Mundo

ONU alerta para possíveis crimes de guerra após recuperação de centenas de corpos em Gaza

Chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, afirma que restos mortais de famílias inteiras estão sendo exumados de locais destruídos por ataques israelenses; Defesa Civil Palestina recuperou mais de 630 corpos desde novembro de 2025 e estima que 8 mil pessoas permaneçam soterradas

Getting your Trinity Audio player ready...

A recuperação de centenas de corpos nos escombros de prédios destruídos por ataques israelenses na Faixa de Gaza reacendeu preocupações sobre possíveis crimes de guerra, afirmou nesta terça-feira (15) o chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk.

“Os restos do que parecem ser famílias inteiras estão sendo exumados agora em locais que foram pulverizados por ataques israelenses”, disse Türk em comunicado. “Temo que os restos mortais recuperados até agora possam ser apenas a ponta do iceberg”.

Vista de prédios destruídos na Faixa de Gaza 25 de agosto de 2026 REUTERS/Amir Cohen  • REUTERS

Números da devastação

A Defesa Civil Palestina afirma ter recuperado mais de 630 corpos e restos mortais debaixo de prédios destruídos em toda a Faixa de Gaza desde novembro de 2025. Entre o final de junho e setembro, foram recuperados 329 corpos na Cidade de Gaza e arredores, sendo 261 de mulheres e crianças.

Autoridades palestinas estimam que mais de 8.000 pessoas continuem soterradas nos escombros. O chefe do escritório de direitos humanos da ONU no território palestino ocupado, Ajith Sunghay, alertou que esse número provavelmente é uma subestimação, já que não foi possível realizar um registro completo de todas as pessoas desaparecidas.

Desde o anúncio do cessar-fogo em outubro de 2025, equipes palestinas recuperaram mais de 800 corpos em toda a Faixa, apesar da grave escassez de maquinário, combustível e pessoal. No ritmo atual, a operação pode levar pelo menos mais dez anos.

Destruição contínua e bloqueio de recursos

Türk acusou Israel de continuar a arrasar áreas de Gaza onde suas forças permanecem posicionadas, afirmando que escavadeiras operam “sem qualquer respeito pelos mortos sob os escombros”. A ONU denunciou que as autoridades israelenses bloqueiam a entrada de maquinário pesado e equipamentos forenses, incluindo instrumentos para testes de DNA e impressões digitais.

A Defesa Civil Palestina dispõe atualmente de apenas uma escavadeira operacional e, em algumas ocasiões, as equipes tiveram que remover os escombros apenas com as mãos.

Pedido de acesso e preservação de provas

O alto comissário da ONU pediu que investigadores internacionais tenham acesso a todas as partes de Gaza para ajudar a coletar e preservar evidências, especialmente diante dos procedimentos judiciais em curso relacionados à condução das hostilidades.

Se devem tomar todas as medidas possíveis para documentar e identificar as vítimas, preservar a informação forense e as amostras biológicas, registrar os lugares onde foram enterradas e informar as suas famílias”, afirmou Türk. “O direito das famílias de conhecer o destino dos seus entes queridos não termina com a identificação e um enterro digno. Merecem conhecer toda a verdade”.

A guerra em Gaza foi desencadeada após o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, que matou 1.221 pessoas em Israel, segundo dados oficiais israelenses. A ofensiva israelense causou a morte de mais de 73.000 palestinos, incluindo mais de 1.350 após o anúncio do cessar-fogo em outubro do ano passado, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.

A ONU estima que os ataques israelenses geraram cerca de 61 milhões de toneladas de escombros, que podem levar sete anos para serem removidos. Um relatório da ONU de 2024 concluiu que os ataques israelenses a edifícios residenciais e outros locais civis durante as primeiras semanas da guerra podem ter violado o direito internacional humanitário.

LEIA TAMBÉM:  Irã e Israel Suspendem Ataques Mútuos Após Pedido de Trump, mas Mantêm Ameaças

Posição de Israel

O gabinete do primeiro-ministro israelense e o Ministério das Relações Exteriores não responderam imediatamente a um pedido de comentário. Israel tem rejeitado repetidamente as alegações de que ataca deliberadamente civis e afirma ter agido de acordo com o direito internacional ao combater militantes do Hamas em Gaza.

Referências

[1] CNN Brasil — ONU diz que restos mortais em Gaza levantam preocupação de crimes de guerra.

[2] UOL / AFP — ONU pede acesso a Gaza após a descoberta de corpos entre os escombros.

[3] ONU News — El Alto Comisionado pide investigar posibles crímenes de guerra tras hallar cientos de cuerpos en Gaza.

[4] OHCHR — Gaza: UN expert warns Israeli rubble-clearing could erase traces of atrocity crimes.

Nota editorial

As informações relatadas nesta matéria refletem o comunicado oficial do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, divulgado em 15 de setembro de 2026, e dados da Defesa Civil Palestina e do Ministério da Saúde de Gaza. As acusações sobre possíveis crimes de guerra são preocupações levantadas pela ONU com base nas circunstâncias da recuperação dos corpos e não constituem conclusão definitiva de responsabilidade. Israel nega ataques deliberados contra civis. O espaço para manifestação das autoridades israelenses permanece aberto.

Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

Redes sociais

Deixe uma resposta