Saúde e Bem-Estar

Você é responsável pelo seu relacionamento, mas não é culpada pela traição.

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Você pode ter responsabilidade pelo relacionamento sem ser responsável pela traição do seu parceiro.

Por Leo Oliveira – Psicanalista

“Ele me traiu porque eu não estava mais dando atenção.”

“Ela me traiu porque eu estava distante.”

“Talvez eu tenha provocado isso.”

Depois de uma traição, essas frases aparecem com frequência.

A pessoa que foi traída começa a procurar dentro de si uma explicação para aquilo que aconteceu.

E algumas vezes essa busca ultrapassa a compreensão e se transforma em culpa.

Mas existe uma diferença que precisa ser dita com clareza:

Você pode ter responsabilidade pelo relacionamento sem ser responsável pela traição do seu parceiro.

São coisas diferentes.

E compreender essa diferença pode ser fundamental para quem está tentando lidar com a descoberta de uma infidelidade.


A traição não acontece no vácuo

Um relacionamento é construído por duas pessoas.

Existem escolhas dos dois.

Existem problemas dos dois.

Existem momentos de distância, conflitos, dificuldades sexuais, problemas financeiros, mudanças na rotina, ressentimentos e tantas outras questões que podem afetar uma relação.

Tudo isso pode fazer parte da história de um casal.

Mas existe uma linha que não podemos apagar:

o problema do relacionamento não determina a escolha que o outro fará diante dele.

Se existe insatisfação, existem possibilidades.

Conversar.

Pedir mudanças.

Procurar ajuda.

Reavaliar os acordos.

Ou terminar.

Trair é outra escolha.

Isso não significa que a relação não tivesse problemas.

Significa que os problemas da relação e a decisão de trair não são a mesma coisa.


“Mas eu também errei.”

Pode ser.

E reconhecer os próprios erros pode ser saudável.

Talvez você tenha se afastado.

Talvez tenha deixado de conversar.

Talvez tenha negligenciado algumas necessidades do parceiro.

Talvez tenha cometido erros que contribuíram para o desgaste da relação.

Reconhecer isso é assumir responsabilidade.

Mas responsabilidade não é culpa por aquilo que o outro escolheu fazer.

Imagine uma relação na qual os dois estavam infelizes.

Uma pessoa decide conversar e tentar reconstruir.

A outra decide manter uma relação escondida com alguém.

O sofrimento do casal pode ser compartilhado. A decisão pela traição continua sendo individual.

Essa distinção é importante porque, depois de uma descoberta, é comum que a pessoa traída pense:

“Se eu tivesse sido mais carinhosa…”

“Se eu tivesse feito mais sexo…”

“Se eu tivesse dado mais atenção…”

“Se eu não tivesse trabalhado tanto…”

“Se eu fosse mais bonita…”

“Se eu fosse um parceiro melhor…”

E então surge uma pergunta dolorosa:

“Será que eu fiz isso acontecer?”

Não.

Você pode ter participado dos problemas do relacionamento.

Mas você não controla as escolhas do outro.


O que a Psicanálise pode nos ajudar a compreender?

A Psicanálise nos permite olhar para a culpa de uma maneira interessante.

Porque culpa e responsabilidade não são exatamente a mesma coisa.

A culpa pode aparecer como uma tentativa de encontrar uma explicação.

Quando algo doloroso acontece, admitir que o outro fez uma escolha que estava fora do nosso controle pode ser assustador.

Então, algumas vezes, a pessoa começa a pensar:

“A culpa foi minha.”

Pode parecer contraditório, mas assumir a culpa pode produzir uma sensação ilusória de controle:

“Se fui eu que causei isso, então talvez eu pudesse ter evitado.”

E isso pode ser psicologicamente mais suportável do que reconhecer:

“Eu não tinha controle sobre a escolha daquela pessoa.”

A culpa também pode aparecer como uma forma de manter o vínculo.

A pessoa pensa:

“Se eu conseguir descobrir onde errei, talvez consiga consertar tudo.”

E assim permanece presa não apenas ao relacionamento, mas à tentativa de reconstruir uma realidade que já foi rompida.

Por isso, depois de uma traição, não é incomum que a pessoa fique presa à pergunta:

“O que faltou em mim?”

Talvez uma pergunta mais produtiva seja:

“O que aconteceu entre nós e o que eu quero fazer daqui para frente?”


Responsabilidade não é culpa

Essa talvez seja a distinção mais importante deste artigo.

Responsabilidade é reconhecer a sua participação.

Culpa é assumir para si aquilo que pertence à escolha do outro.

Você pode dizer:

“Eu reconheço que me afastei.”

Isso é responsabilidade.

Pode dizer:

“Eu poderia ter conversado mais.”

Responsabilidade.

Pode dizer:

“Nosso relacionamento já estava passando por problemas.”

Responsabilidade.

Mas dizer:

“Ele me traiu porque eu não fui boa o suficiente.”

Isso é transformar a escolha do outro em uma condenação sobre você.

E são coisas completamente diferentes.


E depois da traição?

Aqui começa outra questão difícil:

O que fazer com o relacionamento?

Não existe uma resposta universal.

Alguns casais terminam.

Outros tentam reconstruir.

Alguns descobrem que a relação já estava emocionalmente encerrada antes mesmo da descoberta.

Outros percebem que ainda existe vínculo e disposição para reconstruir.

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Mas reconstruir não significa simplesmente dizer:

“Eu perdoo e vamos esquecer.”

A confiança não volta porque alguém pediu desculpas.

Ela precisa ser reconstruída por meio de comportamentos consistentes ao longo do tempo.

Também é necessário compreender o que aconteceu.

Foi um episódio isolado?

Existe uma relação paralela?

Houve mentira prolongada?

A pessoa assume responsabilidade?

Existe arrependimento?

Existe disposição para mudar?

O casal consegue conversar?

Existem novos acordos?

Essas perguntas podem ser mais importantes do que simplesmente decidir, no calor da emoção, se deve ficar ou sair.


E se eu decidir permanecer?

Permanecer não significa ser fraco.

Sair não significa ser mais forte.

Perdoar não significa esquecer.

E continuar não significa aceitar qualquer coisa.

Se o casal decidir reconstruir, será necessário estabelecer novos acordos e, principalmente, recuperar a segurança dentro da relação.

Isso pode levar tempo.

E algumas feridas não desaparecem simplesmente porque a pessoa decidiu perdoar.

Por isso, em determinadas situações, o acompanhamento profissional pode ajudar o casal a compreender o que aconteceu e a avaliar se existe possibilidade real de reconstrução.


E se eu decidir terminar?

Também não significa fracasso.

Uma relação pode terminar mesmo quando ainda existe amor.

Às vezes, amar alguém não é suficiente para tornar uma relação saudável.

E ninguém é obrigado a permanecer em um relacionamento apenas porque reconhece a própria parcela de responsabilidade pelos problemas que existiam nele.

Você pode reconhecer:

“Eu também errei.”

E, ao mesmo tempo, dizer:

“Mas eu não aceito continuar vivendo dessa maneira.”

Isso é responsabilidade sobre a própria vida.


Cuidado com uma armadilha

Existe uma frase muito comum depois de uma traição:

“Mas todo mundo tem culpa.”

Não necessariamente.

Uma relação pode ter problemas dos dois lados.

Mas isso não significa que todos os comportamentos sejam equivalentes.

Imagine um casal que estava enfrentando dificuldades de comunicação.

Uma pessoa estava distante.

A outra estava frustrada.

Eles não conversavam.

Isso pode ser um problema dos dois.

Mas se uma delas decide iniciar uma relação escondida e mentir durante meses, a responsabilidade por essa decisão pertence a quem tomou essa decisão.

Não devemos usar os problemas do relacionamento para apagar a responsabilidade individual.


O que você pode fazer agora?

Se você foi traído, talvez a primeira coisa seja não tomar decisões definitivas enquanto estiver completamente tomado pelo choque.

A descoberta pode despertar raiva, vergonha, medo, tristeza e uma necessidade enorme de encontrar respostas.

Dê espaço para essas emoções.

Depois, tente separar algumas perguntas:

O que era responsabilidade minha?

Reconheça seus erros sem transformar isso em autopunição.

O que era responsabilidade do outro?

Reconheça as escolhas que você não controlava.

O que aconteceu de fato?

Tente diferenciar fatos de hipóteses e suposições.

O que eu quero daqui para frente?

Não apenas:

“Como faço para essa pessoa não me deixar?”

Mas:

“Que tipo de relacionamento eu quero viver?”

Essa pergunta muda muita coisa.


A traição não define o seu valor

Talvez essa seja a mensagem mais importante.

Ser traído não significa ser inferior.

Não significa ser menos bonito.

Não significa ser menos interessante.

Não significa que você não foi suficiente.

E também não significa automaticamente que você tenha escolhido mal.

Uma pessoa pode ser amada e ainda assim ser traída.

Uma pessoa pode ser presente, carinhosa, desejada e comprometida e ainda assim ser traída.

Porque a traição revela, прежде de tudo, uma escolha de quem trai.

Isso não significa que a pessoa traída não tenha nada a aprender.

Ela pode aprender sobre seus limites.

Sobre suas escolhas.

Sobre aquilo que aceita.

Sobre aquilo que precisa mudar.

Sobre o tipo de relação que deseja construir.

Mas aprender com uma experiência é diferente de se condenar por ela.


Então guarde esta frase

Você é responsável pelo relacionamento que constrói.

Mas não é responsável pela decisão que o outro toma de traí-lo.

Se a relação estava ruim, havia algo para ser conversado.

Se havia insatisfação, havia algo para ser enfrentado.

Se não havia mais amor, havia a possibilidade de terminar.

Problemas no relacionamento podem explicar um contexto. Não transformam a traição em culpa de quem foi traído.

E talvez, depois de uma traição, a pergunta mais importante não seja:

“O que faltou em mim?”

Mas:

“O que eu quero fazer com a minha vida depois do que aconteceu?”

Essa pergunta devolve algo que a traição muitas vezes rouba:

a possibilidade de escolher o próprio caminho.


Leonardo Oliveira é psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix.

Este artigo tem caráter informativo e não substitui acompanhamento de profissionais de saúde ou de saúde mental. Cada situação de relacionamento possui características próprias e deve ser compreendida dentro de seu contexto.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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