Relações Internacionais

Governo Trump destinou US$ 1 milhão para campanha contra o STF no Brasil, revela Guardian

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Verba faz parte de pacote de US$ 176,9 milhões do Departamento de Estado para projetos conservadores e de extrema-direita em vários países; secretário Marco Rubio assinou pessoalmente memorando para liberar recursos bloqueados por senadora democrata; Abin já havia alertado para risco de interferência dos EUA nas eleições

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O projeto contra o STF

O governo dos Estados Unidos destinou US$ 1 milhão** (cerca de **R$ 5,2 milhões) para financiar um projeto que contesta a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) . A informação foi revelada nesta quarta-feira (30) pelo jornal britânico The Guardian, que teve acesso a documentos do governo norte-americano.

O projeto voltado ao Brasil é intitulado “Countering Lawfare and Censorship in Brazil” (“Combatendo o Lawfare e a Censura no Brasil”, em tradução livre). Segundo os documentos obtidos pelo Guardian, a iniciativa financiaria organizações da sociedade civil que se opõem ao que o programa classifica como “excesso de poder judicial” e “censura” por parte do STF . A campanha contra a Corte brasileira integra uma lista de 43 projetos que receberam um total combinado de **US$ 176,9 milhões** (cerca de R$ 917 milhões) liberados pelo Departamento de Estado dos EUA, por meio do Human Rights and Democracy Fund (HRDF) , para impulsionar “causas conservadoras e de direita” pelo mundo.

O Guardian lembrou que o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci, foram sancionados com a Lei Magnitsky em julho do ano passado “após lobby de Eduardo Bolsonaro”, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. A medida acabou sendo revogada em dezembro de 2025.

O pacote de US$ 176,9 milhões e a reação no Congresso

A distribuição do dinheiro provocou reação no Congresso dos Estados Unidos . Segundo um assessor parlamentar democrata ouvido pelo Guardian, a senadora Jeanne Shaheen, principal representante democrata no Comitê de Relações Exteriores do Senado, havia mantido bloqueios sobre repasses que somavam US$ 22 milhões . Os projetos atingidos envolviam Brasil, África do Sul, Nigéria, Reino Unido e outros países europeus .

Ainda segundo o assessor, o secretário de Estado Marco Rubio assinou pessoalmente um memorando para desconsiderar os bloqueios e permitir o empenho dos recursos . O Departamento de Estado liberou o dinheiro horas antes do fim do ano fiscal norte-americano, em 30 de setembro, data limite para autorização de recursos.

Shaheen afirmou ao jornal que o dinheiro havia sido aprovado pelo Congresso, com apoio bipartidário, para “defender direitos humanos, auxiliar vítimas de violações e promover a democracia” . Para a senadora, o governo Trump passou a direcionar parte desses recursos a “organizações e programas de extrema-direita em democracias estabelecidas” . “Isso é um desperdício de recursos e mina os valores dos Estados Unidos e as relações com parceiros democráticos, incluindo aliados na Europa” , declarou.

Os outros projetos do pacote

O pacote de US$ 176,9 milhões** não se limita ao Brasil. A maior concessão, de **US$ 40 milhões, foi direcionada a um consórcio liderado pela Victims of Communism Memorial Foundation (VOC) , organização anticomunista que já recebeu verbas menores no passado. O documento de análise do Departamento de Estado registra US$ 96.997 em contratos anteriores entre a fundação e a pasta nos últimos cinco anos, todos no ano fiscal de 2022.

O pacote também inclui:

  • US$ 2 milhões para um programa intitulado “Promoting Western Civilization Allies” , que será limitado a implementadores que não subscrevam “relatos ideologicamente armados de direitos humanos, como ideologia de gênero” . Os possíveis destinatários estão na Polônia, Eslováquia, República Tcheca, Hungria e Bálcãs .
  • US$ 2 milhões para redes de alerta precoce protegendo cristãos na Nigéria .
  • US$ 3 milhões para a Jobs Foundation , grupo britânico liderado por Matthew Elliott , que comandou a campanha Vote Leave pelo Brexit. O projeto, intitulado “Countering Overregulation to Advance American Investment” , promoveria um “índice de capitalismo do bem comum” e políticas pró-negócios.
  • US$ 1 milhão para um consórcio de jornalismo que contestaria designações de mídia “confiável” .
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O documento também revela que uma proposta de US$ 5 milhões** para a **Free Speech Union** , do britânico **Toby Young** , foi **marcada como “retirada”** . Um prêmio de **US$ 7 milhões para o think tank 878 , fundado por Jacob Rees-Mogg , foi abandonado em julho após pressão do Congresso.

Alerta da Abin sobre interferência

A revelação do financiamento ocorre em meio a um alerta reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) , enviado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) , que apontou risco crítico de interferência dos Estados Unidos nas eleições de 2026 . Segundo o documento, a gestão de Donald Trump busca reafirmar sua hegemonia na América Latina e conter a presença de potências rivais, como a China . O Brasil tornou-se alvo central por manter autonomia estratégica e disposição política para defender seus próprios interesses .

A tensão entre os dois países já havia se intensificado com a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, com as sanções contra o ministro Alexandre de Moraes e com a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas .

Senadores dos EUA pedem que Trump não interfira

Três senadores democratas dos Estados Unidos — Jeanne Shaheen, Peter Welch e Tim Kaine — enviaram uma carta ao secretário de Estado Marco Rubio defendendo a não interferência do governo dos EUA nas eleições no Brasil . No texto, os parlamentares fazem dois questionamentos:

1. Como o Departamento de Estado “coordena seus objetivos de democracia e direitos humanos com parceiros regionais no Hemisfério Ocidental, particularmente no que diz respeito à assistência técnica ou ao monitoramento de processos eleitorais e judiciais?”
2. Se o governo americano poderia se comprometer “a reconhecer o resultado certificado das eleições democráticas de 2026 no Brasil e a apoiar relações diplomáticas normais com o candidato que for livre e justamente escolhido pelo povo brasileiro?”

O que diz o governo americano

O Departamento de Estado não respondeu diretamente ao Guardian se todos os valores já haviam sido formalmente comprometidos. Afirmou, no entanto, que os programas permaneciam em “deliberação ativa” e que os futuros beneficiários passariam pelos procedimentos regulares de análise exigidos para repasses federais.

A pasta também não comentou individualmente cada concessão. Em nota, um funcionário do Departamento de Estado afirmou que “nosso programa na Europa visa apoiar nossos aliados europeus na defesa desses direitos e princípios, juntamente com sua autoconfiança civilizacional e soberania” .

A revelação do financiamento aumenta a pressão sobre o governo brasileiro e pode agravar ainda mais a tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos, a poucos dias do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro . O Itamaraty ainda não se manifestou oficialmente sobre o caso. O STF também não comentou.

Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

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