Saúde e bem estar

POR QUE ALGUMAS PESSOAS SE ACOSTUMAM COM AQUILO QUE AS MACHUCA?

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Quando o sofrimento deixa de parecer estranho e passa a parecer familiar.

Por Leonardo Oliveira — Psicanalista

Existe uma frase que aparece com frequência nos consultórios:

“Eu sei que isso me faz mal. Então por que eu continuo?”

A pergunta parece simples.

Mas a resposta raramente é.

Quando falamos de relações, sentimentos e escolhas, nem sempre fazemos aquilo que racionalmente sabemos que seria melhor.

Às vezes sabemos que aquela relação nos destrói.

Sabemos que determinada pessoa ultrapassa nossos limites.

Sabemos que estamos aceitando menos do que gostaríamos.

Sabemos que aquela situação já se repetiu várias vezes.

E, ainda assim, permanecemos.

Então surge a pergunta:

Por quê?

Nem sempre permanecemos porque gostamos de sofrer

Existe uma explicação muito comum:

“Se continua, é porque gosta.”

É uma frase rápida.

E, muitas vezes, profundamente injusta.

Uma pessoa pode permanecer em uma relação que a machuca por diversos motivos: medo da solidão, dependência financeira, filhos, esperança de mudança, isolamento, ameaças, vínculos afetivos ou dificuldade de imaginar uma vida diferente.

A violência entre parceiros também pode envolver agressões físicas, abuso psicológico, coerção e comportamentos de controle. A Organização Mundial da Saúde destaca que esses fatores podem produzir consequências importantes para a saúde física e mental.

Por isso, antes de perguntar:

“Por que ela não vai embora?”

talvez seja necessário perguntar:

“O que está tornando tão difícil sair?”

Mas existe ainda outra dimensão que a Psicanálise nos ajuda a investigar:

o familiar.

Aquilo que conhecemos pode parecer mais seguro do que aquilo que desconhecemos.

Mesmo quando aquilo que conhecemos dói.

O familiar nem sempre é saudável

Imagine alguém que cresceu aprendendo que amor vinha acompanhado de cobrança, rejeição, instabilidade ou imprevisibilidade.

Isso não significa que essa pessoa vá conscientemente procurar alguém que a trate mal.

Não procura.

Mas experiências anteriores podem participar da maneira como vínculos e conflitos são vividos e reconhecidos.

É importante não transformar isso em uma regra:

infância difícil não determina automaticamente relacionamentos ruins na vida adulta.

A história de cada sujeito é mais complexa.

Mas existe uma pergunta que merece ser feita:

Será que aquilo que é familiar pode ser confundido com aquilo que é amor?

Às vezes, uma relação tranquila parece estranha.

Enquanto uma relação marcada por insegurança parece intensa.

A ansiedade pode ser confundida com paixão.

A necessidade de aprovação pode ser confundida com amor.

E o sofrimento pode acabar sendo interpretado como prova de que aquela relação importa.

O familiar nem sempre é saudável. Mas pode ser reconhecível.

Freud chamou nossa atenção para a repetição

Na Psicanálise, existe um conceito fundamental: a compulsão à repetição.

Freud desenvolveu essa discussão em Recordar, repetir e elaborar, de 1914, e posteriormente aprofundou o conceito em Além do princípio do prazer, de 1920. A ideia passou a ocupar um lugar importante na tradição psicanalítica para pensar situações em que determinados modos de funcionamento reaparecem, inclusive quando produzem sofrimento.

Não significa simplesmente que alguém esteja condenado a repetir o passado.

E também não significa que toda escolha semelhante seja uma “compulsão à repetição”.

O conceito é mais complexo do que isso.

Mas ele nos permite formular uma pergunta poderosa:

“O que está se repetindo?”

Porque às vezes a pessoa muda de parceiro.

Muda de cidade.

Muda de emprego.

Muda de ambiente.

Mas a história parece continuar.

O rosto muda.

O cenário muda.

O conflito muda de nome.

Mas alguma coisa permanece.

“Todos os meus relacionamentos terminam do mesmo jeito”

Essa frase merece atenção.

“Eu sempre escolho pessoas que me abandonam.”

“Eu sempre acabo cuidando de alguém.”

“Eu sempre termino sendo enganado.”

“Eu sempre preciso provar que sou suficiente.”

“Eu sempre fico tentando salvar alguém.”

Quando uma história se repete muitas vezes, talvez valha a pena olhar além das pessoas envolvidas.

Não para procurar culpados.

Mas para tentar compreender:

Qual é o meu lugar nessa história?

A literatura psicanalítica contemporânea continua discutindo a compulsão à repetição justamente por sua relação com experiências anteriores e com padrões que reaparecem na vida psíquica e relacional. Ao mesmo tempo, os próprios autores ressaltam que o conceito é controverso e não deve ser usado como uma explicação simples para todo comportamento repetitivo.

Essa pergunta não significa culpar a vítima.

Uma pessoa nunca é responsável pela violência que outra pessoa decide praticar.

Mas compreender a própria posição dentro de determinados padrões pode abrir uma possibilidade importante:

a possibilidade de construir algo diferente.

Existe uma diferença entre culpa e responsabilidade

Essa distinção é fundamental.

Se alguém trai, agride, humilha, manipula ou controla outra pessoa, a responsabilidade pelo ato pertence a quem o praticou.

A violência psicológica e os comportamentos de controle também são reconhecidos pela OMS como formas de violência nas relações íntimas.

Mas, depois de reconhecer aquilo que está acontecendo, o sujeito pode começar a perguntar:

“O que eu faço com isso?”

É aí que responsabilidade pode aparecer.

Não como culpa pelo que o outro fez.

Mas como possibilidade de escolha diante da própria vida.

A pergunta deixa de ser:

“Por que fizeram isso comigo?”

e pode, aos poucos, tornar-se:

“O que eu posso fazer a partir daqui?”

São perguntas diferentes.

E podem abrir caminhos diferentes.

Às vezes não sentimos falta da pessoa. Sentimos falta da esperança.

Existe outro fenômeno muito comum nos términos.

A pessoa diz:

“Eu não consigo esquecer.”

Mas, quando começamos a investigar, talvez ela não esteja exatamente sentindo falta daquele relacionamento como ele realmente era.

LEIA TAMBÉM:  Você é responsável pelo seu relacionamento, mas não é culpada pela traição.

Pode estar sentindo falta do relacionamento que imaginou que ele poderia ser.

Da promessa.

Do começo.

Dos momentos bons.

Do futuro imaginado.

Da versão daquela pessoa que existia na expectativa.

E abandonar uma relação também pode significar abandonar uma fantasia.

Por isso, alguns términos não são apenas a perda de uma pessoa.

São também o luto por uma história que nunca aconteceu.

“Mas eu sei que deveria ir embora”

Saber não significa conseguir.

O sujeito pode saber racionalmente que deveria sair e, ainda assim, permanecer emocionalmente preso.

A razão diz:

“Acabe.”

O desejo diz:

“Talvez dessa vez seja diferente.”

A memória diz:

“Ele já foi bom comigo.”

O medo diz:

“E se eu ficar sozinho?”

A esperança responde:

“Só mais uma chance.”

E assim o ciclo continua.

É justamente nesse espaço entre aquilo que sabemos e aquilo que fazemos que a escuta pode se tornar importante.

E quando sair parece pior do que ficar?

Porque o desconhecido assusta.

Mesmo quando o conhecido machuca.

Existe uma frase que resume muito desse funcionamento:

“Eu sei como é sofrer aqui. Não sei como é viver lá fora.”

Isso pode acontecer em relações amorosas, familiares, profissionais e em diferentes formas de funcionamento pessoal.

A pessoa pode permanecer em uma situação conhecida porque não consegue imaginar quem será quando aquela situação deixar de existir.

E essa é uma questão profundamente subjetiva:

Quem sou eu sem essa relação?

Quem sou eu sem precisar cuidar?

Sem precisar agradar?

Sem precisar provar meu valor?

Sem esperar aquela mensagem?

Sem ocupar aquele lugar?

Às vezes, sair de uma relação exige mais do que abandonar alguém.

Exige reconstruir a própria identidade.

O objetivo não é simplesmente “parar de repetir”

Se fosse tão simples, bastaria dizer:

“Não faça mais isso.”

Mas o inconsciente não funciona como uma lista de tarefas.

Por isso, a Psicanálise não trabalha apenas com conselhos.

Ela trabalha com escuta.

Com perguntas.

Com associações.

Com aquilo que aparece quando o sujeito fala.

Com aquilo que repete.

Com aquilo que evita.

Com aquilo que diz querer e, ao mesmo tempo, parece impedir que aconteça.

O objetivo não é transformar o paciente em alguém perfeito que nunca mais fará escolhas ruins.

É possibilitar que ele tenha maior compreensão sobre sua própria história e possa construir outras possibilidades.

Nem tudo que se repete precisa continuar

Reconhecer um padrão não significa estar condenado a repeti-lo.

Mas também não significa que basta identificá-lo para que ele desapareça.

A literatura psicanalítica mostra justamente que a repetição é um fenômeno complexo, cuja compreensão envolve diferentes formulações e debates dentro da própria Psicanálise.

Mudança costuma ser um processo.

Pode exigir tempo, elaboração, psicoterapia ou psicanálise e, dependendo da situação, outros cuidados profissionais.

Não existe vergonha em precisar de ajuda para compreender aquilo que, sozinho, parece impossível de organizar.

Talvez você não esteja escolhendo o sofrimento

Talvez esteja tentando encontrar, dentro do que conhece, alguma forma de amor, pertencimento, segurança ou reconhecimento.

E talvez essa busca tenha encontrado caminhos que produzem sofrimento.

Isso não torna a pessoa culpada.

Mas pode abrir uma pergunta muito mais interessante:

“O que eu realmente estou procurando quando escolho isso?”

Porque talvez a questão nunca tenha sido apenas aquela pessoa.

Talvez exista uma história por trás da escolha.

Uma história que merece ser contada.

E, principalmente, uma história que pode ganhar novos caminhos.

Para terminar

Nem sempre permanecemos onde sofremos porque queremos sofrer.

Às vezes permanecemos porque aquilo nos é familiar.

Às vezes porque temos medo.

Às vezes porque esperamos uma mudança.

Às vezes porque confundimos intensidade com amor.

E às vezes porque romper com um padrão é muito mais difícil do que perceber que ele existe.

Mas existe uma diferença entre repetir sem perceber e começar a perguntar sobre aquilo que se repete.

Talvez a mudança comece justamente aí.

Não quando alguém diz:

“Você precisa ir embora.”

Mas quando o próprio sujeito consegue perguntar:

“Por que eu continuo escolhendo aquilo que já sei que me machuca?”

Porque algumas respostas não aparecem quando alguém nos diz o que fazer.

Elas aparecem quando finalmente conseguimos escutar a pergunta.

NOTA EDITORIAL

Este artigo apresenta uma reflexão psicanalítica sobre padrões de repetição, relações e sofrimento subjetivo. Não pretende diagnosticar indivíduos nem afirmar que todas as escolhas afetivas são determinadas pela infância.

Em situações de violência, ameaça, abuso ou risco, a busca por ajuda especializada e por serviços de proteção é fundamental. Compreender padrões pessoais jamais significa responsabilizar a vítima pela violência sofrida.

FONTES E REFERÊNCIAS

  • FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar (1914). Texto fundamental para a formulação inicial do conceito de compulsão à repetição.
  • FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Obra em que Freud aprofunda a discussão metapsicológica sobre a compulsão à repetição.
  • CORRADI, Richard B. The Repetition Compulsion in Psychodynamic Psychotherapy. Journal of the American Academy of Psychoanalysis and Dynamic Psychiatry, 2009.
  • LEVINE, Howard B. The compulsion to repeat: An introduction. The International Journal of Psychoanalysis, 2020.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Violence against women. Atualização de 18 de junho de 2026.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Understanding and addressing intimate partner violence. Documento sobre violência física, sexual, psicológica e comportamentos de controle nas relações íntimas.
Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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