Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra que violência letal geral continua em queda, mas assassinatos de mulheres por razão de gênero atingiram o maior patamar da série histórica; especialistas apontam que o avanço dos feminicídios exige políticas específicas de prevenção.
O Brasil registrou, em 2025, o menor número de homicídios dos últimos 13 anos, mas o mesmo período foi marcado por um dado que preocupa especialistas em segurança pública: os casos de feminicídio atingiram o maior patamar desde a criação desse tipo penal, em 2015. Os números constam no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado nesta terça-feira (15) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e revelam uma tendência oposta entre a redução da violência letal em geral e o aumento dos assassinatos de mulheres motivados por violência de gênero.

Segundo o levantamento, o país contabilizou 1.518 feminicídios em 2025, o maior número da série histórica. Isso representa uma média de mais de quatro mulheres assassinadas por dia pelo fato de serem mulheres, geralmente em contextos de violência doméstica, familiar ou de menosprezo à condição feminina. Enquanto isso, os homicídios dolosos apresentaram nova queda, consolidando o menor índice registrado desde 2012.
O estudo aponta que a maioria das vítimas de feminicídio foi morta por pessoas com quem mantinha ou havia mantido relacionamento afetivo. Em grande parte dos casos, os crimes ocorreram dentro da própria residência da vítima, reforçando o ambiente doméstico como o principal cenário desse tipo de violência. Os dados também mostram que muitas mulheres já haviam sofrido agressões anteriores ou possuíam medidas protetivas, evidenciando dificuldades na prevenção e na proteção das vítimas.
Outro dado que chama atenção é o perfil das vítimas. A maior parte dos feminicídios teve como alvo mulheres negras, que continuam sendo as principais vítimas da violência letal de gênero no país. O anuário também registra aumento nos casos de violência doméstica, ameaças, perseguição (stalking) e descumprimento de medidas protetivas, indicando que diferentes formas de violência contra a mulher continuam em crescimento.
Principais dados do levantamento
- 1.518 feminicídios registrados em 2025, maior número da série histórica;
- Média superior a quatro mulheres assassinadas por dia;
- Menor número de homicídios dolosos no Brasil desde 2012;
- A maioria dos feminicídios ocorreu dentro da residência da vítima;
- Em grande parte dos casos, o autor era companheiro ou ex-companheiro;
- Mulheres negras continuam sendo as principais vítimas desse tipo de crime.
Especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública avaliam que a redução dos homicídios está ligada ao fortalecimento de políticas públicas de segurança, mudanças demográficas e alterações na dinâmica das organizações criminosas em algumas regiões do país. No entanto, ressaltam que essas estratégias não têm produzido o mesmo efeito no combate à violência contra as mulheres, que exige políticas específicas de prevenção, acolhimento das vítimas, fiscalização das medidas protetivas e responsabilização dos agressores.
O anuário destaca ainda que o crescimento dos feminicídios ocorre paralelamente ao aumento dos registros de violência doméstica e familiar, demonstrando que muitas mulheres continuam sendo assassinadas após uma sequência de agressões que poderiam ter sido interrompidas com mecanismos mais eficazes de proteção.
Para pesquisadores, os números reforçam que a redução da criminalidade em geral não significa, necessariamente, uma diminuição da violência de gênero. Eles defendem o fortalecimento da rede de atendimento às mulheres, investimentos em delegacias especializadas, ampliação das casas de acolhimento e maior integração entre Judiciário, Ministério Público, polícias e serviços de assistência social.
Embora o cenário geral da segurança pública apresente evolução positiva com a queda dos homicídios, o recorde de feminicídios evidencia que a violência contra as mulheres permanece como um dos principais desafios do país. Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, enfrentar esse tipo de crime exige políticas permanentes, monitoramento contínuo e ações voltadas especificamente à proteção das mulheres em situação de risco.

