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Depois de muito tempo vivendo no conflito, a tranquilidade também pode parecer estranha. E aquilo que deveria trazer alívio pode despertar ansiedade.
Por Leo Oliveira | Coluna de Psicanálise — Arena Remix
Existe uma situação curiosa que aparece na vida de algumas pessoas.
Depois de muito tempo enfrentando problemas, finalmente as coisas começam a melhorar.
A relação termina.
O ambiente de trabalho muda.
As contas entram no eixo.
A família fica mais tranquila.
A ansiedade diminui.
A vida começa, finalmente, a oferecer um pouco de descanso.
Mas, em vez de sentir alívio, a pessoa fica inquieta.
Começa a imaginar que alguma coisa ruim vai acontecer.
Procura problemas onde não existem.
Desconfia quando alguém demonstra carinho.
Sente culpa por descansar.
Ou simplesmente não consegue aproveitar o momento.
É como se a tranquilidade provocasse uma pergunta silenciosa:
“Será que eu posso realmente ficar bem?”
Quando o caos vira familiar
Estamos acostumados a pensar que as pessoas procuram aquilo que lhes faz bem.
E, em grande parte, procuram mesmo.
Mas o ser humano não se relaciona apenas com aquilo que é bom.
Também desenvolvemos familiaridade com aquilo que conhecemos.
Uma pessoa que passou anos vivendo em conflito pode acabar reconhecendo o conflito com mais facilidade do que a tranquilidade.
Não significa que ela goste de sofrer.
Significa que o sofrimento pode ter se tornado conhecido.
E existe uma diferença importante entre aquilo que é saudável e aquilo que é familiar.
O familiar transmite uma sensação de previsibilidade.
Mesmo quando é ruim.
É por isso que uma mudança positiva também pode provocar desconforto.
Não porque a pessoa queira voltar ao sofrimento, mas porque ainda não sabe muito bem como viver fora dele.
O silêncio também pode incomodar
Imagine alguém que passou anos dentro de uma relação cheia de discussões.
Quando finalmente termina, encontra silêncio.
No começo, o silêncio parece liberdade.
Depois, pode virar estranheza.
A pessoa começa a sentir falta das mensagens, das cobranças, das brigas, da intensidade.
E pode interpretar essa falta como saudade do relacionamento.
Mas talvez esteja sentindo falta de uma rotina emocional que, apesar de desgastante, era conhecida.
Isso merece cuidado.
Porque intensidade não é necessariamente intimidade.
E tranquilidade não é necessariamente falta de amor.
Às vezes, aquilo que chamamos de “química” é apenas o reconhecimento de um padrão emocional ao qual estamos acostumados.
Na psicanálise, repetição é uma questão importante
Freud percebeu algo intrigante na experiência humana: nem sempre repetimos aquilo que nos faz bem.
Em Além do Princípio do Prazer, publicado em 1920, ele discutiu fenômenos de repetição que não pareciam explicar-se simplesmente pela busca do prazer.
A partir daí, a psicanálise passou a dedicar grande atenção à repetição.
Por que algumas pessoas parecem voltar aos mesmos tipos de situação?
Por que determinadas histórias mudam de personagem, mas preservam a mesma estrutura?
Por que alguém diz que não quer mais viver determinada experiência e, algum tempo depois, se encontra novamente em algo parecido?
Não existe uma resposta única.
Mas a repetição pode indicar que existe algo ainda não elaborado.
E aqui é importante não transformar isso em uma sentença:
repetir não significa estar condenado a repetir para sempre.
Perceber o padrão já pode modificar a maneira como nos relacionamos com ele.
Às vezes, o problema não é a felicidade. É o que ela exige
Ficar bem também pode nos colocar diante de responsabilidades.
Quando estamos em crise, existe um problema para resolver.
Quando tudo está relativamente bem, surge outra questão:
“E agora, o que eu faço com a minha vida?”
É uma pergunta muito maior.
Uma pessoa pode passar anos dizendo:
“Quando isso acabar, eu vou viver.”
“Quando eu sair dessa relação, vou cuidar de mim.”
“Quando resolver esse problema, vou começar aquele projeto.”
Mas, quando o problema finalmente termina, o futuro deixa de ser uma promessa distante.
Ele chega.
E isso pode assustar.
Porque viver também exige escolhas.
E escolher significa abrir mão de possibilidades.
Existe também a culpa por estar bem
Algumas pessoas carregam uma ideia silenciosa de que não deveriam estar felizes.
Sentem culpa porque alguém da família está sofrendo.
Sentem culpa porque sobreviveram a uma situação que outras pessoas não conseguiram superar.
Sentem culpa por descansar enquanto acreditam que deveriam estar produzindo.
Sentem culpa até quando começam a gostar da própria vida depois de uma separação.
Como se melhorar fosse uma espécie de traição ao passado.
Mas existe uma diferença entre lembrar de quem sofreu conosco e permanecer sofrendo para provar que não esquecemos.
A dor não precisa ser mantida para que uma história continue sendo importante.
E quando tudo está bem, surge o medo de perder
Existe ainda outro movimento.
A pessoa finalmente encontra algo bom e imediatamente começa a imaginar como aquilo pode acabar.
Conhece alguém e pensa:
“Quando essa pessoa vai me abandonar?”
Recebe uma oportunidade e pensa:
“Quanto tempo até dar errado?”
Tem um dia tranquilo e espera pela próxima tragédia.
É como se a mente tentasse se proteger antecipando a perda.
Mas existe um problema nesse mecanismo:
quem passa a vida tentando se preparar para sofrer também pode ter dificuldade de perceber quando a vida está oferecendo algo bom.
A antecipação da dor pode se transformar em uma forma de não viver plenamente o presente.
Não é preciso transformar tudo em trauma
É importante fazer uma ressalva.
Nem toda pessoa que se sente desconfortável diante de mudanças positivas tem algum trauma escondido.
Nem toda dificuldade de relaxar significa um mecanismo inconsciente profundo.
Às vezes, estamos apenas cansados.
Às vezes, estamos atravessando uma fase difícil.
Às vezes, uma mudança importante naturalmente provoca insegurança.
A psicanálise não precisa transformar cada comportamento cotidiano em diagnóstico.
Seu papel pode ser outro:
ajudar a formular perguntas melhores.
E talvez uma delas seja:
“Por que, quando a vida começa a ficar mais tranquila, eu sinto necessidade de criar um novo problema?”
Aprender a viver sem o problema também é uma mudança
Imagine alguém que passou anos tentando sobreviver.
Resolver problemas virou sua identidade.
Ser forte virou obrigação.
Cuidar de todo mundo virou rotina.
Estar sempre alerta parecia necessário.
Quando finalmente surge um período de tranquilidade, essa pessoa pode não saber o que fazer com o próprio tempo.
Quem sou eu se não estou resolvendo alguma coisa?
Quem sou eu se não estou salvando alguém?
Quem sou eu se não estou tentando sobreviver?
Talvez essa seja uma das questões mais profundas.
Porque algumas pessoas aprenderam tão bem a sobreviver que ainda precisam aprender a viver.
Ficar bem não significa que nada mais dará errado
Talvez parte da dificuldade esteja justamente nessa expectativa.
Pensamos que, quando estivermos finalmente bem, tudo permanecerá bem.
Mas a vida não funciona assim.
Problemas continuarão aparecendo.
Pessoas irão embora.
Planos mudarão.
Haverá perdas.
Haverá frustrações.
Ficar bem não significa alcançar um lugar onde nada mais dói.
Significa talvez desenvolver recursos para atravessar aquilo que vier sem precisar transformar cada dificuldade em uma condenação.
A tranquilidade não é a ausência definitiva de problemas.
É a possibilidade de não viver permanentemente em função deles.
Talvez você não tenha medo de ser feliz
Talvez você tenha medo de confiar na felicidade.
Talvez tenha aprendido que tudo o que é bom acaba.
Que confiar é perigoso.
Que relaxar significa baixar a guarda.
Que amar significa correr o risco de perder.
Que depender de alguém significa sofrer.
E então, quando algo bom aparece, você começa a procurar a saída antes mesmo de entrar.
Não necessariamente porque quer destruir aquilo.
Mas porque ainda não aprendeu que algumas coisas podem simplesmente existir sem que você precise controlá-las o tempo inteiro.
Isso também é uma aprendizagem.
Talvez o desafio seja permitir que o bom seja bom
Existe uma frase que parece simples, mas pode ser difícil de viver:
“Está tudo bem.”
Para algumas pessoas, essa frase provoca mais desconforto do que deveria.
Porque, depois de muito tempo vivendo no alerta, a paz parece suspeita.
Mas talvez seja necessário aprender, pouco a pouco, a não procurar uma tragédia escondida em cada momento de tranquilidade.
Receber um carinho sem desconfiar.
Descansar sem culpa.
Viver um dia bom sem perguntar quando ele vai acabar.
Gostar de alguém sem transformar imediatamente o amor em medo de perder.
Isso não significa ingenuidade.
Significa reconhecer que tentar controlar antecipadamente todas as perdas também pode nos fazer perder aquilo que está acontecendo agora.
Talvez a pergunta seja outra
Quando a vida finalmente ficar tranquila, observe o que acontece dentro de você.
Você consegue aproveitar?
Ou imediatamente procura alguma coisa para resolver?
Você consegue receber amor?
Ou começa a imaginar quando ele vai acabar?
Você consegue descansar?
Ou sente culpa?
Você consegue simplesmente viver um dia bom?
Ou precisa descobrir qual será o próximo problema?
Talvez não seja medo da felicidade.
Talvez seja dificuldade de acreditar que ela pode permanecer por algum tempo sem que você precise lutar por ela.
E talvez amadurecer também seja isso:
aprender que nem todo silêncio anuncia uma tempestade.
Às vezes, depois de passar tanto tempo sobrevivendo, o maior desafio não é sair do sofrimento. É aprender o que fazer quando ele deixa de ocupar todo o espaço.
NOTA EDITORIAL
Este artigo apresenta uma reflexão psicanalítica sobre repetição, mudança, sofrimento e a dificuldade de lidar com períodos de tranquilidade. As interpretações propostas não constituem diagnósticos individuais. A psicanálise é utilizada aqui como uma lente possível para pensar experiências humanas, e não como explicação única para determinados comportamentos.
FONTES
- Freud, S. — Além do Princípio do Prazer (1920).
- Freud, S. — Recordar, Repetir e Elaborar (1914).
- American Psychological Association — materiais sobre estresse, ansiedade, adaptação e mudanças de vida.

