Morador de Kiev assiste prêdio em chamas após ataque russo no domingo (24) — Foto: REUTERS/Stringer
Bombardeio com 90 mísseis e 600 drones matou quatro pessoas e feriu mais de 80; foi a terceira vez que Moscou usou o Oreshnik no conflito.
KYIV — A Rússia lançou um bombardeio maciço contra Kyiv e região nas primeiras horas deste domingo (24), utilizando pela terceira vez na guerra o míssil balístico hipersônico Oreshnik, capaz de carregar ogivas nucleares e considerado impossível de ser interceptado. O ataque, que durou horas, matou pelo menos quatro pessoas e feriu mais de 80, segundo autoridades ucranianas.
O bombardeio combinou 90 mísseis de diferentes tipos — Oreshnik, Iskander, Kinzhal e Zircon — com 600 drones explosivos Shahed, em uma tática russa de saturar as defesas antiaéreas ucranianas. A Força Aérea da Ucrânia informou ter destruído ou inutilizado 549 drones e 55 mísseis, mas cerca de 19 projéteis atingiram seus alvos.
“Foi uma noite terrível”, afirmou o prefeito de Kyiv, VitaliKlitschko, em mensagem no Telegram. “Nunca houve nada igual em toda a guerra”, declarou a residente SvitlanaOnofryichuk, 55, que trabalhava há 22 anos em um mercado destruído pelo ataque.
Oreshnik atingiu cidade a 64 km de Kyiv
O míssil Oreshnik, que tem alcance de vários milhares de quilômetros e voa a mais de 13 mil km/h (10 vezes a velocidade do som), atingiu a cidade de Bila Tserkva, a cerca de 64 km ao sul de Kyiv, segundo o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. A cidade tem aproximadamente 200 mil habitantes e abriga bases militares.
O presidente russo, Vladimir Putin, já declarou no passado que o Oreshnik é impossível de ser interceptado devido à sua velocidade. As seis ogivas explosivas do míssil atingiram um local não divulgado em Bila Tserkva, conforme o jornal espanhol El País.
É a terceira vez em quatro anos de guerra que a Rússia utiliza o Oreshnik contra a Ucrânia. A primeira ocorreu em novembro de 2024 contra uma área industrial da província de Dnipropetrovsk — a primeira vez na história que uma potência nuclear usou um míssil desse tipo como arma de guerra. A segunda foi em janeiro de 2026 contra a província de Lviv, próxima à fronteira com a Polônia, em um movimento interpretado como uma ameaça à Otan.
Danos se espalham por toda a capital ucraniana
Explosões começaram a ser ouvidas em Kyiv pouco depois da 1h da madrugada de domingo (22h de sábado em Brasília), após alerta da Força Aérea ucraniana sobre possível lançamento de um Oreshnik. Moradores buscaram abrigo nas estações de metrô da cidade.
Ao amanhecer, a fumaça preta de vários incêndios cobria o horizonte de Kyiv. A fachada frontal de um edifício residencial de cinco andares desabou. O ataque danificou 50 locais em vários distritos da capital, incluindo edifícios residenciais, shopping centers, escolas e delegacias de polícia.
Janelas foram estilhaçadas no prédio do Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia, e danos foram relatados na histórica Praça da Independência (Maidan). O Museu Nacional de Arte da Ucrânia e o museu sobre o desastre de Chernobyl, no bairro de Podil, foram parcialmente destruídos por mísseis. O prédio da embaixada da Albânia em Kyiv também foi atingido, segundo o ministro das Relações Exteriores da Albânia, Ferit Hoxha, que classificou o ocorrido como “inaceitável” e uma “grave escalada”.
No total, na capital, duas pessoas morreram e 69 ficaram feridas, informou Klitschko. Outras duas pessoas foram mortas e nove feridas nos ataques à região mais ampla de Kyiv, disse o governador regional, Mykola Kalashnyk. Na cidade central de Cherkasy, 11 pessoas ficaram feridas quando um drone atingiu um bloco de apartamentos.
Rússia diz ter retaliado ataque ucraniano a civis
O Ministério da Defesa da Rússia confirmou o uso do Oreshnik e de outros mísseis, afirmando que os ataques atingiram “instalações de comando e controle militar” ucranianas, bases aéreas e empresas da indústria de defesa. A pasta acrescentou que o bombardeio foi uma retaliação a ataques ucranianos contra “instalações civis em território russo”.
O presidente Vladimir Putin denunciou na sexta-feira (22) um ataque de drone a um dormitório de uma faculdade no leste da Ucrânia sob ocupação russa, que Moscou atribuiu a Kyiv. Putin afirmou que não havia instalações militares ou policiais perto da faculdade. O número de mortos naquele ataque subiu para 21 na noite de sábado, com 42 feridos, segundo autoridades russas.
Moscou nega ter como alvo civis, embora milhares tenham sido mortos por seus bombardeios a cidades ucranianas durante a guerra.
Zelensky cobra consequências e aliados europeus condenam ataque
“É importante que isto não fique sem consequências para a Rússia”, escreveu Zelensky no Telegram. “São necessárias decisões — dos Estados Unidos, da Europa e de outros.” O presidente ucraniano afirmou que a Rússia também alvejou instalações de abastecimento de água, tentando danificá-las antes do aumento da demanda no verão.
Zelensky já havia alertado no sábado (23) que a Rússia preparava um ataque com o Oreshnik, com base em informações de inteligência da Ucrânia, dos EUA e da Europa.
Aliados europeus de Kyiv condenaram os ataques. Os presidentes da França, Emmanuel Macron, e da Alemanha, Friedrich Merz, divulgaram manifestações de repúdio neste domingo. A chefe da política externa da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou que os principais diplomatas dos Estados-membros se reunirão nos próximos dias para “discutir como aumentar a pressão internacional sobre a Rússia”.
Ucrânia enfrenta escassez de mísseis antiaéreos
Zelensky reconheceu que nem todos os mísseis balísticos foram interceptados e que a maioria dos ataques atingiu Kyiv, alvo principal do bombardeio. As aparentes falhas de interceptação destacam a escassez crônica de mísseis antiaéreos na Ucrânia capazes de abater mísseis balísticos.
Kyiv depende fortemente dos sistemas Patriot fornecidos pelos Estados Unidos para interceptar tais armas, mas os interceptadores continuam em falta e estão entre os pedidos mais urgentes da Ucrânia aos parceiros ocidentais. O desenvolvimento de uma alternativa produzida internamente tornou-se uma prioridade máxima para o Ministério da Defesa ucraniano, embora exija tempo e financiamento.
O bombardeio deste domingo é o maior em número de mísseis em 2026, e é preciso recuar até 2024 para encontrar precedentes semelhantes. Naquele ano, em três ocasiões, mais de 90 mísseis foram disparados. O ataque também é o mais pesante contra Kyiv desde o início da guerra, segundo a Reuters.
Resgate e próximos passos
Equipes de resgate continuam a operar nos locais dos ataques, apagando incêndios e removendo entulhos. O Serviço de Emergência da Ucrânia informou que o resgate foi complicado pelos incêndios que persistiram até a manhã, com edifícios desabando devido às explosões.
A Ucrânia informou que 33 drones ucranianos foram abatidos ou inutilizados sobre o território russo durante a noite, incluindo sobre a região de Moscou, o oeste e o sudoeste da Rússia e a Crimeia ocupada. Um drone ucraniano matou um civil na cidade russa de Grayvoron, na região de Belgorod, fronteiriça com a Ucrânia, segundo autoridades locais.
Um representante da Ucrânia na ONU negou as acusações russas de crimes de guerra em uma reunião de emergência do Conselho de Segurança realizada a pedido de Moscou, classificando-as como “puro show de propaganda” e afirmando que as operações de 22 de maio “visaram exclusivamente a máquina de guerra russa”.

