A rápida disseminação do vírus ebola foi intensificada, principalmente, pela desinformação e pela violência contra voluntários e centros de tratamento.
Quase dois meses após a República Democrática do Congo (RDC) confirmar um surto de ebola em uma de suas províncias, o vírus continua se espalhando rapidamente e já atingiu outras regiões do país, infectando um número crescente de pessoas.
Segundo dados do governo, até 8 de julho foram registrados 1.759 casos e 600 mortes. Em Uganda, também foram confirmados 20 casos, incluindo duas mortes.
Causa dos surtos
Os surtos são causados por uma rara variante do vírus, chamada Bundibugyo, que, até o momento, não possui tratamento ou vacina aprovados.
O chefe de Preparação e Resposta a Emergências dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças, Wessam Mankoula, afirmou a repórteres, nesta quinta-feira (9), que este é o surto com o crescimento mais rápido já registrado, não apenas entre os surtos provocados pela variante Bundibugyo, mas entre todos os diferentes vírus que causam o ebola.
Em outro desenvolvimento considerado preocupante, o Ministério da Saúde congolês informou que casos suspeitos também foram registrados nas províncias de Tshopo e Haut-Uélé, indicando que o surto continua se espalhando para além do epicentro, localizado em Ituri.
A disseminação do vírus foi intensificada por diversos fatores, entre eles o conflito armado em curso, os cortes na ajuda humanitária e os ataques contra profissionais de saúde e centros de tratamento, afirmam especialistas. Eles alertam ainda que este surto pode se tornar um dos mais letais já registrados.
Como esses fatores influenciam a disseminação da doença?
O surto de ebola na República Democrática do Congo foi registrado pela primeira vez em maio, na província de Ituri, no nordeste do país, e posteriormente se espalhou para as províncias vizinhas de Kivu do Norte e Kivu do Sul.
Essas regiões são palco de conflitos de longa duração, envolvendo diferentes grupos armados, que provocam mortes e deslocamentos populacionais. Em Ituri, por exemplo, há um conflito histórico entre milícias que disputam o controle dos recursos minerais da região.
O analista sênior do grupo de monitoramento de conflitos ACLED, Ladd Serwat, afirma que grupos armados na província têm dificultado o acesso de organizações humanitárias, especialmente em comunidades vistas como alinhadas a grupos étnicos rivais.
Kivu do Norte e Kivu do Sul
Nessas províncias, o Exército congolês e milícias aliadas enfrentam a coligação rebelde M23. Atualmente, governo e rebeldes controlam diferentes áreas do território.
Segundo Ladd Serwat, embora os profissionais de saúde consigam se deslocar entre as províncias, a divisão administrativa das áreas controladas dificulta a coordenação das ações médicas e o compartilhamento de informações.
“A sobreposição entre atividade militante, deslocamento populacional e fraco controle estatal pode complicar significativamente os esforços para conter o surto”, afirma Serwat.
Financiamento humanitário
O financiamento humanitário destinado à República Democrática do Congo diminuiu em 2025, principalmente após a decisão do governo de Donald Trump de congelar parte da ajuda externa destinada a programas financiados pelo Departamento de Estado.
Segundo Carla Martinez, chefe da RDC no Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, essa medida obrigou mais de dez organizações humanitárias a reduzir ou suspender suas atividades.
Sistema de saúde
Centros de tratamento do ebola e profissionais de saúde têm sido alvos constantes de ataques, tanto no surto atual quanto em epidemias anteriores nas províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul. Entre os incidentes registrados estão episódios de violência, danos à infraestrutura, interrupção da prestação de serviços e tumultos.
Além disso, a circulação de desinformação sobre o vírus, somada à desconfiança da população em relação aos profissionais de saúde, foi alimentada por décadas de instabilidade e interferência externa no leste da República Democrática do Congo.
Os ataques obrigam as equipes médicas a interromper ou adiar atividades que exigem resposta imediata, comprometendo os esforços de contenção da doença e aumentando o risco de transmissão entre a população.

