Saúde e bem estar

Os contratos invisíveis de todo casamento.

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Aquilo que ninguém assina, mas quase todo casal um dia cobra.

Por Leo Oliveira — Psicanalista | Coluna Saúde e Bem-Estar — Arena Remix

Quando duas pessoas se casam, existem os acordos que todo mundo conhece.

Fidelidade. Companheirismo. Divisão de responsabilidades. Projetos em comum.

Mas existe outro contrato que ninguém coloca no papel.

Ninguém lê.

Ninguém assina.

E, muitas vezes, ninguém sequer percebe que existe.

São os contratos invisíveis do relacionamento.

Expectativas silenciosas que cada pessoa leva para dentro do casamento e que, mais cedo ou mais tarde, começam a aparecer na forma de cobranças.

“Você deveria perceber que eu precisava de você.”

“Se realmente me amasse, faria isso sem eu precisar pedir.”

“Na minha família sempre foi assim.”

“Depois que casamos, você mudou.”

Talvez o problema seja justamente esse:

o outro está sendo cobrado por um contrato que nunca soube que assinou.

Todo mundo entra em uma relação acompanhado.

Mesmo quando apenas duas pessoas aparecem diante do altar, simbolicamente existe muito mais gente naquele casamento.

Está ali a mãe que ensinou o que uma esposa deveria fazer.

O pai que ensinou o que significava ser homem.

O relacionamento dos pais.

As ausências da infância.

Os antigos relacionamentos.

As rejeições.

Os medos.

As fantasias sobre casamento.

E tudo aquilo que cada pessoa aprendeu observando o amor antes mesmo de viver um.

É por isso que ninguém começa um relacionamento do zero.

Cada um chega carregando uma espécie de manual invisível sobre como acredita que o amor deveria funcionar.

O problema é que o parceiro chega carregando outro.

“Se me ama, deveria saber”

Essa talvez seja uma das cláusulas mais perigosas desses contratos.

A fantasia de que quem ama deveria adivinhar.

A pessoa não comunica aquilo que precisa porque espera que o parceiro perceba espontaneamente.

E quando ele não percebe, nasce a interpretação:

“Ele não se importa comigo.”

Mas talvez ele simplesmente não soubesse.

Imagine alguém que cresceu em uma família na qual demonstrar amor significava trabalhar, prover e resolver problemas.

Essa pessoa pode acreditar sinceramente que está sendo extremamente amorosa.

Enquanto seu parceiro, criado em uma família em que amor significava conversa, carinho e presença, pode sentir-se completamente abandonado.

Os dois podem estar tentando amar.

Mas estão falando idiomas emocionais diferentes.

“Eu esperava que você fosse…”

Existem expectativas que só descobrimos depois que são frustradas.

Talvez alguém nunca tenha dito:

“Espero que você coloque nosso casamento acima da sua família de origem.”

Mas quando surge o primeiro conflito com sogros, essa expectativa aparece.

Nunca disse:

“Espero que continuemos tendo a mesma frequência sexual depois dos filhos.”

Até que a sexualidade muda.

Nunca disse:

“Espero que você seja responsável pela maior parte das contas.”

Até que surge uma dificuldade financeira.

Nunca disse:

“Espero que você cuide emocionalmente de mim sempre que eu estiver mal.”

Até o dia em que o parceiro também está mal e não consegue fazê-lo.

O conflito revela cláusulas que estavam escondidas.

Por isso determinadas discussões parecem desproporcionais.

Às vezes o casal está discutindo sobre uma louça na pia.

Mas emocionalmente a discussão é:

“Eu quero saber se posso contar com você.”

O casamento também tenta reparar a infância.

Aqui a psicanálise traz uma questão importante.

Muitas vezes procuramos no relacionamento adulto algo que faltou em nossa história.

Quem cresceu sentindo abandono pode exigir presença constante.

Quem precisou amadurecer cedo demais pode desejar alguém que finalmente cuide dele.

Quem cresceu tentando agradar pode entrar em relações nas quais continua anulando as próprias necessidades.

Quem viveu rejeição pode interpretar pequenos afastamentos como sinais de que será abandonado novamente.

Isso não significa que escolhemos conscientemente nossos parceiros para reparar a infância.

Mas significa que nossas experiências anteriores ajudam a construir aquilo que esperamos das relações atuais.

E existe uma armadilha:

o parceiro começa sendo companheiro e, aos poucos, recebe a missão impossível de reparar todas as faltas que existiam antes dele.

Nenhum casamento consegue cumprir essa tarefa.

O contrato da fidelidade também precisa ser conversado.

Talvez poucas palavras pareçam tão óbvias quanto “fidelidade”.

Mas será que dois parceiros necessariamente entendem a mesma coisa quando utilizam essa palavra?

Sexo com outra pessoa certamente será considerado traição por muitos casais.

LEIA TAMBÉM:  Por que algumas pessoas precisam estar sempre ocupadas para não pensar?

Mas e conversas escondidas?

Flertes online?

Aplicativos?

Troca de imagens íntimas?

Contato frequente com um ex?

Intimidade emocional mantida em segredo?

Pornografia?

Cada casal estabelece seus próprios limites.

O problema aparece quando esses limites nunca foram conversados e cada um simplesmente presumiu que o outro conhecia suas regras.

Não basta perguntar:

“Você me ama?”

Às vezes é necessário perguntar:

“O que fidelidade significa para nós?”

Dinheiro também carrega emoções.

Dinheiro dificilmente é apenas dinheiro dentro de um casamento.

Ele pode representar poder.

Segurança.

Liberdade.

Controle.

Reconhecimento.

Dependência.

Alguém que cresceu passando necessidade pode precisar economizar para sentir segurança.

Alguém que cresceu em uma família controladora pode enxergar o próprio dinheiro como símbolo de liberdade.

Quando essas pessoas se encontram, uma pode chamar a outra de irresponsável.

A outra pode responder chamando o parceiro de controlador.

Mas talvez estejam discutindo menos sobre números e mais sobre suas próprias histórias.

Sexo também possui contratos invisíveis.

Muitos casais nunca conversam verdadeiramente sobre sexualidade.

Apenas começam a viver juntos e presumem que o desejo continuará acontecendo espontaneamente.

Então chegam trabalho, filhos, cansaço, rotina, alterações hormonais, envelhecimento, conflitos e ressentimentos.

O desejo muda.

E aparecem frases perigosas:

“Você não me procura mais porque não me ama.”

“Se me desejasse, teria vontade.”

“Casamento não deveria ser assim.”

A sexualidade conjugal não depende apenas de atração.

Ela também conversa com intimidade, ressentimento, autoestima, segurança, rotina e a forma como aquele casal está vivendo.

Às vezes o problema sexual é também uma conversa que o relacionamento inteiro está evitando.

Existe ainda um contrato sobre quem cada um deveria continuar sendo.

No início do relacionamento, geralmente conhecemos uma versão do parceiro.

Mas pessoas mudam.

E isso pode assustar.

A mulher que antes aceitava tudo começa a colocar limites.

O homem que vivia apenas para trabalhar decide estar mais presente em casa.

Alguém muda de profissão.

Muda de opinião.

Começa terapia.

Descobre novos interesses.

Questiona antigas escolhas.

E o relacionamento precisa se reorganizar.

Porque existe uma verdade desconfortável:

amar alguém durante muitos anos significa precisar conhecer várias versões da mesma pessoa.

Alguns casamentos não terminam porque o amor acabou.

Terminham porque um dos parceiros só conseguia amar quem o outro costumava ser.

O problema não é ter expectativas.

Todo relacionamento possui expectativas.

Seria impossível viver sem elas.

O problema começa quando transformamos expectativas silenciosas em obrigações.

Quando pensamos:

“Ele deveria saber.”

“Ela deveria perceber.”

“Todo marido faz isso.”

“Toda esposa deveria agir assim.”

Talvez uma das maiores provas de maturidade dentro de uma relação seja conseguir trocar o “você deveria saber” por:

“Eu preciso conseguir te contar.”

Casamentos precisam renegociar seus contratos.

O acordo que funcionava aos 25 anos talvez não funcione aos 40.

O casal sem filhos não é exatamente o mesmo depois que as crianças chegam.

O relacionamento antes de uma doença não é igual depois dela.

As prioridades mudam.

O corpo muda.

A sexualidade muda.

A carreira muda.

A família muda.

As pessoas mudam.

Relacionamentos saudáveis não são aqueles que nunca mudam suas regras.

São aqueles capazes de conversar quando antigas regras já não funcionam.

Talvez valha perguntar ao parceiro:

“Existe alguma coisa que você espera de mim e nunca me disse?”

Essa pergunta pode parecer simples.

Mas talvez revele anos de frustração.

Porque muitos relacionamentos não estão destruídos por falta de amor.

Estão cansados de tentar cumprir contratos que nunca foram negociados.

E talvez uma das formas mais maduras de amar seja justamente transformar aquilo que era cobrança silenciosa em conversa.

Porque ninguém consegue cumprir um contrato que nunca teve a oportunidade de ler.

Referências:

Sigmund Freud — textos sobre repetição, transferência e a influência das experiências infantis na vida psíquica adulta.

René Kaës — contribuições sobre alianças inconscientes e pactos estabelecidos nos vínculos.

Jürg Willi — estudos sobre relações conjugais, conflitos e padrões de interação entre parceiros.

John Bowlby — teoria do apego e compreensão dos vínculos afetivos construídos a partir das primeiras relações.

Nota editorial:

Este artigo tem caráter informativo e reflexivo e não pretende estabelecer regras universais para relacionamentos. Cada casal possui sua própria história e dinâmica. Conflitos persistentes, violência, controle, coerção ou sofrimento emocional intenso devem ser avaliados com atenção e, quando necessário, acompanhados por profissionais qualificados.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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