Um relatório da Polícia Federal (PF), que teve o sigilo derrubado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), aponta que uma rede de empresas ligadas ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) estruturou um complexo esquema de lavagem de dinheiro para ocultar repasses financeiros ilícitos. De acordo com os investigadores, parte expressiva desses recursos tem origem em Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master, que operaria o pagamento de uma “mesada” ao parlamentar.
A investigação, fundamentada em Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), detalha que o grupo utilizou familiares do senador, servidores públicos, beneficiários de programas sociais e o uso intensivo de dinheiro vivo para mascarar o fluxo financeiro. O esquema funcionava principalmente nos estados do Piauí e do Maranhão.
O “Circuito Integrado” e a Mesada de R$ 6 Milhões
Os analistas da PF identificaram o que chamam de um “circuito integrado” de movimentação financeira entre o núcleo empresarial das duas famílias. O principal canal de escoamento seria a parceria comercial fictícia ou dissimulada entre a empreiteira CNLF, controlada pela família de Ciro Nogueira, e a BRGD, empresa sob o controle de Vorcaro e de seus parentes.
Através dessa triangulação, o ex-banqueiro teria pago uma mesada regular ao senador que totalizou, no mínimo, R$ 6 milhões entre os anos de 2024 e 2025. O período dos repasses coincide exatamente com o agravamento da crise institucional e financeira do Banco Master e com as investidas de Vorcaro para salvar a instituição.
Em mensagens interceptadas de junho de 2025, o ex-banqueiro demonstra irritação com um de seus operadores logísticos por conta de atrasos nos repasses:
“Cara, eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”,
escreveu Vorcaro, evidenciando o caráter prioritário dos pagamentos ao parlamentar. Em outra frente de comunicações de agosto de 2025, a PF localizou planilhas de contabilidade paralela com a descrição explícita
“Espécie Ciro 350k”,
indicando repasses de R$ 350 mil em dinheiro vivo entregues por operadores do ex-banqueiro.
Conclusão da Policia Federal
Para a Polícia Federal, as transações não ocorreram de forma isolada, mas sim por meio de um arranjo articulado e recorrente de lavagem de ativos:
“Trata-se de estruturas recorrentes e interligadas, utilizadas, em tese, para a ocultação, dissimulação e reinserção de recursos de origem incompatível com a capacidade econômico-financeira formal dos envolvidos, tendo como possível beneficiário final o senador Ciro Nogueira”, aponta o relatório definitivo da corporação.
Vantagens em Viagens de Luxo
Além do fluxo de caixa fixo, a PF sustenta que Vorcaro mantinha uma “relação funcional e instrumental” com o parlamentar, financiando mimos de alto padrão no exterior que totalizaram cerca de R$ 468 mil — valor que não contabiliza o uso de jatos particulares.
Entre as vantagens documentadas pela investigação estão hospedagens na Suíte Royal do Park Hyatt em Nova York (com diárias de milhares de dólares), estadias no hotel Four Seasons de Lisboa, jantares em Paris com consumo de caviar e despesas em restaurantes de luxo na badalada estação de esqui de Courchevel, nos Alpes franceses.

Daniel Vorcaro (a esq) e Ciro Nogueira (a dir) em Courchevel, nos Alpes franceses (Reprodução/ TV Globo)
Contrapontos: A assessoria de imprensa do senador Ciro Nogueira e a defesa jurídica de Daniel Vorcaro foram procuradas para se manifestar sobre o teor do relatório da Polícia Federal, mas não enviaram posicionamentos formais até o fechamento desta reportagem.

