Saúde e bem estar

Quem trai mais: o homem ou a mulher? O que os dados e a Psicanálise dizem sobre a traição. Se

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Se eu perguntasse agora quem trai mais: homens ou mulheres, provavelmente você já teria uma resposta.

Durante muito tempo, a resposta parecia óbvia:

“Homem trai mais.”

Mas será que é tão simples assim? A ciência mostra que existe, sim, uma diferença em alguns tipos de infidelidade. Porém, quando começamos a investigar o que estamos chamando de traição, a resposta fica muito mais complexa.

E talvez seja justamente aí que a conversa fique interessante.

Afinal, quem trai mais?

Uma das dificuldades para responder essa pergunta é que cada pesquisa pode definir “infidelidade” de uma maneira diferente.
Algumas pesquisas perguntam sobre sexo fora do relacionamento, outras incluem envolvimento emocional, outras consideram comportamentos pela internet e existem situações em que o casal nem sequer concorda sobre o que constitui uma traição.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 analisou 305 estudos, envolvendo 508.241 participantes de 47 países, e encontrou justamente esse problema: não existe uma definição única e padronizada de infidelidade em toda a literatura científica. A infidelidade sexual é muito mais estudada, enquanto formas não sexuais, como a infidelidade emocional, ainda recebem menos atenção.

Portanto, antes de responder “quem trai mais?”, precisamos perguntar:

O que é traição ?

Quando falamos de traição sexual, os homens aparecem mais nas pesquisas.

Em diferentes estudos, homens tendem a relatar mais comportamentos de infidelidade sexual.
Um estudo publicado no Archives of Sexual Behavior, com 506 homens e 412 mulheres que estavam em relacionamentos monogâmicos, relatou que 23,2% dos homens e 19,2% das mulheres disseram ter traído durante o relacionamento atual.
Outro estudo, realizado com jovens adultos em relacionamentos exclusivos, encontrou envolvimento sexual presencial fora do relacionamento em 23,4% dos homens contra 15,5% das mulheres. No ambiente on-line, os números relatados foram de 15,3% dos homens contra 4,6% das mulheres.
Isso significa que podemos dizer que homens aparecem com maior frequência em alguns indicadores de infidelidade sexual.

E no Brasil ?

Uma pesquisa brasileira publicada na revista Trends in Psychology analisou 237 pessoas casadas ou em coabitação, entre 21 e 73 anos, que relataram ter sido infiéis ao parceiro atual.

O estudo encontrou uma semelhança importante entre homens e mulheres nos comportamentos de infidelidade, embora os homens tenham relatado mais comportamentos de natureza sexual, e as mulheres tenham relatado maior envolvimento emocional.

Entre os motivos relatados apareceram fatores como:

-insatisfação com o parceiro ou com a relação;
-desejo e atração física;
-busca de liberdade, aventura ou valorização;
-envolvimento emocional;
-necessidade sexual;
-vingança ou raiva;
-insatisfação sexual;
-oportunidade e contexto.

Ou seja:
Não existe uma única explicação para a traição.
E isso é importante, porque uma coisa é perguntar:

Quem trai mais?

Outra, muito mais interessante, é perguntar:

Por que essa pessoa traiu?

A faixa etária também conta uma história.

No estudo brasileiro citado anteriormente, entre as pessoas que haviam cometido infidelidade, a distribuição por idade foi:

21 a 30 anos: 25,7%;
31 a 40 anos: 35,4%;
41 a 50 anos: 22,4%;
acima de 51 anos: 15,5%.

A faixa de 31 a 40 anos concentrou a maior parcela da amostra. Os autores também observaram uma redução gradual dos episódios com o aumento da faixa etária.
Mas existe um cuidado importante aqui.
Esses números não significam que 35,4% das pessoas entre 31 e 40 anos traem, significam que, dentro daquela amostra específica de pessoas que relataram infidelidade, 35,4% estavam nessa faixa etária.

Essa diferença parece pequena, mas é fundamental quando queremos falar de ciência com responsabilidade.

E existe um outro problema, talvez você e seu parceiro nem tenham a mesma definição de traição.

Para algumas pessoas, traição começa no beijo, para outras, começa no sexo, para outras, começa muito antes.

Uma conversa escondida, mensagens apagadas, um aplicativo secreto, fotos íntimas, uma amizade que precisa ser escondida do parceiro(a).

Ou até contar para outra pessoa coisas sobre o relacionamento que o parceiro acredita que deveriam permanecer entre os dois.

Pesquisas mostram que as pessoas não avaliam todos esses comportamentos da mesma maneira. Um estudo brasileiro sobre julgamentos de infidelidade encontrou que fatores como envolvimento afetivo, contato físico/sexual, intenção, continuidade do comportamento e consentimento do parceiro influenciam a maneira como uma situação é julgada.

Então talvez a pergunta não seja apenas:

“Você traiu?”

Mas:

“O que vocês dois consideram uma quebra do pacto que fizeram?”

Porque monogamia não é apenas ausência de sexo com outra pessoa, é também um acordo e cada casal precisa saber qual é o acordo que está fazendo.

E o que a psicanálise tem a dizer sobre traição?

Aqui precisamos tomar cuidado, a psicanálise não oferece uma fórmula dizendo:

“Quem trai faz isso por causa disso.”

Seria simplificar demais o sujeito, para a psicanálise, talvez seja mais interessante perguntar:

“Qual função essa traição ocupa na vida dessa pessoa?”

Porque duas pessoas podem cometer exatamente o mesmo ato por razões psíquicas completamente diferentes, uma pode estar buscando reconhecimento, outra pode estar tentando escapar de uma relação, outra pode estar reagindo a uma sensação de rejeição, outra pode estar procurando novidade, outra pode estar repetindo um padrão conhecido, outra pode estar tentando provar para si mesma que ainda é desejada, outra pode estar vivendo um conflito entre desejo, compromisso e culpa e outra pode simplesmente ter escolhido trair.

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Não precisamos transformar toda traição em um sintoma profundo. Mas também não precisamos fingir que o ato não pode carregar conflitos inconscientes.

Freud já investigava os conflitos presentes na vida amorosa.

Ao estudar a vida amorosa, Freud chamou atenção para a dificuldade de conciliar diferentes dimensões do amor, do desejo e da sexualidade.

Em seu trabalho de 1912 sobre a vida amorosa, Freud discutiu justamente conflitos entre afeição, desejo sexual e escolha de objeto.

A contribuição da Psicanálise aqui não é simplesmente dizer:

“Freud explica por que você trai.”

Não.

A questão é outra.

O que o sujeito está buscando naquela experiência?

O que aquela terceira pessoa representa?

Por que justamente aquela pessoa?

Por que naquele momento?

O que estava acontecendo no relacionamento?

E, principalmente:

o que essa pessoa está tentando encontrar fora que não consegue encontrar dentro?

Essas perguntas podem levar muito mais longe do que simplesmente procurar um culpado.

As vezes, não é sobre sexo.

Pode ser sobre reconhecimento.

“Quero me sentir desejado.”

Pode ser sobre autoestima.

“Quero provar que ainda sou interessante.”

Pode ser sobre vingança.

“Você fez comigo, agora faço com você.”

Pode ser sobre fuga.

“Não consigo terminar essa relação, então crio outra saída.”

Pode ser sobre novidade.

“Preciso sentir alguma coisa diferente.”

Pode ser sobre desejo.

“Eu quero isso, mesmo sabendo das consequências.”

E pode ser sobre muitas coisas ao mesmo tempo.

É por isso que não existe uma explicação única para a traição.

Mas uma coisa precisa ficar clara

Entender não é justificar.

Essa diferença é fundamental.

Compreender por que alguém traiu não significa dizer que a traição foi correta.

Uma pessoa pode estar insatisfeita no relacionamento, pode estar se sentindo abandonada, pode estar sexualmente frustrada, pode estar carente, pode ter sido traída anteriormente, pode estar passando por uma crise, nada disso transforma automaticamente a traição em uma atitude correta.

Existe uma alternativa que continua sendo difícil, mas é mais honesta:

conversar, negociar, pedir mudanças, buscar ajudae, avaliar o relacionamento ou terminar.

Trair é uma escolha que produz consequências.

E quem foi traído também precisa ter seu sofrimento reconhecido.

Não existe uma resposta universal.

Existe a história daquele casal.

E então quem trai mais ?

Se estivermos falando especificamente de infidelidade sexual autorrelatada, os estudos frequentemente encontram maior prevalência entre homens.

Mas a diferença não é tão simples quanto o velho estereótipo de que “homem trai e mulher não”.

Quando incluímos envolvimento emocional, comportamentos digitais e diferentes formas de quebra de acordos, a realidade fica mais complexa.

A pesquisa brasileira encontrou comportamentos semelhantes entre homens e mulheres, com diferenças principalmente no tipo de envolvimento relatado.

E a grande revisão internacional de 2024 reforça que a maneira como definimos e medimos a infidelidade influencia muito os resultados.

Portanto, talvez a resposta mais honesta seja:

Homens aparecem mais em algumas medidas de traição sexual. Mulheres também traem. E nenhum dos dois sexos pode ser reduzido a esse comportamento.

Porque traição não é uma característica masculina ou feminina.

É um comportamento humano.

Orientação:

Se você descobriu uma traição, tente não tomar decisões definitivas no auge do choque.

A descoberta pode provocar raiva, humilhação, ansiedade, tristeza e desejo de vingança.

Antes de decidir se quer continuar ou terminar, pode ser importante compreender:

  • O que aconteceu?
  • Há quanto tempo?
  • Foi um episódio isolado ou existe uma relação paralela?
  • Houve envolvimento emocional?
  • O parceiro reconhece o que fez?
  • Existe disposição real para reconstruir a confiança?
  • Os dois conseguem conversar sobre o que aconteceu?
  • O relacionamento já apresentava problemas antes da traição?

E, principalmente:

não confunda compreender a traição com aceitar a traição.

Você pode tentar entender o outro e, ainda assim, decidir que não quer mais aquela relação.

Também pode decidir reconstruir.

Não existe uma resposta universal.

Existe a história daquele casal.

Quando o sofrimento é intenso ou o casal não consegue conversar sem entrar em ciclos de agressão, silêncio ou ameaça de separação, buscar ajuda profissional pode ser uma alternativa importante.

Leonardo Oliveira é psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix.

Nota editorial:

Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação profissional. Os dados apresentados são resultados de pesquisas específicas e não devem ser interpretados como uma regra para todos os homens, todas as mulheres ou todos os relacionamentos.

Fontes:

Warach et al. (2024), Personal Relationships — revisão sistemática e meta-análise de 305 estudos, 508.241 participantes e 47 países. É a fonte mais importante para explicar as limitações dos dados sobre infidelidade.
Scheeren, Martínez de Apellániz & Wagner (2018), Trends in Psychology — estudo brasileiro com 237 participantes, incluindo dados de idade, diferenças entre homens e mulheres e motivos para a infidelidade.
Martins et al. (2016), Archives of Sexual Behavior — estudo sobre infidelidade presencial e on-line em relacionamentos de namoro.
Mark, Janssen & Milhausen (2011), Archives of Sexual Behavior — estudo sobre infidelidade sexual em relacionamentos heterossexuais.
Freud (1912), “On the Universal Tendency to Debasement in the Sphere of Love” — referência para a discussão psicanalítica sobre desejo, sexualidade e vida amorosa.



Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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