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Entre o diagnóstico, o tratamento e a possibilidade de voltar a viver
Por Leonardo Oliveira — Psicanalista
Existe uma pergunta que costuma aparecer quando alguém recebe o diagnóstico de depressão:
“Mas depressão tem cura?”
Às vezes essa pergunta vem acompanhada de medo.
“Vou precisar tomar remédio para o resto da vida?”
“Vou voltar a ser como eu era?”
“E se eu melhorar e depois tudo voltar?”
“Será que vou viver assim para sempre?”
Essas perguntas não são exageradas. Para quem está atravessando uma depressão, o sofrimento presente pode parecer permanente.
Mas existe uma diferença importante entre aquilo que a pessoa sente hoje e aquilo que necessariamente será a sua vida amanhã.
E é justamente aí que precisamos começar.
Depressão não é simplesmente estar triste
Todo mundo pode passar por tristeza.
Uma separação, uma perda, uma frustração, uma dificuldade financeira, um conflito familiar ou uma mudança importante podem produzir sofrimento emocional.
Isso faz parte da experiência humana.
A depressão, porém, não deve ser confundida simplesmente com tristeza.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a depressão envolve humor deprimido ou perda de interesse e prazer por períodos prolongados, acompanhados de outros sintomas que podem incluir alterações no sono e no apetite, cansaço, dificuldades de concentração, sentimentos de culpa ou baixa autoestima, desesperança e pensamentos relacionados à morte.
Por isso, dizer para alguém deprimido:
“É só pensar positivo.”
pode ser tão inadequado quanto dizer para alguém com uma fratura:
“É só levantar e andar.”
Não significa que a pessoa não queira melhorar.
Significa que sofrimento psíquico não se resolve simplesmente com uma ordem.
Então, depressão tem cura?
Aqui precisamos tomar cuidado com a palavra “cura”.
Existem pessoas que passam por um episódio depressivo, recebem tratamento, entram em remissão e seguem a vida sem novos episódios.
Também existem pessoas que apresentam episódios recorrentes ou sintomas persistentes e precisam de acompanhamento por períodos mais longos.
A própria OMS reconhece diferentes padrões da depressão, incluindo episódios únicos e transtornos depressivos recorrentes. E reforça que existem tratamentos eficazes para depressão.
Portanto, talvez uma resposta mais responsável seja:
Sim, a depressão pode ser tratada e muitas pessoas alcançam remissão e recuperam sua qualidade de vida. Mas não existe uma única trajetória para todas as pessoas.
A melhora pode acontecer.
A remissão pode acontecer.
A reconstrução da vida pode acontecer.
E, para algumas pessoas, será necessário também aprender a reconhecer sinais de uma possível recaída e manter algum tipo de acompanhamento.
Isso não significa fracasso.
Tratamento não é apenas “tomar remédio”
Outro erro comum é imaginar que existem apenas duas possibilidades:
“Ou toma antidepressivo ou não faz nada.”
A realidade é muito mais complexa.
A OMS aponta tratamentos psicológicos como parte importante do cuidado da depressão e indica que medicamentos antidepressivos podem ser associados ao tratamento psicológico especialmente em quadros moderados e graves.
O National Institute of Mental Health (NIMH) também destaca que o tratamento pode envolver psicoterapia, medicamentos ou a combinação dos dois, dependendo das necessidades e da situação clínica de cada pessoa.
Isso significa que tratamento precisa ser individualizado.
Não existe uma fórmula universal.
E existe algo ainda mais importante:
ninguém deveria interromper um medicamento por conta própria.
Mudanças ou suspensão de antidepressivos devem ser discutidas com o profissional responsável pelo tratamento.
E onde entra a Psicanálise?
Aqui entramos em outro território.
A Psicanálise não precisa disputar espaço com a medicina para existir.
Ela pode oferecer outra pergunta.
Não apenas:
“Quais são os sintomas?”
Mas também:
“O que está acontecendo com esse sujeito?”
“O que essa experiência representa na sua história?”
“Que perdas foram vividas?”
“Que conflitos permanecem?”
“Que lugar essa pessoa ocupa nas próprias relações?”
“O que ela deseja?”
Isso não significa afirmar que toda depressão possui uma única causa inconsciente.
Nem significa que uma explicação psicanalítica substitua avaliação médica quando ela é necessária.
Significa reconhecer que o sofrimento humano possui uma dimensão subjetiva que também precisa ser escutada.
A própria literatura sobre psicoterapia reconhece diferentes abordagens terapêuticas e seus objetivos de reduzir sintomas, melhorar o funcionamento cotidiano e a qualidade de vida.
Na clínica, muitas vezes o sujeito chega dizendo:
“Eu não sei mais quem eu sou.”
E talvez essa frase diga muito mais do que simplesmente “estou triste”.
O deprimido não precisa ouvir que precisa “reagir”
Essa é uma das frases que mais machucam.
“Reage.”
“Levanta.”
“Você tem tudo.”
“Tem gente em situação pior.”
“Você precisa agradecer.”
“Isso é falta de Deus.”
“Você precisa ocupar a cabeça.”
Algumas dessas frases podem até nascer de uma tentativa de ajudar.
Mas sofrimento não desaparece porque alguém mandou desaparecer.
A pessoa deprimida muitas vezes já está lutando diariamente para fazer coisas que para os outros parecem simples.
Levantar da cama.
Tomar banho.
Comer.
Responder uma mensagem.
Trabalhar.
Conversar.
Sair de casa.
E, principalmente, imaginar que existe um amanhã.
Por isso, em vez de perguntar apenas:
“Por que você não reage?”
talvez seja mais humano perguntar:
“O que está tornando tão difícil para você continuar?”
Melhorar não significa necessariamente voltar a ser quem você era
Essa talvez seja uma das partes mais difíceis de compreender.
Muitas pessoas querem voltar a ser exatamente quem eram antes da depressão.
Mas talvez a questão não seja voltar.
Talvez seja reconstruir.
Porque uma experiência de sofrimento também pode modificar a maneira como uma pessoa enxerga suas relações, seus limites, suas prioridades e a própria vida.
A pergunta pode deixar de ser:
“Quando vou voltar a ser quem eu era?”
e passar a ser:
“Quem posso me tornar depois de atravessar isso?”
Não existe romantização do sofrimento nessa pergunta.
Depressão não é necessária para amadurecer.
Dor não é obrigatoriamente transformadora.
Mas, quando o sofrimento acontece, ele pode se tornar uma experiência que precisa ser elaborada, compreendida e cuidada.
E quando a depressão volta?
Essa é outra questão importante.
Uma recaída não significa automaticamente que todo o tratamento deu errado.
Diretrizes clínicas reconhecem que algumas pessoas apresentam maior risco de recaída e que existem estratégias de prevenção, incluindo continuidade ou adaptação do tratamento e acompanhamento dos sinais de alerta.
Por isso, perceber novamente alterações no sono, isolamento, perda de interesse, desesperança ou outros sinais importantes não deveria ser motivo para vergonha.
Pode ser motivo para procurar ajuda.
Quanto antes uma pessoa reconhece que algo está mudando, mais cedo pode buscar avaliação e suporte.
A depressão pode fazer o futuro parecer fechado
Talvez esse seja um dos aspectos mais cruéis da depressão.
Ela não afeta apenas o presente.
Pode alterar a maneira como a pessoa imagina o futuro.
O amanhã deixa de parecer uma possibilidade e passa a parecer uma repetição do hoje.
“Vai ser sempre assim.”
“Eu nunca vou melhorar.”
“Minha vida acabou.”
Mas um estado emocional não é uma sentença sobre toda uma existência.
A depressão pode produzir desesperança como um dos seus sintomas.
E é justamente por isso que precisamos tomar cuidado quando alguém diz:
“Não existe saída.”
Às vezes, aquilo que parece uma conclusão sobre a vida é, naquele momento, parte do próprio sofrimento.
Então, depressão tem cura?
Talvez a resposta mais honesta seja:
Depende da pessoa, do quadro, da história e do tratamento.
Existem pessoas que apresentam um episódio e nunca mais passam por outro.
Existem pessoas que enfrentam recorrências.
Existem pessoas que precisam de acompanhamento prolongado.
Existem pessoas que demoram até encontrar um tratamento que funcione adequadamente.
Mas existe algo que não deveria ser perdido no meio dessa discussão:
depressão tem tratamento.
E tratamento pode produzir melhora significativa, remissão e recuperação da qualidade de vida.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas:
“Depressão tem cura?”
Talvez seja:
“O que pode ser feito para que essa pessoa não precise continuar sofrendo sozinha?”
Porque ninguém deveria ser reduzido ao seu diagnóstico.
Uma pessoa não é “a depressão”.
Ela é alguém que está vivendo uma experiência de depressão.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Uma última palavra
Se você está passando por isso, não transforme a sua dificuldade de hoje em uma sentença sobre o resto da sua vida.
Procure ajuda profissional.
Converse com alguém de confiança.
E, se houver pensamentos de morte ou de suicídio, procure atendimento de emergência ou um serviço de crise imediatamente.
Pedir ajuda não é desistir.
Às vezes, pedir ajuda é justamente a primeira forma de começar a voltar para a própria vida.
NOTA EDITORIAL
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais habilitados. Depressão pode apresentar diferentes formas, intensidades e trajetórias. O tratamento deve ser definido individualmente, considerando as necessidades e condições de cada pessoa.
Fontes consultadas: Organização Mundial da Saúde (OMS); National Institute of Mental Health (NIMH); National Institute for Health and Care Excellence (NICE).

