O perigo de confundir produtividade com saúde mental e como identificar os sinais sutis de exaustão emocional.
Por Leonardo Oliveira | Editorial Arena Remix
Você trabalha, cuida da casa, paga as contas, conversa com as pessoas, sorri, cumpre suas obrigações… mas, quando fica sozinho, percebe que alguma coisa não está bem? Talvez você não esteja “bem”, talvez apenas tenha aprendido a funcionar mesmo estando emocionalmente cansado, e existe uma diferença importante entre essas duas coisas.
Vivemos em uma sociedade que costuma associar funcionamento à saúde: se você consegue trabalhar, cuidar dos filhos, cumprir compromissos e manter sua rotina, muitas vezes ninguém imagina que possa existir sofrimento por trás disso. Mas a saúde mental é mais complexa do que simplesmente conseguir cumprir tarefas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define saúde mental como um estado de bem-estar que permite lidar com as tensões da vida, desenvolver capacidades, aprender, trabalhar e participar da comunidade. A própria OMS ressalta que a saúde mental existe em um continuum e pode mudar ao longo da vida. Isso significa que não precisamos dividir as pessoas simplesmente entre “saudáveis” e “doentes”; existe uma enorme quantidade de experiências entre esses dois extremos.
Quando funcionar vira apenas sobreviver ?
Imagine uma pessoa que acorda cansada todos os dias, ela vai trabalhar, entrega suas tarefas, responde às mensagens, cuida da família, cumpre suas responsabilidades. Por fora, parece perfeitamente funcional, mas perdeu o interesse pelas coisas que antes gostava, tem dificuldade para dormir, está constantemente irritada, não consegue se concentrar, evita conversar sobre o que sente e começa a perceber que está apenas esperando o dia terminar.
Essa pessoa pode estar passando por um sofrimento emocional importante, e o fato de continuar funcionando não significa que deva ignorá-lo. O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) orienta que sinais como alterações persistentes no sono ou apetite, dificuldade de concentração, perda de interesse, irritabilidade, baixa energia e dificuldade para realizar atividades habituais merecem atenção, especialmente quando são intensos, persistem ou começam a interferir na vida cotidiana.
Mas atenção: isso não significa que todo cansaço seja doença.
Esse ponto é fundamental: estar cansado não significa necessariamente estar doente, todos nós atravessamos períodos difíceis: uma separação, um problema financeiro, uma doença na família, uma mudança de emprego, uma perda, uma fase de excesso de responsabilidades, uma noite mal dormida. Sentir tristeza, preocupação, frustração ou cansaço diante de determinadas situações faz parte da experiência humana, o problema começa quando o sofrimento se torna intenso, persistente ou passa a comprometer diferentes áreas da vida. Por isso, não devemos transformar qualquer emoção desagradável em diagnóstico, sentir não é estar doente, o corpo fala e a mente pede pausa, também não devemos esperar chegar ao limite para começar a cuidar de nós mesmos. O corpo dá sinais, e nem sempre o sofrimento emocional aparece como tristeza, pode aparecer como irritação, insônia, cansaço constante, dificuldade de concentração, alterações no apetite, isolamento, perda de interesse, sensação de vazio, falta de prazer — ou até aquela impressão de que você está vivendo no piloto automático.O NIMH recomenda buscar ajuda profissional quando sintomas importantes persistem por cerca de duas semanas ou mais, especialmente quando começam a dificultar tarefas e responsabilidades habituais. Isso não significa que você precise esperar duas semanas para pedir ajuda: se o sofrimento for intenso, repentino ou se houver preocupação com sua segurança, procure atendimento antes.
Quando foi a última vez que você perguntou a si mesmo como realmente está?
Não a resposta automática, não o habitual “estou bem”, não o “é só uma fase”, não o “todo mundo está cansado”. Mas uma pergunta mais honesta: como eu estou vivendo?Porque às vezes nos acostumamos tanto com determinada forma de sofrimento que ela começa a parecer parte da nossa personalidade, a pessoa diz: “Eu sempre fui assim”. Será? Talvez ela sempre tenha sido assim, mas talvez também tenha aprendido a funcionar dessa maneira, aprendeu a não reclamar, a não pedir ajuda, aprendeu a cuidar de todo mundo, aprendeu a esconder a própria tristeza, aprendeu que demonstrar fragilidade era perigoso, aprendeu que precisava continuar, independentemente do que estivesse acontecendo por dentro.E continuar pode ser uma habilidade importante. Mas continuar sem nunca olhar para o que está acontecendo dentro de você pode cobrar um preço.
O que você pode fazer ?
Não existe uma fórmula única para cuidar da saúde mental, mas algumas atitudes ajudam:
* Observe mudanças no seu comportamento: Pergunte-se se você está diferente do que costumava ser. Seu sono mudou? Seu apetite mudou? Está mais irritado? Evitando pessoas? Perdeu o interesse por coisas que antes davam prazer? Tem tido dificuldade para realizar atividades simples?
* Não enfrente tudo sozinho: Conversar com alguém de confiança pode ser o primeiro passo. O isolamento costuma dificultar ainda mais a percepção do que está acontecendo.
* Cuide também do básico: Sono adequado, alimentação regular, atividade física, momentos de descanso e contato social contribuem para a saúde mental. O NIMH destaca essas práticas como parte do autocuidado — embora elas não substituam o tratamento quando existe uma condição que necessita de acompanhamento profissional.
* Procure ajuda profissional quando necessário: Psicólogos, psicanalistas e psiquiatras exercem funções complementares no cuidado mental. A escolha depende da necessidade individual. No SUS, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) oferece atendimento gratuito em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Você está vivendo ou apenas funcionando? Existe uma diferença entre levantar todos os dias porque precisa e levantar porque ainda encontra algum sentido no que está vivendo, existe diferença entre cumprir uma obrigação e sentir-se presente na própria vida, a saúde mental não exige felicidade o tempo inteiro, exige também poder reconhecer quando algo não está bem e permitir-se buscar cuidado. Às vezes, a pessoa não precisa de mais força: ela precisa parar por alguns minutos e perceber que já está cansada de ser forte o tempo todo.
Quando procurar ajuda ?
Imediatamente se você estiver em sofrimento intenso, tiver pensamentos de morte ou de se machucar, ou perceber que não consegue se manter em segurança, não enfrente isso sozinho.
No Brasil, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, todos os dias, oferecendo apoio emocional e prevenção do suicídio. Em emergências ou situações de risco imediato, procure um serviço de urgência (como UPA ou pronto-socorro) ou acione o SAMU pelo telefone 192.
Para guardar:
Talvez você esteja funcionando, talvez esteja trabalhando, cuidando de todo mundo e ninguém tenha percebido nada. Mas isso não responde à pergunta mais importante: como você está por dentro? Não espere parar de funcionar para reconhecer que precisa de cuidado, você não precisa chegar ao limite para começar a se escutar.
Sobre o autor Leonardo Oliveira é psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Portal Arena Remix.
Fontes:
* Organização Mundial da Saúde (OMS): Definição de saúde mental, continuum de saúde mental, fatores de risco e proteção.
* National Institute of Mental Health (NIMH/NIH): Sinais de sofrimento, autocuidado e quando procurar ajuda profissional.
* Ministério da Saúde: Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e serviços de urgência.
* Centro de Valorização da Vida (CVV): Apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas.Nota
Editorial (Portal Arena Remix): Este artigo tem caráter estritamente informativo e não substitui a avaliação de um profissional de saúde. Diagnósticos devem ser realizados por profissionais habilitados, considerando a história e as condições particulares de cada pessoa.

