Buenos Aires, 27 de maio — Lideranças do peronismo argentino aceleraram negociações para construir uma ampla coalizão de oposição de olho na eleição presidencial de 2027, em meio ao desgaste político do presidente Javier Milei e à queda de sua popularidade após quase três anos de governo marcado por austeridade fiscal, cortes profundos no Estado e sucessivas crises políticas.
O principal articulador do movimento é Axel Kicillof, governador da Província de Buenos Aires e uma das principais lideranças do peronismo. Em entrevista à Reuters, Kicillof confirmou que já existem conversas para a formação de uma frente ampla oposicionista, incluindo setores políticos que antes mantinham distância do kirchnerismo, mas que hoje enxergam em Milei um adversário comum.
A movimentação ocorre após as eleições legislativas de outubro, nas quais o partido governista La LibertadAvanza consolidou força no Congresso e recebeu respaldo popular para aprofundar o programa de reformas econômicas. Apesar da vitória, o resultado também expôs sinais de desgaste do governo, principalmente ligados à perda de poder de compra da população, denúncias de corrupção e aumento da tensão social.
Nos bastidores, o peronismo tenta reorganizar uma estrutura fragmentada desde a derrota presidencial de 2023 para Milei. Entre os nomes cogitados para disputar a Presidência estão o próprio Kicillof e Sergio Massa, ex-ministro da Economia que perdeu para Milei no segundo turno há três anos.
PESQUISAS MOSTRAM CENÁRIO ABERTO
Levantamentos divulgados em maio indicam um cenário de forte equilíbrio entre governo e oposição. Segundo a consultoria Opina Argentina, Milei e o campo peronista aparecem tecnicamente empatados em intenção de voto. Já pesquisa da Trespuntozero mostra Kicillof numericamente à frente do presidente: 42% dos eleitores afirmam que votariam “com certeza” ou “possivelmente” no governador, contra 34% de Milei.
Os números refletem a deterioração da imagem presidencial desde o auge de popularidade registrado no início do mandato. Milei, que chegou a ultrapassar 50% de aprovação, agora enfrenta desgaste provocado pelos efeitos sociais do ajuste econômico e pela pressão inflacionária persistente, apesar da desaceleração dos índices oficiais.
O peronismo, por sua vez, tenta reconstruir sua base política enquanto ainda convive com a forte influência de Cristina Fernández de Kirchner, condenada por corrupção e atualmente cumprindo pena em prisão domiciliar em Buenos Aires. A ex-presidente segue sendo figura central do campo oposicionista, embora também represente um fator de divisão dentro da própria esquerda argentina.
Analistas políticos avaliam que o principal desafio da oposição será superar disputas internas históricas entre alas de centro-esquerda e setores mais moderados do peronismo. Ainda assim, cresce entre dirigentes a percepção de que apenas uma candidatura unificada teria força suficiente para enfrentar Milei em 2027.
A expectativa é que a pré-campanha presidencial argentina ganhe força a partir de agosto do próximo ano, após a Copa do Mundo e o período de férias de inverno no país.

