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Entender o transtorno de personalidade borderline é ir além do rotulo de “pessoa difícil”, “dramática” ou “Instável”.
Por Leo Oliveira – Psicanalista
Existe uma palavra que ganhou enorme espaço nas redes sociais nos últimos anos: borderline, o problema é que, junto com a popularização do termo, vieram também os rótulos.
“Ela é borderline porque muda de humor.”
“Ele é borderline porque tem ciúmes.”
“É borderline porque não aceita o fim.”
“Ele ameaça terminar e depois volta.”
Mas transtorno de personalidade borderline não é sinônimo de ciúme, drama, intensidade ou simplesmente de alguém que sente demais.
É uma condição clínica complexa, marcada por um padrão persistente de instabilidade emocional, dificuldades nos relacionamentos, alterações na autoimagem, impulsividade e, em alguns casos, comportamentos de autolesão ou pensamentos e comportamentos suicidas.
E talvez a primeira coisa que precisemos fazer seja parar de olhar para essas pessoas apenas pelo comportamento, porque por trás de uma reação que parece exagerada pode existir um sofrimento que não aparece imediatamente para quem está olhando de fora.
NÃO É DRAMA.
Uma das maiores injustiças cometidas contra pessoas com transtorno de personalidade borderline é interpretar seu sofrimento como manipulação ou exagero, isso não significa que todo comportamento seja saudável ou que todas as atitudes devam ser justificadas.
Significa compreender que existe uma diferença entre responsabilizar alguém por seus atos e reduzir uma pessoa aos seus atos, o National Institute of Mental Health descreve o transtorno borderline como uma condição associada à instabilidade nos humores, comportamentos, autoimagem e funcionamento, podendo produzir relações instáveis e comportamentos impulsivos, em determinadas situações, uma mudança aparentemente pequena no relacionamento pode ser experimentada de maneira emocionalmente gigantesca.
Uma mensagem que não chegou.
Uma resposta diferente.
Uma pessoa que pareceu distante.
Uma discussão.
Uma separação.
Para quem está de fora, pode parecer “bobagem”, para quem está vivendo aquilo, a experiência emocional pode ser muito maior, é justamente aí que precisamos ter cuidado com julgamentos rápidos.
MEDO DO ABANDONO.
Um dos temas frequentemente associados ao transtorno borderline é o medo intenso de abandono, aqui existe uma diferença importante, não estamos falando simplesmente daquele medo comum de perder alguém.
Estamos falando de uma experiência em que a possibilidade de rejeição ou abandono pode assumir uma dimensão extremamente angustiante, a pessoa pode interpretar determinados acontecimentos como sinais de que será deixada e reagir de maneira intensa para tentar evitar essa perda.
Isso pode aparecer nos relacionamentos como aproximação intensa, necessidade de confirmação, conflitos, afastamentos, reconciliações e outras formas de tentar lidar com a ameaça percebida.
Mas existe uma armadilha perigosa:
olhar apenas para o comportamento e esquecer a experiência emocional que está por trás dele.
EU TE AMO E EU TE ODEIO PODEM PARECER MORAR MUITO PERTO.
Outro aspecto que chama atenção são as oscilações na maneira como a pessoa percebe a si mesma e aos outros, em determinados momentos, alguém pode ser colocado em um lugar extremamente idealizado.
Depois de uma frustração, essa mesma pessoa pode passar a ser percebida como cruel, indiferente ou completamente desinteressada, isso não significa necessariamente que exista uma estratégia consciente de manipulação.
Pode existir uma dificuldade importante em integrar sentimentos contraditórios, é como se fosse muito difícil sustentar simultaneamente:
“Essa pessoa me decepcionou, mas ainda gosto dela.”
Ou:
“Eu estou com raiva, mas isso não significa que eu deixei de amar.”
Na clínica, essa capacidade de sustentar sentimentos diferentes sobre a mesma pessoa é fundamental para compreender muitos conflitos relacionais e é justamente nesse ponto que uma leitura psicanalítica pode contribuir.
O QUE A PSICANÁLISE PODE ENXERGAR ALÉM DO COMPORTAMENTO.
A psicanálise não precisa começar perguntando apenas:
“Por que essa pessoa fez isso?”
Pode começar perguntando:
“O que essa atitude está tentando comunicar?”
Isso muda bastante a maneira de escutar, uma explosão de raiva pode carregar uma história, uma necessidade desesperada de confirmação pode esconder uma experiência de insegurança, uma dificuldade de ficar sozinho pode estar relacionada a experiências anteriores de perda, rejeição ou abandono.
Uma relação marcada por aproximações e afastamentos pode revelar conflitos que não começaram necessariamente naquela relação, isso não significa afirmar que todo borderline sofreu trauma, nem que existe uma única causa para o transtorno.
A realidade é muito mais complexa, pesquisas e revisões apontam a participação de diferentes fatores no desenvolvimento do transtorno, incluindo aspectos biológicos, psicológicos e ambientais.
Por isso, transformar borderline em uma simples consequência de “trauma de infância” também é simplificar demais.
BORDERLINE NÃO É SINÔNIMO DE MANIPULAÇÃO.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes, na internet, é comum encontrar conteúdos que descrevem a pessoa borderline como manipuladora, tóxica ou perigosa, esse tipo de generalização pode aumentar ainda mais o estigma.
Uma pessoa pode apresentar comportamentos que tenham efeito manipulativo sem que isso signifique que exista uma personalidade essencialmente manipuladora.
E isso vale para qualquer pessoa.
Compreender não significa passar a mão na cabeça.
A pessoa continua responsável por buscar tratamento, reconhecer seus comportamentos e desenvolver formas mais saudáveis de lidar com suas emoções e relações, ao mesmo tempo, familiares e parceiros também precisam compreender seus próprios limites.
Acolher sofrimento não significa aceitar qualquer comportamento.
E O TRATAMENTO.
A boa notícia é que borderline não significa sentença para uma vida inteira de sofrimento, existem tratamentos psicoterápicos com evidências de eficácia.
O NIMH aponta a psicoterapia como principal tratamento e cita abordagens como a terapia comportamental dialética, a terapia cognitivo-comportamental e outras formas de psicoterapia.
A Associação Americana de Psiquiatria também recomenda que pessoas com transtorno borderline recebam uma abordagem estruturada de psicoterapia que tenha suporte na literatura e seja direcionada às características centrais do transtorno.
Entre as abordagens estudadas estão a Terapia Comportamental Dialética (DBT), a Terapia Baseada em Mentalização (MBT) e a Psicoterapia Focada na Transferência (TFP).
E existem também estudos brasileiros sobre intervenções psicodinâmicas e psicanalíticas com pacientes borderline.
Em outras palavras:
há tratamento, há possibilidade de melhora e há possibilidade de construção de uma vida mais estável.
BORDERLINE NÃO É UMA IDENTIDADE.
Talvez essa seja a frase que eu mais gostaria que ficasse deste texto:
Borderline é um diagnóstico. Não é a identidade de uma pessoa.
Antes do diagnóstico existe alguém.
Existe uma história, existem relações, existem perdas, existem desejos, existem contradições, existem medos, existe sofrimento.
E existe também a possibilidade de mudança.
Quando transformamos um diagnóstico em identidade, deixamos de enxergar a pessoa.
E quando fazemos isso, o diagnóstico que deveria ajudar a compreender pode acabar servindo apenas para afastar.
Não faça diagnóstico através da internet.
Se existe uma preocupação importante quando falamos de borderline atualmente, é a banalização do diagnóstico, cinco vídeos no TikTok, Instagram ou outra rede qualquer não fazem uma avaliação clínica.
Uma lista de sintomas na internet não transforma alguém em borderline.
Uma pessoa que terminou um relacionamento e está sofrendo não necessariamente tem transtorno de personalidade borderline.
Alguém ciumento não necessariamente é borderline.
Alguém impulsivo não necessariamente é borderline.
Alguém que tem medo de ser abandonado não necessariamente é borderline.
O diagnóstico exige avaliação profissional, considerando a história da pessoa, seu funcionamento global, os padrões persistentes de comportamento e outros possíveis quadros que podem apresentar sintomas semelhantes. A própria APA recomenda uma avaliação abrangente, incluindo sintomas, histórico, condições coexistentes e avaliação de risco.
Talvez a pergunta não seja o que há de errado com essa pessoa.
Talvez uma pergunta mais humana seja:
“O que essa pessoa está tentando suportar?”
Isso não elimina responsabilidade, não transforma sofrimento em justificativa para machucar os outros, não significa romantizar comportamentos destrutivos.
Significa apenas reconhecer que, por trás de determinados comportamentos, existe uma pessoa tentando lidar com uma realidade interna que pode ser extremamente dolorosa.
E talvez seja justamente aí que começa um verdadeiro processo de cuidado.
Porque quando deixamos de enxergar apenas o rótulo, finalmente podemos começar a enxergar o sujeito.
Nota editorial:
Este artigo tem caráter informativo e educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissional habilitado. O termo “borderline” é utilizado neste texto para se referir ao Transtorno de Personalidade Borderline (TPB), uma condição clínica que deve ser avaliada individualmente.
Nem todo comportamento descrito neste artigo significa que uma pessoa tenha TPB. O diagnóstico não deve ser realizado por meio de testes informais, vídeos de redes sociais ou identificação de características isoladas.
Em situações envolvendo autolesão, tentativa ou risco de suicídio, violência ou risco imediato, é necessário buscar atendimento profissional e os serviços de emergência disponíveis na região.
Fontes:
National Institute of Mental Health (NIMH) — Borderline Personality Disorder.
American Psychiatric Association (APA) — The American Psychiatric Association Practice Guideline for the Treatment of Patients With Borderline Personality Disorder.
National Institute for Health and Care Excellence (NICE) — Borderline personality disorder: recognition and management.
Simoni, Benetti & Bittencourt (2018) — Intervenções do Terapeuta Psicanalítico no Processo Psicoterapêutico de uma Paciente com Transtorno de Personalidade Borderline. Trends in Psychology.
Vidal & Lowenkron (2010) — Ensino da psicoterapia no atendimento psiquiátrico dos pacientes com transtorno de personalidade borderline. Psicologia: Teoria e Pesquisa.
Cunha & Azevedo (2001) — Um caso de transtorno de personalidade borderline atendido em psicoterapia dinâmica breve. Psicologia: Teoria e Pesquisa.

