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Ronaldo Caiado: autoridade, confronto e a busca pelo controle.
Por Leo Oliveira — Psicanalista
Depois de Lula, Flávio Bolsonaro e Augusto Cury, chegamos a um candidato que construiu sua identidade política por um caminho bastante diferente.
Ronaldo Caiado não depende de um sobrenome presidencial, não surgiu recentemente na política e tampouco construiu sua notoriedade principalmente através de livros e palestras.
Sua trajetória é outra.
Experiência. Autoridade. Confronto. Gestão.
Médico, produtor rural, ex-deputado federal, ex-senador e governador de Goiás, Caiado acumulou décadas de atuação política antes de chegar à disputa presidencial de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral deferiu seu registro de candidatura pelo PSD, tendo o empresário Sérgio Moro como candidato a vice. (tse.jus.br)
E talvez exista uma palavra que ajude a compreender sua persona política:
controle.
Controle da segurança.
Controle da ordem.
Controle da máquina pública.
Controle da situação.
Mas, novamente, esta não é uma avaliação psicológica de Caiado.
Não estamos diagnosticando personalidade, motivações inconscientes ou estrutura psíquica.
Estamos analisando sua persona pública, seus discursos, sua trajetória política e aquilo que sua imagem representa para seus eleitores.
1. Quem é Caiado na construção da própria narrativa?
A trajetória de Caiado começa muito antes da candidatura presidencial.
Nascido em Anápolis, Goiás, em 1949, formou-se em medicina e entrou na vida política ainda na década de 1980. Foi deputado federal por diversos mandatos, senador e, posteriormente, governador de Goiás. (senado.leg.br)
Mas existe um elemento importante em sua construção política:
Caiado não costuma se apresentar como alguém que descobriu a política ontem.
Sua autoridade vem justamente da experiência.
Isso produz uma narrativa diferente da de Augusto Cury.
Cury diz, simbolicamente:
“Eu compreendo o ser humano.”
Caiado pode dizer:
“Eu conheço o Estado porque já o administrei.”
É uma diferença importante.
Sua candidatura se apoia na experiência acumulada.
Ele não precisa convencer o eleitor de que sabe como funciona a política.
Precisa convencer que sabe como fazê-la funcionar melhor.
2. A imagem do homem que enfrenta adversidades
Caiado construiu boa parte de sua trajetória política em posições de confronto.
Durante a Assembleia Nacional Constituinte, tornou-se uma figura associada à defesa de pautas conservadoras e do setor agropecuário.
Ao longo de sua carreira, assumiu posições fortes em temas relacionados à propriedade rural, segurança e organização do Estado.
Essa trajetória ajuda a formar uma imagem específica:
a do político que não recua facilmente diante do conflito.
É uma imagem que pode gerar identificação em eleitores que valorizam firmeza.
Mas também pode produzir rejeição em quem prefere negociação e conciliação.
E aqui aparece um fenômeno importante:
a mesma característica que constrói autoridade pode produzir resistência.
O candidato que parece firme para um eleitor pode parecer inflexível para outro.
O candidato que transmite segurança para um grupo pode transmitir agressividade para outro.
A característica é a mesma.
O olhar muda.
3. O Caiado líder versus o Caiado conciliador
Essa talvez seja uma das tensões mais interessantes de sua candidatura.
Caiado possui uma imagem pública associada à firmeza.
Mas governar exige negociação.
Durante seu governo em Goiás, precisou lidar com Assembleia Legislativa, prefeitos, empresários, servidores públicos, Judiciário, forças de segurança e diferentes grupos políticos.
Ou seja:
a autoridade não pode funcionar apenas como confronto.
Ela precisa também produzir governabilidade.
Essa diferença entre liderar e mandar é fundamental.
Um líder precisa conseguir que pessoas diferentes aceitem caminhar na mesma direção.
E isso frequentemente exige concessões.
A política, portanto, coloca Caiado diante de uma questão importante:
Como manter a imagem de homem firme sem transformar firmeza em rigidez?
Não estamos afirmando que ele seja rígido.
Estamos identificando uma questão que sua persona pública inevitavelmente enfrenta.
4. Como ele utiliza identificação e pertencimento?
Caiado possui uma identificação muito forte com determinados segmentos do eleitorado, especialmente ligados ao agronegócio, ao conservadorismo e ao discurso de segurança pública.
Sua experiência como produtor rural também faz parte dessa identidade.
Ele não precisa apenas dizer:
“Eu defendo o campo.”
Sua biografia permite apresentar-se como alguém que vem desse universo.
Isso cria pertencimento.
O eleitor não vê apenas um político falando sobre determinado setor.
Pode enxergar:
“Ele conhece a nossa realidade.”
Essa é uma das formas mais poderosas de identificação política.
O candidato não precisa convencer o eleitor de que pertence ao grupo.
Ele pode simplesmente demonstrar que já estava lá antes de pedir o voto.
5. O papel da segurança e da ordem em sua narrativa
Se existe um eixo particularmente importante na imagem de Caiado, é a segurança pública.
Durante o governo de Goiás, seu discurso e suas políticas deram grande destaque à atuação das forças de segurança.
Esse tema também aparece na construção de sua candidatura presidencial.
E existe algo interessante na dimensão psicológica da segurança.
Segurança não é apenas ausência de crime.
É também uma sensação:
“Existe alguém no controle.”
Em sociedades atravessadas pelo medo, essa sensação pode ter enorme força eleitoral.
O eleitor não procura apenas uma política pública.
Procura a sensação de que alguém:
vai colocar ordem.
vai estabelecer limites.
vai proteger.
vai impedir que as coisas saiam do controle.
Essa é uma promessa emocional muito poderosa.
E ela ajuda a compreender por que discursos de autoridade costumam encontrar espaço em momentos de insegurança social.
6. Como Caiado reage ao conflito e à oposição?
Aqui encontramos talvez uma das características mais marcantes de sua trajetória.
Caiado nunca construiu sua carreira política evitando conflitos.
Ao contrário.
Sua imagem pública foi construída, em boa medida, através de posições contundentes e confrontos políticos.
Isso pode ser uma vantagem eleitoral.
Em uma sociedade cansada de discursos excessivamente moderados, alguém que fala de maneira direta pode transmitir autenticidade.
Mas existe um preço.
Quanto mais o político constrói sua autoridade pela confrontação, maior pode ser a dificuldade de reposicionar-se como figura conciliadora quando necessário.
É um paradoxo:
o confronto constrói identidade, mas a Presidência exige capacidade de negociação.
Um governador pode governar com determinada base.
Um presidente precisa negociar com um país inteiro.
7. O que seus apoiadores projetam nele?
Para seus apoiadores, Caiado pode representar:
autoridade;
experiência;
segurança;
conhecimento de gestão;
defesa do agronegócio;
conservadorismo;
firmeza diante do crime.
Existe ainda uma característica interessante.
Caiado pode ocupar o lugar simbólico do adulto que coloca limites.
Em uma sociedade na qual muitos eleitores sentem que “ninguém manda em nada”, o candidato que promete autoridade pode produzir sensação de alívio.
A mensagem implícita é:
“Alguém vai colocar ordem nisso.”
E essa fantasia de ordem não é necessariamente negativa.
Todos nós precisamos de algum grau de limite.
O problema começa quando a necessidade de ordem se transforma em desejo de eliminar completamente o conflito.
Porque conflito faz parte da democracia.
8. E o que seus críticos projetam nele?
Para seus críticos, a mesma imagem pode ganhar outro significado.
O homem firme pode se transformar em:
autoritário.
O defensor da segurança pode se transformar em:
linha-dura.
O político experiente pode se transformar em:
representante da velha política.
O defensor do agronegócio pode ser percebido como:
representante de interesses específicos.
Mais uma vez, a figura é a mesma.
O significado muda conforme o observador.
Isso é importante porque o debate político frequentemente transforma características em rótulos.
Firmeza ou autoritarismo?
Segurança ou repressão?
Experiência ou velha política?
Defesa do produtor ou privilégio?
A resposta depende também dos valores de quem observa.
9. A força — e os limites — da figura de Caiado
Caiado chega à disputa presidencial com uma vantagem que poucos candidatos possuem:
experiência executiva comprovada.
Ele já governou um estado e pode apresentar resultados de sua administração como parte de sua campanha.
Mas experiência também pode ser uma faca de dois gumes.
Ela ajuda a responder:
“Ele sabe governar?”
Mas também permite perguntar:
“O que ele fez quando governou?”
Essa é uma diferença importante.
Para um candidato novo, o eleitor precisa imaginar.
Para um governador que busca a Presidência, o eleitor pode comparar.
Na pesquisa Quaest de 14 de setembro, Caiado apareceu com cerca de 5% das intenções de voto no primeiro turno, atrás dos principais candidatos. (www1.folha.uol.com.br)
Isso revela um dos desafios de sua candidatura.
Caiado possui uma identidade política consolidada.
Mas identidade consolidada não significa necessariamente alcance nacional.
Ele precisa transformar o reconhecimento regional e a experiência administrativa em uma narrativa capaz de conversar com eleitores que não possuem ligação direta com Goiás ou com o agronegócio.
E isso exige ampliar a persona sem perder sua essência.
10. Afinal, por que Caiado desperta identificação e rejeição?
Talvez porque ele represente algo muito básico no imaginário político:
a necessidade de alguém que coloque limites.
Quando existe sensação de desordem, procuramos ordem.
Quando existe medo, procuramos proteção.
Quando existe insegurança, procuramos autoridade.
Caiado ocupa justamente esse território simbólico.
Mas existe uma pergunta importante:
Quando você escolhe um candidato pela sensação de segurança que ele transmite, você está escolhendo políticas públicas ou está escolhendo alguém que lhe faça sentir protegido?
A diferença é enorme.
Porque um presidente não é um pai.
Não é um policial.
Não é um terapeuta.
Não é um salvador.
E não deveria ocupar completamente nenhum desses lugares.
Ainda assim, o imaginário político frequentemente tenta colocar o líder exatamente aí.
O homem que resolve.
O homem que protege.
O homem que impõe limites.
Talvez essa seja a força simbólica de Caiado.
Mas também seu maior desafio.
O DIVÃ NÃO É DO CANDIDATO. É NOSSO.
Caiado nos coloca diante de uma pergunta diferente daquela deixada por Cury.
Cury nos pergunta:
“Você procura alguém que tenha as respostas?”
Caiado nos pergunta:
“Você procura alguém que coloque ordem?”
São desejos diferentes.
Mas ambos dizem respeito a uma necessidade humana bastante antiga:
encontrar alguém que consiga organizar aquilo que parece fora de controle.
Talvez seja por isso que discursos de autoridade tenham tanta força em períodos de medo e incerteza.
Mas existe uma pergunta que precisamos fazer antes de entregar esse lugar a qualquer candidato:
“Eu quero um líder que me proteja ou um governo que respeite minha autonomia?”
Porque democracia não significa ausência de autoridade.
Significa que a autoridade também possui limites.
E talvez o verdadeiro teste de um candidato que constrói sua imagem sobre a força não seja descobrir se ele consegue mandar.
Seja descobrir:
se ele consegue exercer poder sem precisar transformar todo discordante em inimigo.
No final, como em todas as edições desta série, a pergunta volta para o eleitor:
O que você está procurando naquele candidato?
No caso de Caiado, talvez a resposta seja:
ordem.
segurança.
firmeza.
proteção.
E talvez a pergunta mais importante seja:
“Quanto da sua liberdade você está disposto a entregar em troca da sensação de estar protegido?”
O divã continua aberto.
E, mais uma vez, ele não é do candidato.
É nosso.
Fontes consultadas
- Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — registro das candidaturas à Presidência da República em 2026.
- Senado Federal — trajetória parlamentar e perfil de Ronaldo Caiado.
- Governo de Goiás — informações sobre a administração de Caiado e políticas de segurança pública.
- Agência Brasil — trajetória política e candidatura presidencial de 2026.
- Quaest, setembro de 2026 — cenários de primeiro turno e intenção de voto.
- Tribunal Regional Eleitoral de Goiás — informações eleitorais e trajetória política no estado.
Nota editorial:
As informações e análises de cada candidato estão baseadas em suas figuras públicas, reafirmamos que esta avaliação não tem caráter clínico.

