Saúde e bem estar

A intenção pode ser uma. O efeito, outro: o peso da fala de Lula sobre mulheres “desde pequenas”

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O presidente falava sobre prevenção ao câncer de próstata. Mas quando o assunto envolve mulheres, infância, corpo e toque, as palavras utilizadas também precisam ser discutidas.

Por Leo Oliveira — Psicanalista

Existe uma diferença enorme entre dizer que alguém quis falar sobre abuso infantil e questionar se a maneira como essa pessoa escolheu se expressar foi adequada.

Essa diferença precisa ficar muito clara antes de qualquer análise.

Durante um evento em Belém, no Pará, em 28 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva falava sobre prevenção ao câncer de próstata e sobre a resistência de muitos homens aos exames médicos. Foi nesse contexto que afirmou:

“As mulheres aprendem a tomar toque desde quando é pequena.”

A íntegra da fala deixa claro que Lula estava comparando a relação de homens e mulheres com exames de saúde. Portanto, utilizar apenas esse trecho para afirmar que o presidente estava defendendo abuso sexual ou pedofilia não corresponde ao contexto em que a declaração foi feita. Agências de checagem chegaram à mesma conclusão.

Mas reconhecer o contexto não encerra a discussão, talvez seja justamente aí que ela comece.

Uma coisa é aquilo que queremos dizer. Outra é aquilo que nossas palavras permitem ouvir.

A linguagem não funciona apenas pela intenção de quem fala, quem comunica entrega palavras e essas palavras encontram histórias, medos, experiências, traumas e significados diferentes em quem as recebe.

Na clínica psicanalítica percebemos isso o tempo inteiro.

Uma pessoa pode dizer:

“Eu estava brincando.”

Enquanto a outra responde:

“Mas aquilo me feriu.”

A intenção ajuda a compreender o episódio, mas não apaga automaticamente o efeito produzido, na comunicação pública ocorre algo semelhante.

Quando o presidente da República utiliza numa mesma frase expressões como “mulheres”, “toque” e “desde pequena”, cria-se uma construção linguística extremamente sensível.

Especialmente porque estamos falando de uma sociedade que precisa ensinar exatamente o contrário às crianças:

Ninguém tem o direito de tocar seu corpo simplesmente porque você deve se acostumar com isso.

Meninas não precisam aprender a aceitar o toque. Precisam aprender a reconhecer limites.

Existe uma diferença fundamental entre um procedimento médico necessário, realizado dentro de critérios profissionais, com explicação, respeito e indicação clínica, e a ideia genérica de que meninas deveriam se “acostumar” a serem tocadas.

Consultas ginecológicas podem começar ainda na puberdade, inclusive para orientação sobre desenvolvimento, menstruação e saúde sexual. A própria Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia destaca que esse atendimento deve envolver confiança, privacidade, confidencialidade e respeito aos limites da adolescente.

Isso, entretanto, não significa que exames ginecológicos internos sejam uma rotina simplesmente porque a paciente é jovem. Orientações do American College of Obstetricians and Gynecologists indicam que adolescentes normalmente não necessitam de exame pélvico interno na primeira consulta, a menos que exista uma indicação clínica. A instituição também destaca a necessidade de explicar o procedimento e respeitar o direito da paciente de recusá-lo.

Essa distinção é importante.

Cuidado médico não deveria ensinar uma menina a suportar invasões do próprio corpo. Deveria ensiná-la que qualquer procedimento tem motivo, limite, explicação e contexto.

O problema da palavra “acostumar”.

Talvez exista aqui uma questão ainda maior.

Durante muito tempo, mulheres foram socializadas para suportar desconfortos.

Acostumar-se com comentários.

Acostumar-se com olhares.

Acostumar-se com invasões de espaço.

Acostumar-se com certas formas de tratamento.

Acostumar-se até mesmo com situações que produziam desconforto porque alguém dizia:

“É normal.”

Quando colocamos a palavra “toque” ao lado da ideia de que uma menina aprende isso “desde pequena”, entramos involuntariamente nesse território simbólico e é justamente por isso que palavras precisam ser escolhidas com cuidado.

Não porque todo erro de expressão revele uma intenção escondida.

Mas porque uma expressão infeliz pode abrir interpretações que poderiam ter sido evitadas.

Não precisamos inventar uma intenção para reconhecer uma frase problemática.

Nas redes sociais, parte da repercussão transformou a declaração em algo que o contexto não demonstra: uma suposta defesa ou normalização da pedofilia.

Isso é um salto interpretativo.

Lula estava falando de exames médicos e câncer de próstata.

Mas existe também outro extremo igualmente pouco produtivo: afirmar que, porque conhecemos o contexto, não existe absolutamente nada a ser questionado na formulação utilizada.

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Existe !

Podemos rejeitar uma distorção política da fala e, ao mesmo tempo, reconhecer que “mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas” é uma maneira inadequadamente ampla de explicar a relação feminina com os cuidados ginecológicos.

Uma coisa não anula a outra.

Quando quem fala ocupa a Presidência, a palavra ganha outra dimensão.

Uma conversa privada desaparece depois de alguns minutos, a fala de um presidente não, ela vira vídeo, recorte, manchete, meme, argumento político, material de campanha e algumas vezes, desinformação.

Quanto maior o lugar ocupado por quem fala, maior a capacidade de uma frase circular completamente separada de sua explicação original.

Foi exatamente o que aconteceu.

A declaração passou a ser usada por adversários políticos como referência a abuso infantil, enquanto checagens apontaram que o contexto original era saúde e prevenção do câncer. A campanha de Lula, inclusive, acionou o Tribunal Superior Eleitoral contra publicações que atribuíam natureza sexual à declaração.

Isso também ensina algo sobre o nosso tempo:

Uma frase mal construída pode viajar muito mais rápido do que o contexto necessário para compreendê-la.

E há crianças reais no meio dessa discussão.

O cuidado com essa linguagem não é preciosismo, violência sexual contra crianças e adolescentes continua sendo um problema grave.

Pesquisa divulgada pelo UNICEF em 2026 apontou que 19% dos adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos pesquisados haviam sofrido alguma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia no período analisado. Em quase metade dos casos relatados, o agressor era alguém conhecido da vítima.

Quando ensinamos proteção corporal a uma criança, a mensagem precisa ser clara.

Seu corpo possui limites.

Você pode dizer que algo está incomodando.

Um adulto não ganha automaticamente o direito de tocar você porque é adulto.

E até mesmo em situações médicas deve existir explicação, necessidade, cuidado e proteção.

É justamente por isso que expressões envolvendo meninas e “acostumar-se ao toque” merecem atenção.

A crítica possível não precisa ser partidária.

Esse debate não deveria depender de gostar ou não gostar do Lula.

Se a frase tivesse sido pronunciada por qualquer presidente, governador, pastor, professor, médico, influenciador ou outra figura pública, a pergunta continuaria válida:

Como nossas palavras ajudam uma sociedade a compreender os limites do corpo?

Podemos reconhecer que a intenção daquele discurso era defender prevenção e cuidados com a saúde masculina.

Podemos rejeitar a tentativa de transformar a declaração em defesa da pedofilia, porque o contexto disponível não sustenta essa interpretação.

E ainda assim podemos dizer:

Presidente, essa frase poderia e deveria, ter sido construída de outra maneira.

Talvez algo tão simples quanto:

“Mulheres costumam ter contato mais cedo com consultas e exames preventivos, enquanto muitos homens ainda resistem aos cuidados com a própria saúde.”

O assunto seria o mesmo.

A mensagem estaria preservada.

E nenhuma menina precisaria aparecer na frase como alguém que deveria aprender, desde pequena, a “tomar toque”.

Porque quando falamos de infância e corpo, existe uma mensagem que jamais deveria ser ambígua:

Criança não precisa aprender a aceitar o toque. Precisa aprender que seu corpo merece respeito.

Nota editorial:

Este artigo analisa a linguagem e os possíveis efeitos sociais de uma declaração pública. Não atribui ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva intenção relacionada a abuso sexual ou pedofilia. O contexto integral disponível mostra que a fala ocorreu durante uma discussão sobre prevenção ao câncer de próstata e resistência masculina a exames de saúde. A análise propõe uma reflexão sobre comunicação pública, infância, consentimento e proteção corporal.

Fontes consultadas:

  • Aos Fatos — checagem da íntegra e do contexto da declaração de Lula, 29 de setembro de 2026.
  • UOL Confere — análise das publicações que associaram o trecho a abuso sexual infantil.
  • FEBRASGO — orientações sobre consulta ginecológica na adolescência, privacidade e limites éticos.
  • American College of Obstetricians and Gynecologists — recomendações relativas ao exame pélvico em adolescentes.
  • UNICEF Brasil — Disrupting Harm in Brazil 2026, dados sobre violência sexual contra crianças e adolescentes facilitada pela tecnologia.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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