Eleições 2026

O DIVÃ DA ELEIÇÃO

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Augusto Cury: quando o especialista entra no lugar do político

Por Leo Oliveira — Psicanalista

Depois de olhar para Lula e Flávio Bolsonaro, chegamos a um personagem completamente diferente.

Augusto Cury não construiu sua trajetória política dentro de um partido tradicional, não possui décadas de mandatos eletivos e não chega à disputa presidencial carregando um sobrenome familiar de peso eleitoral.

Ele chega por outro caminho.

O conhecimento.

Médico psiquiatra, escritor e palestrante, Cury construiu sua notoriedade principalmente através de livros, palestras e de sua chamada Teoria da Inteligência Multifocal. Aos 67 anos, disputa pela primeira vez a Presidência da República pelo Avante, tendo Júlio Delgado como candidato a vice. O Tribunal Superior Eleitoral aprovou o registro da chapa em setembro.

E isso torna sua candidatura particularmente interessante para uma leitura psicanalítica.

Porque existe uma pergunta diferente diante de nós:

O que acontece quando alguém cuja autoridade foi construída falando sobre a mente humana decide disputar o poder político?

Novamente, é importante deixar claro:

não estamos fazendo uma avaliação psicológica de Augusto Cury.

Não estamos diagnosticando sua personalidade, suas motivações inconscientes ou sua estrutura psíquica.

Estamos analisando aquilo que é público:

a persona construída, a linguagem utilizada, a narrativa apresentada ao eleitor e o lugar simbólico que ele tenta ocupar.


1. Quem é Augusto Cury na construção da própria narrativa?

Se Lula construiu sua imagem a partir da trajetória do trabalhador que chegou à Presidência e Flávio Bolsonaro carrega a força simbólica de uma herança familiar, Augusto Cury apresenta outro elemento central:

a autoridade intelectual.

Sua trajetória pública está associada à psiquiatria, à produção de livros e à disseminação de conceitos relacionados à inteligência, emoções, comportamento e desenvolvimento humano. A Agência Brasil descreve Cury como médico psiquiatra, escritor e conferencista, conhecido por dezenas de livros no segmento de autoajuda.

Existe, portanto, uma construção narrativa bastante clara:

“Eu compreendo o ser humano.”

Essa é uma posição poderosa.

Porque o eleitor não está diante apenas de alguém que promete administrar o Estado.

Está diante de alguém que passou grande parte da vida falando sobre como as pessoas pensam, sentem e se comportam.

Politicamente, isso pode produzir uma imagem de candidato diferente do político tradicional.

Menos “homem de partido”.

Mais especialista.

Menos “carreira política”.

Mais experiência profissional.

E essa diferença é justamente parte de sua proposta de identidade.


2. A imagem do homem que conhece a mente humana

Aqui encontramos talvez o maior patrimônio simbólico de Cury.

Sua carreira foi construída em torno de temas como inteligência, emoções, relações humanas e comportamento.

Isso permite que sua comunicação política parta de um lugar diferente.

Enquanto alguns candidatos dizem:

“Eu sei governar.”

Cury pode ocupar um lugar discursivo mais próximo de:

“Eu compreendo o ser humano.”

Isso é especialmente interessante porque a política brasileira vive um momento de enorme desgaste das instituições e dos políticos tradicionais.

Nesse contexto, um candidato que aparece como alguém de fora da política profissional pode encontrar um público interessado em uma alternativa.

Mas existe uma questão importante.

Ser especialista em comportamento humano não significa automaticamente ser especialista em política.

Governar exige conhecimentos econômicos, jurídicos, administrativos, diplomáticos, institucionais e sociais que vão muito além da compreensão individual do comportamento.

É justamente nessa diferença que a candidatura de Cury precisa construir sua legitimidade.


3. O Cury especialista versus o Cury político

Aqui está provavelmente o maior conflito simbólico de sua candidatura.

Durante décadas, Augusto Cury ocupou o lugar de autoridade intelectual e profissional.

Agora precisa ocupar outro lugar:

o lugar do político.

E esses dois papéis possuem regras diferentes.

No consultório, na sala de aula ou em uma palestra, o especialista fala a partir de seu conhecimento.

Na política, o candidato precisa:

negociar, ceder, formar alianças, enfrentar oposição, administrar interesses conflitantes e tomar decisões que atingem grupos diferentes.

O especialista pode buscar a melhor resposta.

O político frequentemente precisa lidar com respostas possíveis.

Essa diferença pode ser decisiva para Cury.

Porque sua candidatura parece apostar justamente na ideia de que o país precisa de alguém capaz de superar determinadas limitações da política tradicional.

Mas o desafio será demonstrar que conhecimento sobre pessoas pode ser convertido em capacidade de governar instituições complexas.


4. Como ele utiliza identificação e pertencimento?

A identificação proposta por Cury parece ocorrer menos pela origem social ou pela tradição partidária e mais por uma característica diferente:

o desejo de mudança através do conhecimento.

O eleitor que se identifica com Cury pode não estar procurando necessariamente um “homem forte”.

Pode estar procurando:

equilíbrio.

racionalidade.

competência.

educação.

menos conflito.

uma alternativa à polarização.

Essa possibilidade é especialmente relevante em uma eleição marcada pela disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.

As pesquisas de setembro mostram que os dois concentram a maior parte das intenções de voto, enquanto Cury aparece em um patamar menor, mas relevante entre os candidatos de terceira via. Na Quaest de 14 de setembro, ele apareceu com 7% no primeiro turno; na pesquisa BTG/Nexus, divulgada no mesmo período, marcou 6%.

Ou seja:

existe um espaço eleitoral para alguém que não queira ocupar completamente os polos tradicionais da disputa.

E Cury tenta ocupar justamente esse espaço.


5. O papel da “mente” em sua narrativa

Aqui encontramos talvez a característica mais singular de Cury.

Enquanto outros candidatos falam predominantemente de:

economia,

segurança,

corrupção,

ideologia,

Estado,

emprego,

impostos,

Cury possui uma linguagem naturalmente ligada à subjetividade.

Ele fala sobre:

emoções.

educação.

saúde mental.

desenvolvimento humano.

relações.

formação.

Isso pode criar uma conexão emocional diferente com o eleitor.

A política deixa de ser apresentada apenas como uma questão de infraestrutura externa.

Passa a ser também uma questão de formação interna do indivíduo.

E isso combina com uma sociedade em que saúde mental, ansiedade, estresse e sofrimento psíquico ganharam enorme visibilidade.

Mas aqui precisamos fazer uma distinção fundamental:

psiquiatria, psicologia, psicanálise e discurso de autoajuda não são a mesma coisa.

E essa distinção importa ainda mais quando o candidato utiliza sua autoridade profissional como parte da própria identidade pública.


6. Como Cury reage ao conflito e à oposição?

Esse será um dos aspectos mais importantes para acompanhar durante a campanha.

Porque existe uma diferença entre falar sobre inteligência emocional e vivenciar o conflito político.

Uma palestra pode ser organizada.

Uma entrevista pode ser preparada.

Um livro pode ser revisado.

A política não.

Na política, o candidato será interrompido, provocado, criticado, confrontado e pressionado.

E será justamente nesses momentos que o eleitor poderá observar se a imagem do homem equilibrado consegue sobreviver ao ambiente naturalmente conflituoso da disputa eleitoral.

Essa é uma questão particularmente interessante para a candidatura de Cury:

Como alguém que construiu sua autoridade falando sobre controle emocional se comporta quando perde o controle da situação?

Não estamos afirmando que ele tenha ou terá dificuldade com isso.

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Estamos apenas estabelecendo uma pergunta legítima para acompanhar a campanha.

Porque uma persona política também é testada quando a realidade deixa de obedecer ao roteiro.


7. O que seus apoiadores projetam nele?

O eleitor pode projetar em Cury uma figura bastante diferente daquela projetada em Lula ou Flávio.

Cury pode representar:

o professor;

o especialista;

o médico;

o homem racional;

o conciliador;

o outsider;

a alternativa à polarização.

Existe algo psicologicamente interessante nessa escolha.

Quando uma sociedade está cansada do conflito, pode surgir o desejo de encontrar alguém que pareça estar acima da briga.

Alguém que diga:

“Vamos parar de discutir e começar a resolver.”

Essa posição possui enorme poder de sedução.

Mas também carrega um risco.

Porque a política é, inevitavelmente, conflito de interesses.

Não existe governo sem conflito.

A questão não é eliminar o conflito.

É saber administrá-lo.


8. E o que seus críticos projetam nele?

O mesmo candidato pode ser visto de maneira completamente diferente por quem não se identifica com sua proposta.

Para seus críticos, Cury pode representar:

um candidato sem experiência política;

um discurso excessivamente baseado na figura do especialista;

uma transposição da linguagem de livros e palestras para um universo muito mais complexo;

ou até mesmo uma candidatura construída mais sobre sua notoriedade como escritor do que sobre experiência administrativa.

E aqui aparece uma questão importante:

a autoridade construída em uma área pode ser automaticamente transferida para outra?

Ser reconhecido como médico e escritor não responde, por si só, à pergunta sobre capacidade de governar um país.

Mas também seria simplista concluir o contrário.

Um candidato não precisa necessariamente ter décadas de mandato para possuir capacidade política.

A questão real é:

Que competências ele consegue demonstrar para transformar sua experiência anterior em capacidade de governo?


9. A força — e os limites — da figura de Cury

Os números mostram que Cury conseguiu entrar no radar da disputa.

Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de setembro, ele apareceu com 7% no primeiro turno, atrás de Lula e Flávio Bolsonaro. Em simulação de segundo turno contra Lula, Cury registrou 36%, contra 38% do atual presidente, dentro da margem de erro. Já no levantamento BTG/Nexus, Cury apareceu com 6% no primeiro turno e chegou a 42% contra 45% de Lula em um cenário de segundo turno.

Isso significa que, apesar de estar distante dos líderes no primeiro turno, Cury não é eleitoralmente irrelevante.

Sua força parece estar justamente na possibilidade de representar um terceiro caminho.

Mas existe um limite evidente:

a eleição presidencial exige mais do que identificação pessoal.

É necessário transformar simpatia em confiança.

Confiança em voto.

Voto em maioria.

E, depois, maioria em governabilidade.

Além disso, sua candidatura já enfrenta questionamentos públicos que podem testar justamente a imagem de autoridade e precisão que sustenta sua persona.

Reportagens recentes questionaram, por exemplo, a forma como Cury apresenta sua relação acadêmica com a USP. A universidade afirmou que ele foi professor convidado entre 2020 e 2022 em uma disciplina específica, e não professor de pós-graduação da instituição da maneira apresentada em seu site e plano de governo.

A Folha também publicou reportagem sobre empresas de Cury nos Estados Unidos que, segundo a publicação, não constavam de sua declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral; a defesa afirmou que o patrimônio foi construído licitamente e que eventuais inconsistências seriam corrigidas.

Esses episódios não permitem concluir, por si só, sobre caráter ou intenção.

Mas politicamente produzem uma questão importante:

quando a autoridade de alguém depende fortemente da imagem de especialista, qualquer questionamento sobre credenciais pode ter um peso maior sobre sua persona pública.


10. Afinal, por que Augusto Cury desperta identificação?

Talvez a resposta esteja justamente naquilo que o diferencia dos dois candidatos anteriores.

Lula oferece ao eleitor uma narrativa de superação e pertencimento popular.

Flávio Bolsonaro oferece uma narrativa de continuidade e herança política.

Cury oferece outra coisa:

a promessa de compreender.

Compreender a mente.

Compreender as emoções.

Compreender a educação.

Compreender o comportamento.

E talvez exista aí uma necessidade profundamente humana.

Quando o mundo parece caótico, procuramos alguém que pareça compreender aquilo que nós não conseguimos compreender.

O especialista ocupa então um lugar simbólico interessante:

“Ele sabe o que está fazendo.”

Mas aqui existe uma pergunta fundamental:

O eleitor está escolhendo Cury porque acredita em suas propostas políticas ou porque confia na autoridade que ele construiu falando sobre a mente humana?

São coisas diferentes.

E talvez a campanha precise responder justamente a essa diferença.


O DIVÃ NÃO É DO CANDIDATO. É NOSSO.

Augusto Cury nos coloca diante de uma questão diferente.

Talvez ele não seja apenas um candidato tentando convencer o eleitor.

Talvez seja também um teste para o próprio eleitor.

Porque sua candidatura pergunta, ainda que indiretamente:

Estamos cansados dos políticos?

Estamos procurando especialistas?

Queremos alguém que nos explique o mundo?

Estamos buscando menos conflito?

Estamos procurando alguém que pareça emocionalmente equilibrado?

Ou será que estamos apenas transferindo para a política uma necessidade que originalmente pertence a outro lugar?

A necessidade de encontrar alguém que diga:

“Eu sei como resolver aquilo que está te fazendo sofrer.”

Essa frase é poderosa.

Na clínica, porém, existe uma diferença fundamental entre o terapeuta e o salvador.

O terapeuta não deveria ocupar o lugar daquele que sabe tudo sobre o outro.

E talvez a política também precise tomar cuidado com candidatos que prometem ocupar esse lugar.

Porque nenhum presidente consegue compreender tudo.

Nenhum especialista sabe tudo.

Nenhum político resolve tudo.

E nenhum eleitor deveria entregar a outro ser humano a responsabilidade de pensar por ele.

Talvez essa seja a pergunta que Augusto Cury deixa para o nosso divã:

“Você está procurando um presidente ou alguém que finalmente tenha todas as respostas?”

Porque, se for a segunda opção, talvez o problema não esteja apenas no candidato.

Talvez esteja na nossa necessidade de encontrar alguém que não erre.

E essa necessidade diz muito sobre nós.


Fontes consultadas

  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — registro oficial das candidaturas e confirmação da chapa Augusto Cury/Júlio Delgado.
  • Agência Brasil — trajetória profissional e política de Augusto Cury e lançamento de sua candidatura pelo Avante.
  • Quaest, setembro de 2026 — intenção de voto e cenários de segundo turno.
  • BTG/Nexus, setembro de 2026 — intenção de voto e simulações de segundo turno.
  • UOL — questionamentos sobre a apresentação da trajetória acadêmica de Cury e posicionamento da USP.
  • Folha de S.Paulo — informações sobre declaração de bens e negócios de Cury nos Estados Unidos, incluindo manifestação da defesa.
  • Folha de S.Paulo — evolução recente da campanha e estrutura eleitoral de Cury.
  • Folha de S.Paulo — informações sobre anúncios pró-Cury e questionamentos relacionados ao impulsionamento eleitoral.

Nota editorial:

As informações e análises de cada candidato estão baseadas em suas figuras públicas, reafirmamos que esta avaliação não tem caráter clínico.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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