Eleições 2026

O DIVÃ DA ELEIÇÃO

Getting your Trinity Audio player ready...

Flávio Bolsonaro: o filho, o herdeiro e o homem que precisa construir o próprio lugar

Por Leo Oliveira — Psicanalista

Agora, a pergunta é feita a outro personagem central da eleição de 2026:

Quem é Flávio Bolsonaro quando retiramos, por alguns instantes, o sobrenome Bolsonaro da frente do candidato?

A pergunta é provocativa, mas necessária.

Flávio Bolsonaro nasceu em uma família já profundamente ligada à política. É filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi deputado estadual no Rio de Janeiro por quatro mandatos e é senador desde 2019. Em 2026, tornou-se candidato do PL à Presidência da República, tendo Alfredo Gaspar como vice. O registro da chapa foi aprovado pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Mas esta matéria não pretende responder se Flávio é bom ou ruim.

Também não pretende dizer se ele é narcisista, autoritário, inseguro ou qualquer outra coisa que exigiria uma avaliação clínica.

Não estamos no consultório.

Estamos diante de um personagem público.

E personagens públicos também constroem narrativas.


1. Quem é Flávio Bolsonaro na construção da própria narrativa?

Existe uma diferença importante entre a trajetória de Lula e a de Flávio.

Lula construiu grande parte de sua identidade política a partir da ideia de ascensão.

Flávio, por sua vez, precisa lidar com uma questão diferente:

a herança.

Seu sobrenome já chega antes dele.

Em sua biografia oficial de campanha, Flávio apresenta sua trajetória desde o nascimento em Resende, sua formação, os quatro mandatos como deputado estadual, a chegada ao Senado e a candidatura presidencial. A própria narrativa afirma que ele não pretende apenas herdar uma história, mas escrever a sua.

Essa frase contém uma tensão interessante.

Porque, politicamente, Flávio precisa fazer duas coisas simultaneamente:

ser Bolsonaro e não ser apenas Bolsonaro.

Precisa carregar o legado do pai porque é justamente esse legado que lhe proporciona parte importante de sua força eleitoral.

Mas também precisa demonstrar que possui identidade própria.

É uma tarefa delicada.

Porque romper demais com o pai pode significar perder a base que o levou até aqui.

Mas depender demais do pai pode alimentar a percepção de que sua candidatura é apenas uma continuidade familiar.


2. A imagem do homem que precisa provar que é mais do que o filho

Talvez essa seja a característica mais particular da candidatura de Flávio.

Seu maior patrimônio político também pode ser seu maior desafio.

O sobrenome Bolsonaro abre portas.

Mas também cria uma comparação permanente.

A própria campanha parece reconhecer essa questão.

No lançamento da candidatura, em Copacabana, Flávio afirmou:

“Sei que pareço com ele. Mas é difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé.”

A frase é interessante porque contém, ao mesmo tempo, reconhecimento e diferenciação.

Ele não nega a filiação.

Mas também afirma que existe uma diferença entre pai e filho.

Do ponto de vista psicanalítico, a relação entre identidade e filiação é extremamente rica.

O filho recebe um nome.

Recebe uma história.

Recebe identificações.

Mas, em algum momento, precisa construir uma resposta para uma pergunta silenciosa:

“Quem sou eu além daquele que me nomeou?”

Não estamos dizendo que Flávio viva necessariamente esse conflito internamente.

Seria especulação.

Estamos observando apenas uma questão objetiva de sua trajetória política:

ele precisa construir uma identidade eleitoral própria sem romper com a identidade política herdada.


3. O Flávio herdeiro versus o Flávio protagonista

Aqui encontramos outra tensão.

Flávio é, ao mesmo tempo:

herdeiro e protagonista.

Ele recebeu um patrimônio simbólico enorme: o sobrenome, a base política, a identificação com o bolsonarismo e a associação direta com o governo de Jair Bolsonaro.

Mas sua candidatura presidencial exige algo além de herança.

Exige protagonismo.

No lançamento da campanha, Flávio prometeu levar adiante o legado do pai. Também afirmou que, caso eleito, indicaria quatro novos ministros do STF e apresentou segurança pública como uma das prioridades de seu discurso.

Isso mostra uma estratégia interessante:

não abandonar o passado para construir o futuro.

O passado é utilizado como fundamento para o futuro.

A mensagem parece ser:

“Eu sou continuidade, mas posso ser a continuidade capaz de concluir aquilo que meu pai não terminou.”

E essa ideia aparece também em sua comunicação recente.

Em Juiz de Fora, cidade marcada pelo atentado contra Jair Bolsonaro em 2018, Flávio afirmou querer concluir o caminho que seu pai teria deixado inacabado.

Politicamente, isso transforma uma história familiar em missão política.


4. Como ele utiliza identificação e pertencimento?

Se Lula possui uma identificação construída fortemente em torno da origem popular e da trajetória sindical, Flávio possui outro tipo de identificação:

a identificação com o bolsonarismo.

Seu eleitor não necessariamente está escolhendo apenas Flávio.

Pode estar escolhendo aquilo que Flávio representa.

Uma continuidade.

Uma reação à esquerda.

Uma defesa de determinadas pautas conservadoras.

Uma posição mais dura na segurança pública.

Uma oposição ao que parte de seu eleitorado entende como excesso de poder do Judiciário.

Na campanha atual, Flávio tem intensificado justamente temas como segurança, economia e crítica ao STF.

Isso nos mostra algo importante.

Identificação política não depende apenas da pessoa.

Depende do grupo ao qual aquela pessoa parece pertencer.

O eleitor pode olhar para Flávio e pensar:

“Ele é um dos nossos.”

Essa sensação de pertencimento pode ser mais poderosa do que uma proposta isolada.


5. O papel do “pai” na narrativa

Aqui talvez esteja a característica mais singular desta candidatura.

Em Lula, a figura do trabalhador é central.

Em Flávio, a figura do pai ocupa um espaço extraordinário.

Não apenas porque Jair Bolsonaro é seu pai biológico.

Mas porque Jair Bolsonaro também é o principal símbolo político associado ao sobrenome que Flávio carrega.

Isso cria uma situação incomum:

o pai é, ao mesmo tempo, referência familiar, referência política e referência eleitoral.

Flávio escreveu inclusive uma obra biográfica sobre Jair Bolsonaro, intitulada Jair Messias Bolsonaro — Mito ou Verdade. Sua própria biografia oficial destaca essa relação.

E durante o lançamento da campanha, áudios do pai foram utilizados em um momento emocional do evento.

A questão psicanalítica interessante aqui não é:

“Flávio é dependente do pai?”

Não temos elementos para afirmar isso.

A pergunta correta é outra:

O quanto uma identidade política consegue se separar da identidade herdada?

Essa pergunta não vale apenas para Flávio.

Vale para qualquer filho que entra na mesma profissão, empresa, partido ou missão política do pai.

Mas no caso dele, isso ganha proporções nacionais.


6. Como Flávio reage ao conflito e à oposição?

O conflito ocupa um lugar importante em sua comunicação política.

Nos últimos dias, Flávio tem criticado ministros do STF e acusado setores da instituição de interferência política. Em Juiz de Fora, por exemplo, criticou o ministro Flávio Dino e afirmou que o Brasil estaria “sem comando”.

LEIA TAMBÉM:  Giro na estratégia: Flávio muda comando do marketing pela 2ª vez e aposta em Duda Lima:

Independentemente de concordarmos ou não com essas críticas, existe uma característica comunicacional evidente:

o conflito com instituições e adversários é transformado em elemento de identidade política.

O candidato não está apenas dizendo:

“Discordo dessa decisão.”

A narrativa pode assumir uma dimensão maior:

“Existe uma disputa sobre quem deve ter poder.”

E isso mobiliza emoções.

Medo.

Indignação.

Desejo de mudança.

Sensação de ameaça.

Desejo de restauração.

A política deixa de ser apenas uma discussão sobre políticas públicas.

Passa a ser uma disputa sobre quem tem o direito de ocupar determinado lugar de poder.


7. O que seus apoiadores projetam nele?

Aqui precisamos separar Flávio daquilo que seus eleitores podem colocar sobre ele.

Para seus apoiadores, Flávio pode representar:

continuidade;

defesa da família;

segurança;

conservadorismo;

reação ao poder do STF;

proteção;

defesa do legado de Jair Bolsonaro.

Mas existe algo ainda mais profundo.

Para parte do eleitorado bolsonarista, votar em Flávio pode representar a possibilidade de não abandonar uma história na qual esse eleitor já investiu emocionalmente.

Isso é psicologicamente relevante.

Porque abandonar completamente um líder político pode significar, para algumas pessoas, confrontar também a própria história de escolhas.

E aqui aparece um fenômeno humano bastante conhecido:

quanto mais emocionalmente investimos em uma identidade, mais difícil pode ser admitir que ela precisa ser revista.

Isso não é exclusivo da direita.

Também não é exclusivo da esquerda.

É humano.


8. E o que seus críticos projetam nele?

O mecanismo inverso também acontece.

Para seus críticos, Flávio pode representar:

a continuidade do bolsonarismo;

o poder político de uma família;

o conservadorismo radical;

confronto institucional;

a possibilidade de retorno de determinadas políticas do governo Bolsonaro.

A imagem de Flávio, portanto, é construída também pela oposição a ele.

E existe uma característica curiosa:

quanto mais o candidato tenta representar um grupo, mais facilmente pode se transformar no símbolo daquilo que outro grupo rejeita.

Flávio não precisa ser pessoalmente tudo aquilo que seus críticos atribuem a ele para que essa representação exista.

O símbolo político não pertence inteiramente ao político.

Ele também pertence ao imaginário de quem o observa.


9. A força — e os limites — da figura de Flávio

Aqui os números ajudam a entender o momento atual.

A pesquisa Quaest divulgada em 14 de setembro colocou Flávio numericamente à frente de Lula em um eventual segundo turno: 42% contra 40%, embora dentro da margem de erro e, portanto, em empate técnico. No primeiro turno, Lula aparecia com 36% e Flávio com 31%.

Já a pesquisa CNT/MDA divulgada em 15 de setembro apresentou um cenário diferente: Lula tinha 40,6% no primeiro turno contra 30,4% de Flávio e, no segundo turno, 47,3% contra 40%.

Ou seja:

a eleição está aberta e os institutos apresentam fotografias diferentes do mesmo momento.

Isso é importante porque pesquisa eleitoral não é sentença.

É fotografia.

E fotografia não é destino.

A força de Flávio está na capacidade de mobilizar uma identidade política já existente.

Mas aí também está seu limite.

Quanto mais sua candidatura depende de uma identidade política anterior, maior é o desafio de conquistar quem está fora dessa identidade.

Sua campanha parece estar tentando justamente ampliar esse alcance, com maior atenção ao Nordeste e ao Sudeste e com foco em temas como economia e segurança pública.

A pergunta é:

até onde é possível ampliar uma identidade sem perder aquilo que originalmente a tornou forte?


10. Afinal, por que Flávio Bolsonaro desperta identificação e rejeição?

Talvez a resposta não esteja apenas em Flávio.

Assim como no caso de Lula, precisamos olhar para aquilo que ele representa.

Para alguns brasileiros, Flávio representa:

a continuidade de Jair Bolsonaro.

Para outros:

a possibilidade de renovação do bolsonarismo.

Para outros:

um projeto conservador.

Para outros:

uma ameaça àquilo que consideram conquistas democráticas e institucionais.

Mas existe uma pergunta psicanalítica ainda mais interessante:

O eleitor está escolhendo Flávio ou está escolhendo a história que Flávio carrega?

Essa pergunta não é uma crítica.

É uma provocação.

Porque nenhum candidato chega à eleição completamente sozinho.

Alguns chegam carregando uma história sindical.

Outros carregam um sobrenome.

Alguns carregam um partido.

Outros carregam uma ideologia.

E alguns carregam uma família inteira dentro da própria candidatura.

No caso de Flávio Bolsonaro, talvez seja impossível compreender sua força eleitoral sem compreender a força simbólica de Jair Bolsonaro.

Mas também seria um erro concluir que Flávio é apenas uma cópia do pai.

A própria candidatura mostra uma tentativa de ocupar um lugar próprio.

E talvez seja justamente aí que esteja seu maior desafio:

ser suficientemente Bolsonaro para manter o bolsonarismo e suficientemente Flávio para convencer o eleitor de que existe um homem, e não apenas um sobrenome, pedindo seu voto.


O divã não é do candidato. É nosso.

Flávio Bolsonaro nos coloca diante de uma questão diferente daquela apresentada por Lula.

Lula construiu sua trajetória política a partir de uma narrativa de ascensão.

Flávio parte de uma posição inversa:

ele precisa transformar uma herança em identidade própria.

E isso nos leva novamente ao eleitor.

Quando alguém vota em Flávio, está escolhendo apenas um candidato?

Ou está escolhendo:

o pai?

o legado?

o bolsonarismo?

a direita?

a segurança?

a oposição ao STF?

a promessa de continuidade?

Ou simplesmente a esperança de que alguém represente aquilo que essa pessoa acredita que o Brasil deveria ser?

Talvez não exista uma única resposta.

E talvez seja justamente essa a função do nosso divã.

Não dizer ao eleitor em quem ele deve votar.

Mas ajudá-lo a perceber o que está procurando quando escolhe alguém para representar seus desejos, seus medos e suas expectativas.

Porque, no final, a pergunta continua sendo a mesma:

“O que esse candidato representa para você?”

E talvez a resposta diga tanto sobre o eleitor quanto sobre o candidato.


Fontes consultadas

  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — registro das candidaturas à Presidência de 2026 e situação da chapa Flávio Bolsonaro/Alfredo Gaspar.
  • Senado Federal — perfil, trajetória parlamentar e mandatos de Flávio Bolsonaro.
  • Agência Brasil — lançamento da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro e principais elementos de seu discurso.
  • Site oficial da campanha de Flávio Bolsonaro — biografia e narrativa apresentada pelo próprio candidato.
  • Quaest, setembro de 2026 — cenários de primeiro e segundo turno.
  • CNT/MDA, setembro de 2026 — intenção de voto e cenário de segundo turno.
  • UOL / cobertura eleitoral de setembro de 2026 — estratégia de campanha, segurança, economia e atuação no Nordeste e Sudeste.
  • UOL — declarações de Flávio sobre STF e campanha em Juiz de Fora.

Nota editorial:

As informações e análises de cada candidato estão baseadas em suas figuras públicas, reafirmamos que esta avaliação não tem caráter clínico.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

Redes sociais

Deixe uma resposta