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Existe uma diferença entre ter uma rotina cheia e não conseguir ficar em silêncio consigo mesmo.
Por Leo Oliveira – Psicanalista
Tem gente que acorda já pensando no que precisa fazer. Trabalha, resolve problemas, responde mensagens, cuida da casa, acompanha as redes sociais, assiste alguma coisa antes de dormir e, quando percebe, o dia acabou.
No dia seguinte, tudo começa novamente.
À primeira vista, parece apenas uma vida corrida.
Mas existe uma pergunta que pode ser desconfortável: e se a pessoa não estiver apenas ocupada, mas tentando não entrar em contato consigo mesma?
Quando parar começa a incomodar
Descansar deveria ser algo simples. Mas, para algumas pessoas, ficar sem fazer nada produz inquietação.
O celular aparece imediatamente.
Uma mensagem precisa ser respondida.
Uma tarefa precisa ser inventada.
Uma série precisa ser assistida.
A casa precisa ser arrumada novamente.
Qualquer coisa parece melhor do que simplesmente ficar em silêncio.
Isso não significa que toda pessoa ocupada esteja fugindo de alguma questão emocional. A rotina contemporânea realmente é exigente, e existem situações em que excesso de trabalho e responsabilidades são inevitáveis.
A questão aparece quando a ocupação deixa de ser apenas consequência da vida e passa a funcionar como uma maneira de evitar aquilo que surge quando a vida desacelera.
Na psicologia, estratégias de enfrentamento baseadas em evitação podem envolver afastar a atenção de situações ou conteúdos percebidos como ameaçadores. Elas podem produzir alívio momentâneo, embora não necessariamente resolvam aquilo que está sendo evitado.
O que aparece quando tudo fica quieto?
A psicanálise sempre se interessou pelo que existe para além daquilo que conseguimos explicar conscientemente.
Nem sempre sabemos por que fazemos determinada coisa.
Às vezes, uma pessoa diz que não consegue parar porque “tem muita coisa para fazer”. Mas, quando finalmente surge um momento livre, ela imediatamente procura outra atividade.
Por quê?
Porque o silêncio pode abrir espaço para pensamentos, lembranças, desejos, angústias e conflitos que estavam sendo mantidos à distância pela própria correria.
Enquanto estamos ocupados, não precisamos necessariamente perguntar:
“Como eu estou?”
É possível simplesmente continuar.
A produtividade também pode virar uma forma de fuga
Vivemos em uma época que valoriza quem produz.
Estar ocupado frequentemente é interpretado como sinal de importância, responsabilidade e sucesso.
“Estou sem tempo.”
“Minha agenda está lotada.”
“Não paro um minuto.”
Às vezes essas frases são apenas constatações.
Mas, em outras situações, podem esconder algo mais complexo: a dificuldade de suportar o próprio tempo livre.
A literatura sobre enfrentamento do estresse reconhece a evitação e a distração como estratégias que podem afastar temporariamente uma pessoa de uma experiência difícil. Isso não significa que toda distração seja ruim — em determinadas circunstâncias, ela pode inclusive ajudar a reduzir uma sobrecarga emocional. O problema é quando se transforma na única maneira de lidar com aquilo que incomoda.
O problema não é trabalhar muito
É importante não transformar esse assunto em uma condenação da produtividade.
Trabalhar, estudar, cuidar da família, praticar exercícios e manter uma rotina são atividades importantes.
O problema começa quando a pessoa percebe que não consegue simplesmente estar consigo mesma.
Quando qualquer intervalo precisa ser preenchido.
Quando o descanso provoca culpa.
Quando ficar sozinho incomoda.
Quando o silêncio assusta.
Quando o primeiro impulso ao acordar é pegar o celular e o último antes de dormir também.
Nesse momento, talvez valha a pena perguntar:
“Do que exatamente eu estou tentando não me aproximar?”
O estresse também precisa ser levado a sério
Existe ainda outro lado dessa discussão.
Nem toda pessoa que vive ocupada está evitando pensamentos ou sentimentos. Muitas estão simplesmente submetidas a uma rotina realmente excessiva.
A Organização Mundial da Saúde destaca que o estresse é uma resposta natural diante de situações difíceis, mas o excesso pode afetar tanto a saúde física quanto a mental. Entre os sinais associados ao estresse estão dificuldade para relaxar, irritabilidade, dificuldade de concentração e problemas de sono.
No ambiente de trabalho, a OMS também relaciona pressão de tempo, jornadas longas e falta de controle sobre as tarefas a riscos psicossociais, estresse e fadiga.
E existe uma diferença importante: burnout não é simplesmente estar cansado ou ter uma agenda cheia. A OMS o define especificamente como um fenômeno ocupacional relacionado ao estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente administrado.
E quando a mente não consegue parar?
Existe uma situação curiosa: algumas pessoas não conseguem descansar porque, quando diminuem o ritmo, a mente acelera.
Pensamentos repetitivos, preocupações e ruminações podem ocupar justamente o espaço que deveria ser destinado ao descanso.
A American Psychological Association descreve a ruminação como uma forma de pensamento repetitivo que mantém a pessoa concentrada em emoções ou problemas negativos. Pesquisas recentes também têm estudado aquilo que pesquisadores chamam de uma mente “cronicamente ocupada” por pensamentos repetitivos.
Por isso, algumas pessoas não estão simplesmente evitando pensar.
Elas já pensam demais — e usam a ocupação para tentar controlar aquilo que pensam.
O silêncio não cria tudo. Às vezes ele apenas revela.
É comum acreditar que ficar ocupado resolve determinados pensamentos.
Na realidade, muitas vezes apenas os adia.
A questão continua existindo enquanto trabalhamos.
Continua existindo enquanto dirigimos.
Continua existindo enquanto assistimos televisão.
Continua existindo enquanto rolamos a tela do celular.
E pode reaparecer justamente quando o barulho acaba.
Para algumas pessoas, a noite se torna particularmente difícil. Durante o dia inteiro conseguiram manter a mente ocupada. Quando o mundo diminui o volume, preocupações e pensamentos podem ganhar espaço.
No caso de transtornos de ansiedade, por exemplo, dificuldade de relaxar, preocupação persistente e problemas de sono podem fazer parte do quadro. Isso, porém, não significa que toda pessoa que tem dificuldade para descansar tenha um transtorno de ansiedade. Diagnóstico exige avaliação profissional.
Talvez você não esteja cansado apenas da rotina
Existe uma diferença entre precisar descansar e não conseguir descansar.
O primeiro é físico e psicológico: depois de uma rotina intensa, o corpo pede pausa.
O segundo pode ser um sinal de que a pausa provoca algum tipo de desconforto.
E esse desconforto merece ser escutado.
Não necessariamente para encontrar uma explicação imediata, mas para compreender o que acontece dentro de nós quando não existe mais nenhuma tarefa para realizar.
A psicanálise não propõe simplesmente “pare de fazer coisas”.
Ela convida a outra pergunta:
“O que aparece em mim quando eu paro?”
Talvez exista tristeza.
Talvez exista ansiedade.
Talvez exista uma decisão que vem sendo adiada.
Talvez exista um desejo que nunca encontrou espaço.
Talvez exista apenas o desconforto de perceber que, depois de cuidar de tantas coisas, já não sabemos muito bem como cuidar de nós mesmos.
Nem toda correria é produtividade
Existe uma diferença importante entre estar ocupado e estar implicado com a própria vida.
Uma pessoa pode fazer muitas coisas e, ainda assim, estar completamente distante de si.
Pode cumprir todas as tarefas, responder todas as mensagens e chegar ao final do dia com a sensação de que não viveu.
Talvez porque viver também exija momentos em que não estamos produzindo absolutamente nada.
Momentos em que apenas existimos.
E isso pode ser surpreendentemente difícil.
Porque algumas pessoas não têm medo de ficar sem fazer nada. Têm medo do que podem encontrar quando finalmente não houver mais nada para fazer.
Nota editorial
Este texto apresenta uma reflexão de caráter psicanalítico sobre a relação entre excesso de ocupação, silêncio e contato com a própria vida psíquica. Não pretende afirmar que pessoas muito ocupadas estejam necessariamente evitando questões emocionais. Rotinas intensas podem ter causas objetivas, e sintomas persistentes de ansiedade, estresse, alterações importantes de sono ou prejuízo no funcionamento cotidiano devem ser avaliados individualmente por profissionais habilitados.
Fontes
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — Stress, 2026.
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — Burn-out: an occupational phenomenon, classificação CID-11.
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — Psychosocial risks and mental health.
- American Psychological Association (APA) — Avoidance coping.
- American Psychological Association (APA) — Cognitive coping.
- American Psychological Association (APA) — Targeting perseveration to reduce distress, 2026.
- National Institute of Mental Health (NIMH) — Generalized Anxiety Disorder: What You Need to Know.

