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O caso envolvendo Serginho em A Fazenda abre uma discussão sobre acusações, condenação social e os limites entre comportamento, intenção e neurodivergência.
Por Leo Oliveira — Psicanalista | Portal Arena Remix
Hoje basta uma acusação para que, em poucos minutos, alguém seja julgado, condenado e sentenciado pelas redes sociais.
Não é preciso investigação.
Nem ouvir os dois lados.
Às vezes, nem sequer assistir à cena completa.
Um recorte, uma frase, uma interpretação — e pronto: nasce um culpado.
Os acontecimentos recentes envolvendo Sérgio Hondjakoff, o Serginho, em A Fazenda 18, levantam uma discussão que ultrapassa os limites de um reality show.
A questão não é determinar aqui quem está certo ou errado.
É outra:
o que uma acusação pode fazer com a vida de alguém quando a condenação pública chega antes da apuração dos fatos?
O que aconteceu em A Fazenda?
Serginho se tornou centro de diferentes conflitos dentro do reality e recebeu acusações graves de outros participantes.
Um dos episódios de maior repercussão envolveu Ana Bruna, que relatou ter se sentido constrangida durante um abraço dado pelo ator enquanto ele estava de cueca e atribuiu ao contato uma conotação sexual.
Serginho negou essa intenção.
Na edição exibida em 29 de setembro, Adriane Galisteu informou que a produção havia analisado as imagens disponíveis e que, naquele momento, não havia elementos para expulsar o participante. Ao mesmo tempo, deixou claro que o desconforto relatado por Ana deveria ser respeitado.
E esse talvez seja o ponto central.
Uma pessoa pode ter se sentido genuinamente desconfortável.
A outra pode afirmar que não teve a intenção atribuída a ela.
É justamente por isso que existe uma etapa chamada apuração.
Ouvir não é condenar.
Quando alguém relata ter sofrido violência, constrangimento ou invasão de limite, precisa ser ouvido.
Mas escutar uma denúncia não significa transformar imediatamente uma acusação em sentença.
Existe diferença entre dizer:
“Essa pessoa relatou ter se sentido assediada.”
e afirmar:
“Essa pessoa é um assediador.”
A primeira frase descreve um relato.
A segunda já apresenta uma conclusão.
Essa diferença pode parecer pequena, mas não é.
Para quem está sendo acusado, pode significar carregar um rótulo que sobreviverá até mesmo a qualquer esclarecimento posterior.
A acusação corre. O esclarecimento vem depois.
Esse é um dos aspectos mais cruéis do julgamento público.
A acusação se espalha rápido.
Vira postagem.
Vídeo.
Comentário.
Manchete.
O nome da pessoa passa a caminhar junto com aquilo que foi dito sobre ela.
Depois, se surgem novas informações, uma investigação produz outra interpretação ou a acusação não se confirma, nem sempre a correção alcança as mesmas pessoas.
Na internet, muitas vezes, a absolvição não tem a mesma audiência da acusação.
E o preço pode ser alto.
Trabalho.
Relacionamentos.
Família.
Autoestima.
Reputação.
É por isso que falsas acusações, quando de fato comprovadas como falsas, podem ser devastadoras.
Mas uma distinção precisa permanecer clara:
uma acusação não comprovada não é automaticamente uma acusação falsa.
Ausência de prova não significa, por si só, invenção deliberada.
Sem essa diferença, deixamos de buscar a verdade e passamos apenas a escolher um lado.
Percepção não é a mesma coisa que intenção.
Seres humanos não vivem os acontecimentos da mesma maneira.
Nossa história, nossos medos, experiências, traumas e limites influenciam a forma como interpretamos o que acontece ao nosso redor.
Uma brincadeira pode parecer engraçada para alguém e invasiva para outra pessoa.
Um gesto pode ser entendido como espontâneo por um e desconfortável por outro.
Isso não invalida o desconforto.
Mas também não significa que todo efeito produzido revele automaticamente a intenção de quem agiu.
Efeito e intenção não são a mesma coisa.
Uma atitude pode causar incômodo sem que tenha existido uma intenção consciente de causar aquele incômodo.
Por isso, relações humanas exigem algo que as redes sociais parecem ter cada vez menos: contexto.
E existe ainda o TDAH.
Durante uma dinâmica do programa, Serginho foi questionado sobre punições recebidas por descumprimento de regras da casa.
Ao responder, afirmou:
“Meu TDAH é severo. Eu me confundi com meus pensamentos.”
O ator já havia falado publicamente sobre o diagnóstico anteriormente.
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é um transtorno do neurodesenvolvimento e pode envolver dificuldades de atenção, impulsividade, organização e funções executivas.
Por isso, pessoas com TDAH são frequentemente incluídas dentro do conceito mais amplo de neurodivergência.
Na prática, isso significa que determinadas situações, estímulos e regras sociais podem ser processados de maneira diferente.
Mas aqui precisamos evitar outro extremo.
Neurodivergência não é salvo-conduto.
Ter TDAH não significa desconhecer limites.
Não significa que toda atitude inadequada seja causada pelo transtorno.
E muito menos significa que qualquer comportamento possa ser justificado dizendo:
“Foi meu TDAH.”
Isso seria injusto inclusive com milhões de pessoas neurodivergentes.
O que o diagnóstico pode oferecer é contexto.
Pessoas com TDAH podem apresentar maior impulsividade, dificuldade de inibição, distração e alterações em funções executivas.
Estudos também investigam diferenças em aspectos da cognição social, como interpretação de situações ambíguas, comunicação não verbal e processamento emocional.
Mas nenhuma dessas características autoriza concluir que um comportamento específico ocorreu “por causa do TDAH”.
Compreender não é justificar.
É apenas evitar que toda diferença de comportamento seja automaticamente transformada em maldade, manipulação ou intenção deliberada.
O perigo está em achar que sabemos exatamente o que o outro quis fazer.
Imagine alguém impulsivo.
Fala antes de pensar.
Interrompe.
Esquece uma regra.
Faz uma brincadeira em uma hora inadequada.
Não percebe imediatamente que incomodou alguém.
Quem observa pode concluir:
“Está fazendo de propósito.”
“Quer provocar.”
“Não respeita ninguém.”
Talvez.
Mas talvez não.
E essa palavra — talvez — parece estar desaparecendo.
Queremos respostas instantâneas.
Culpados instantâneos.
Diagnósticos instantâneos.
O problema é que seres humanos raramente cabem em conclusões tão rápidas.
O reality cria personagens. As redes completam a história.
Dentro de um programa como A Fazenda, comportamentos rapidamente viram personagens.
O mocinho.
O vilão.
O perseguido.
O manipulador.
O inconveniente.
E depois que alguém recebe um rótulo, surge um mecanismo conhecido: passamos a enxergar novos acontecimentos como confirmação daquilo que já acreditávamos.
É o chamado viés de confirmação.
Quando alguém passa a ser visto como “problemático”, praticamente qualquer atitude pode servir para reforçar essa imagem.
E isso não acontece apenas na televisão.
Acontece em famílias.
Empresas.
Escolas.
Relacionamentos.
Depois que decidimos quem alguém é, muitas vezes deixamos de observar seus atos para apenas procurar provas da nossa própria opinião.
Quando a acusação é realmente falsa.
Se alguém é deliberadamente acusado de algo que não fez, o dano pode atravessar anos.
Não estamos falando apenas de uma mentira.
Estamos falando de reputação, vínculos, trabalho e identidade social.
Dependendo da gravidade da acusação, uma pessoa pode passar muito tempo tentando provar algo que deveria ser simples:
que não fez aquilo que disseram que ela fez.
E existe uma realidade difícil de ignorar:
a verdade pode inocentar alguém, mas nem sempre devolve tudo aquilo que a acusação levou.
É justamente por isso que denúncias precisam ser tratadas com seriedade.
E por serem sérias, precisam ser apuradas com responsabilidade.
Nem descrer imediatamente. Nem condenar imediatamente.
Talvez tenhamos transformado a discussão em dois extremos:
“Ela está mentindo.”
ou:
“Se ela acusou, então aconteceu.”
Nenhuma dessas frases deveria substituir os fatos.
É possível ouvir quem denuncia sem condenar antecipadamente quem é denunciado.
É possível permitir defesa sem atacar quem relatou desconforto.
É possível respeitar sentimentos e, ao mesmo tempo, investigar acontecimentos.
Isso não é passar pano.
É responsabilidade.
A Fazenda apenas amplifica algo que acontece todos os dias.
O caso Serginho provavelmente dará lugar a outra polêmica.
Outro conflito surgirá.
Outro participante ocupará as redes.
Mas a questão permanece.
Vivemos numa época em que todos carregam um pequeno tribunal no bolso.
Acusamos.
Julgamos.
Compartilhamos.
Sentenciamos.
Tudo em minutos.
E quase nunca fazemos a pergunta mais simples:
“Será que eu conheço a história inteira?”
Denunciar algo grave exige coragem.
Acusar alguém de algo grave também exige responsabilidade.
E entre essas duas coisas existe algo que não pode desaparecer:
a busca pela verdade.
Nota editorial
Este artigo não afirma que as acusações feitas contra Sérgio Hondjakoff em A Fazenda 18 sejam falsas, nem pretende desqualificar o relato de qualquer participante. O episódio é utilizado como ponto de partida para discutir os danos provocados por acusações comprovadamente falsas, os riscos da condenação pública antecipada e a importância de compreender a neurodivergência sem transformá-la em justificativa automática para comportamentos inadequados.
A menção ao TDAH de Serginho parte de declarações públicas feitas pelo próprio participante e de relatos anteriores sobre diagnóstico. Este artigo não pretende realizar avaliação clínica nem estabelecer relação causal entre o transtorno e episódios específicos ocorridos no programa.
Fontes:
Record / R7 — A Fazenda 18
Cobertura oficial do programa e dos conflitos envolvendo Sérgio Hondjakoff.
Folha de S.Paulo / F5
Cobertura sobre as acusações envolvendo o participante e o posicionamento da produção do reality.
CNN Brasil
Cobertura da decisão da Record após os pedidos de expulsão.
Gshow
Entrevista em que Sérgio Hondjakoff relata diagnóstico de TDAH.
Centers for Disease Control and Prevention — CDC
Informações sobre TDAH em adultos e sua classificação como transtorno do neurodesenvolvimento.
National Institute for Health and Care Excellence — NICE
Diretrizes clínicas sobre diagnóstico, sintomas e impactos funcionais do TDAH.
PubMed — Revisões sobre cognição social e TDAH
Estudos sobre funções executivas, comunicação e processamento de situações sociais em pessoas com TDAH.
Frase de destaque
“Ouvir uma denúncia é necessário. Transformar uma acusação em sentença antes da apuração é outra coisa.”
Leo Oliveira
Psicanalista

