o contrato de Wi-Fi do ICB serviu de ponte para o financiamento do filme.
Desvio de Finalidade: Suspeita-se que parte do valor pago pela prefeitura ao ICB tenha sido desviada para a produtora Go UP para custear Dark Horse, obra orçada em R$ 134 milhões (o maior orçamento do cinema nacional).
Negociação de Direitos: Karina Ferreira da Gama e o Deputado Mário Frias teriam oferecido até R$ 500 mil pelo acesso aos direitos da história de Jair Bolsonaro para o filme,com uma minuta prevendo o pagamento de pelo menos R$ 125 mil diretamente ao ex-presidente.
Entidades e recursos públicos analisados
Contratos e repasses citados nas investigações
| Entidade | Objeto | Órgão Relacionado | Valor |
| Instituto Conhecer Brasil | Programa WiFi Livre SP | Prefeitura de São Paulo | R$ 157,1 milhões |
| Instituto Conhecer Brasil | Programa Steam Maker | Governo do Distrito Federal | R$ 5 milhões |
| Academia Nacional de Cultura | Emendas parlamentares | Câmara dos Deputados | R$ 2,6 milhões |
| Instituto Conhecer Brasil | Emendas federais | Orçamento da União | R$ 2 milhões |
Parte desses contratos encontra-se sob análise de órgãos de controle e auditorias administrativas.
A ligação com o filme Dark Horse
A repercussão nacional do caso ocorreu após a identificação de vínculos entre Karina Ferreira da Gama e a produção do filme Dark Horse.
O longa-metragem foi concebido como uma cinebiografia de Jair Bolsonaro e tem direção do cineasta americano Cyrus Nowrasteh. O roteiro foi desenvolvido a partir de um argumento elaborado pelo ex-secretário especial de Cultura Mario Frias.
Produzido em inglês e voltado para distribuição internacional, o projeto busca retratar a trajetória política do ex-presidente, com foco especial nas eleições de 2018 e no atentado sofrido durante a campanha eleitoral.
A produção também passou a enfrentar questionamentos administrativos relacionados à documentação, registros regulatórios e contratação de profissionais envolvidos no projeto.

