Eleições 2026

O DIVÃ DA ELEIÇÃO

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Lula: o homem, o personagem e aquilo que ele representa

Por Leo Oliveira — Psicanalista

Em ano de eleição, somos bombardeados por pesquisas, discursos, promessas, ataques, debates e vídeos nas redes sociais.

Mas existe uma pergunta que quase nunca fazemos:

O que existe por trás da imagem que um candidato constrói diante de nós?

É justamente essa pergunta que inaugura a série “O Divã da Eleição”, uma proposta do Arena Remix para olhar os principais presidenciáveis por uma perspectiva diferente: a da psicanálise.

Antes de começar, uma ressalva é necessária.

Esta não é uma avaliação psicológica de Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula não está no meu consultório, não existe uma relação analítica entre nós e, portanto, não seria ético transformar comportamentos públicos em diagnóstico clínico.

O que podemos fazer é analisar aquilo que é público: sua trajetória, sua comunicação, a imagem que construiu ao longo de décadas e, principalmente, aquilo que essa imagem parece representar para diferentes grupos de eleitores.

Porque, na política, talvez não votemos apenas em pessoas.

Votamos também naquilo que essas pessoas representam para nós.


1. Quem é Lula na construção da própria narrativa?

Antes de ser presidente, Lula foi metalúrgico e dirigente sindical.

Nascido em Garanhuns, Pernambuco, em 1945, migrou ainda criança com a família para São Paulo. Tornou-se torneiro mecânico pelo Senai e trabalhou no setor metalúrgico do ABC paulista. Na década de 1970, ganhou projeção como dirigente sindical e presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.

Essa trajetória não é apenas uma sequência de fatos biográficos.

Ela se transformou em uma narrativa política.

O menino pobre que migrou para São Paulo.

O trabalhador.

O metalúrgico.

O sindicalista.

O homem que enfrentou a ditadura.

O candidato que perdeu eleições antes de finalmente chegar à Presidência.

O presidente que deixou o cargo e voltou anos depois ao Palácio do Planalto.

A própria trajetória de Lula contém elementos que favorecem uma narrativa clássica de superação e ascensão.

E essa narrativa possui uma força simbólica enorme.

Ela permite que uma parcela do eleitorado não enxergue somente o político.

Enxergue “alguém que veio de onde eu vim”.


2. A imagem do homem que venceu as adversidades

Poucos políticos brasileiros possuem uma história pessoal tão conhecida pelo grande público.

Lula não construiu sua identidade política apenas a partir de propostas.

Construiu também a partir da própria história.

A origem humilde tornou-se parte fundamental de sua imagem pública.

As derrotas eleitorais também fazem parte dessa narrativa.

Lula disputou a Presidência em 1989, 1994 e 1998 antes de vencer em 2002. Depois de dois mandatos, retornou à Presidência em 2023.

Psicanaliticamente, existe algo interessante aqui.

Histórias de superação produzem identificação.

Quando alguém olha para Lula e pensa:

“Ele conseguiu chegar lá.”

não está necessariamente enxergando apenas Lula.

Pode estar enxergando a própria possibilidade de vencer uma história de dificuldades.

É aí que a política encontra algo profundamente humano.

A necessidade de acreditar que a própria origem não determina necessariamente o destino.


3. O Lula líder versus o Lula conciliador

Existe uma aparente contradição interessante na figura pública de Lula.

De um lado, temos o Lula sindicalista, associado historicamente à mobilização, ao confronto e às greves do ABC.

De outro, existe o Lula político capaz de construir alianças extremamente amplas e negociar com setores diferentes da sociedade.

Essas duas imagens não necessariamente se anulam.

Podem fazer parte da mesma persona política.

O líder precisa demonstrar força.

Mas o governante precisa negociar.

O sindicalista precisa mobilizar.

O presidente precisa construir maioria.

E essa capacidade de ocupar posições diferentes conforme o contexto é uma das características mais importantes da trajetória política de Lula.

Isso também ajuda a entender por que ele consegue conversar com públicos diferentes.

Lula pode aparecer como o homem do conflito ou como o homem da conciliação.

A pergunta não é necessariamente qual dos dois é o “verdadeiro Lula”.

A pergunta é:

qual Lula está sendo convocado em determinado momento?


4. Identificação e pertencimento

Freud dedicou atenção especial ao conceito de identificação: o processo pelo qual o sujeito estabelece vínculos e incorpora características de outras pessoas ou grupos.

Na política, a identificação pode ser extremamente poderosa.

O eleitor não precisa concordar com absolutamente tudo que um candidato diz para se identificar com ele.

Às vezes basta uma sensação:

“Ele me representa.”

E essa representação pode ocorrer por classe social, região, origem, religião, valores, experiência de vida ou simplesmente pela percepção de pertencimento.

No caso de Lula, a identidade de trabalhador e de homem de origem popular ocupa um lugar importante em sua comunicação pública.

Isso ajuda a explicar por que sua imagem continua encontrando forte identificação em determinados segmentos do eleitorado.

Na pesquisa Datafolha divulgada em setembro de 2026, por exemplo, Lula tinha vantagem entre eleitores com renda de até dois salários mínimos e entre católicos, mulheres e eleitores do Nordeste.

Mas identificação não significa unanimidade.

E é justamente aí que a coisa fica interessante.


5. O papel do “povo” na narrativa de Lula

Uma palavra aparece com frequência no discurso político de Lula:

povo.

E não é difícil entender por quê.

A palavra “povo” não representa apenas uma categoria estatística.

Ela carrega uma dimensão afetiva.

Quando um político fala em “povo brasileiro”, não está simplesmente falando de milhões de indivíduos diferentes.

Está tentando construir uma ideia de pertencimento coletivo.

Existe um “nós”.

E, quando existe um “nós”, inevitavelmente aparece também algum tipo de “eles”.

Essa divisão não é exclusiva de Lula.

É um mecanismo comum da comunicação política.

Mas, no caso de Lula, ela ganha força porque está diretamente relacionada à própria história que ele construiu: trabalhador, sindicalista e representante das camadas populares.

A narrativa é poderosa porque aproxima o candidato de uma identidade coletiva.

“Eu venho de vocês.”

E essa talvez seja uma das mensagens mais fortes que um político pode transmitir.


6. Como Lula reage ao conflito e à oposição?

Aqui precisamos ter cuidado para não confundir crítica política com diagnóstico psicológico.

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Lula possui uma longa história de enfrentamentos políticos.

Isso faz parte de sua trajetória desde o movimento sindical e atravessa suas campanhas eleitorais e seus governos.

Na campanha de 2026, o conflito continua sendo um elemento importante de sua comunicação.

A disputa atual com Flávio Bolsonaro mostra isso claramente. Pesquisas recentes apontam Lula e Flávio como os dois principais nomes da corrida presidencial, com resultados que variam entre liderança de Lula e empate técnico dependendo do instituto e do cenário.

Aqui aparece uma característica importante da política brasileira contemporânea:

o adversário muitas vezes funciona também como elemento de definição da própria identidade.

“Eu sou contra aquilo.”

“Eu represento o contrário disso.”

“Eu sou a alternativa.”

O conflito, portanto, não serve apenas para atacar o outro.

Ele também ajuda o candidato a dizer quem ele próprio é.


7. O que seus apoiadores projetam nele?

Agora chegamos a uma das partes mais interessantes desta análise.

Talvez não seja possível compreender completamente a força política de Lula olhando apenas para Lula.

Precisamos olhar para quem o segue.

Para alguns eleitores, Lula representa:

superação.

Para outros:

justiça social.

Para outros:

proteção.

Para outros:

representatividade.

E para uma parcela importante:

memória de um período considerado positivo de suas próprias vidas.

Essa última questão merece atenção.

A memória política não é apenas racional.

Quando alguém diz:

“Na época do Lula eu conseguia comprar isso.”

ou

“Foi naquele governo que minha vida melhorou.”

não está necessariamente fazendo uma análise econômica detalhada.

Está recuperando uma experiência subjetiva.

E experiências subjetivas têm enorme força na hora de escolher.


8. E o que seus críticos projetam nele?

O mesmo mecanismo funciona no sentido contrário.

Para seus críticos, Lula pode representar:

corrupção;

esquerda;

aparelhamento;

velha política;

fracasso econômico;

ou uma visão de país com a qual não se identificam.

O mesmo homem que para um eleitor representa esperança, para outro pode representar ameaça.

Isso nos leva a uma questão essencial:

estamos olhando para Lula ou para aquilo que colocamos sobre Lula?

É claro que um político possui responsabilidades concretas, decisões concretas e resultados que podem ser avaliados.

Mas a imagem que cada pessoa constrói desse político também é atravessada pela própria história, pelos valores e pelas experiências daquele eleitor.

É por isso que duas pessoas podem assistir ao mesmo discurso e sair com interpretações completamente opostas.


9. A força — e os limites — da figura de Lula

Em setembro de 2026, Lula continua sendo uma das figuras mais conhecidas e polarizadoras da política brasileira.

A pesquisa Datafolha divulgada em 11 de setembro mostrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 35% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, os dois apareciam tecnicamente empatados: 46% a 44%.

Outro dado chama atenção.

Na mesma pesquisa, 46% dos entrevistados disseram que não votariam em Lula de jeito nenhum, percentual tecnicamente empatado com a rejeição a Flávio Bolsonaro.

Isso revela uma característica importante da figura de Lula:

ele não é apenas um candidato competitivo. É também um candidato altamente polarizador.

Sua força está justamente em conseguir produzir identificação intensa.

Mas aí também está seu limite.

Quanto mais forte é a identificação de um grupo com determinado líder, maior pode ser a rejeição produzida no grupo contrário.

Lula não ocupa um espaço neutro no imaginário político brasileiro.

Ele desperta sentimentos.

E política, quando passa a ser profundamente emocional, raramente produz indiferença.


10. Afinal, por que Lula desperta tanto amor e tanta rejeição?

Talvez essa seja a pergunta mais importante desta primeira edição.

Porque seria fácil responder:

“É por causa da esquerda.”

Ou:

“É por causa da direita.”

Mas a psicanálise nos convida a ir um pouco além.

Líderes políticos podem ocupar lugares simbólicos muito maiores do que a própria pessoa.

Podem representar o pai.

O protetor.

O rebelde.

O salvador.

O representante do povo.

O inimigo.

A ameaça.

A esperança.

Ou até aquilo que precisamos combater para confirmar nossa própria identidade.

Por isso, talvez a pergunta não seja simplesmente:

“Quem é Lula?”

Talvez devêssemos perguntar:

“Quem Lula é para você?”

Para alguns brasileiros, ele é a prova de que alguém vindo de baixo pode chegar ao topo.

Para outros, representa tudo aquilo que gostariam de ver derrotado politicamente.

Para alguns, é símbolo de inclusão.

Para outros, símbolo de um projeto de poder que rejeitam.

E existe uma terceira possibilidade, talvez a mais interessante:

Lula pode ser todas essas coisas ao mesmo tempo, porque a imagem de um líder também é construída por aqueles que o observam.


O divã não é do candidato. É nosso.

Essa talvez seja a principal proposta desta série.

Não vamos colocar presidenciáveis no divã.

Vamos colocar a relação entre o eleitor e o candidato.

Porque talvez a política revele tanto sobre quem pede o voto quanto sobre quem escolhe votar.

E, antes de perguntar:

“Em quem você vai votar?”

talvez valha fazer uma pergunta um pouco mais desconfortável:

“O que você está procurando naquele candidato?”

Segurança?

Mudança?

Vingança?

Esperança?

Representatividade?

Ordem?

Reconhecimento?

Ou alguém que confirme aquilo que você já acredita?

No fim das contas, talvez o voto seja mais do que uma escolha racional.

Talvez seja também uma escolha atravessada por memória, identificação, medo, desejo, esperança e pertencimento.

E é exatamente aí que começa o nosso divã.


Fontes consultadas

  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — informações oficiais sobre as Eleições 2026 e registros de candidaturas.
  • Arquivo Nacional / Presidência da República — biografia e trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva.
  • Biblioteca da Presidência da República — histórico dos mandatos presidenciais e trajetória eleitoral.
  • Datafolha, setembro de 2026 — intenção de voto, rejeição e recortes do eleitorado.
  • Quaest, setembro de 2026 — cenário eleitoral e simulações de segundo turno.
  • CNT/MDA, setembro de 2026 — intenção de voto e avaliação do governo.

Nota editorial:

As informações e análises de cada candidato estão baseadas em suas figuras públicas, reafirmamos que esta avaliação não tem caráter clínico.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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