São Paulo – O Ministério Público de São Paulo investiga coronéis da Polícia Militar do estado por suspeita de manterem ligação com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e receberem propinas em troca de favores e informações sigilosas. As evidências, reveladas nesta semana, incluem mensagens, áudios e a foto de uma sacola com R$ 270 mil em dinheiro.O material foi apreendido pela Polícia Federal durante uma investigação sobre doleiros e desdobramentos da Operação Janus. O grupo de atuação especial Gaeco, do Ministério Público, aprofundou as apurações e identificou um suposto arranjo entre operadores financeiros da facção e oficiais da corporação. Dois dos principais suspeitos de intermediar os pagamentos, Cleber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza, foram presos na última semana.
Favores e acesso a colônias de férias
No centro das investigações está o coronel da reserva Luiz Carlos Pereira Martins. Segundo o relatório do MP, ele mantinha uma relação de amizade próxima com os operadores do PCC. Em conversas em um grupo de mensagens chamado “Viajar Gente Linda”, o oficial convida Cleber Azevedo dos Santos para passar o feriado na colônia de férias dos oficiais da PM em Campos do Jordão, no interior do estado.

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A Polícia Federal avalia que o ex-comandante utilizava sua rede de contatos para facilitar o acesso do grupo a integrantes da corporação. Em 2023, após receber a foto de um oficial da PM, o coronel da reserva afirmou que o conhecia e se ofereceu para intermediar o contato.
Os investigadores apontam que parte dos recursos usados para pagar as propinas tinha origem em um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo comerciantes da região do Brás, no centro de São Paulo. Os valores provinham de tráfico de drogas, operações com criptomoedas e golpes, sendo transferidos digitalmente e depois sacados em espécie.
Vazamento de informações e suspeitas sobre ex-comandante
A apuração também aponta que a relação não se restringia a favorecimentos e propinas, mas incluía o vazamento de informações estratégicas sobre operações da corporação. A denúncia formalizada pelo promotor Lincoln Gakiya indica que policiais da tropa de elite teriam alertado a facção sobre missões programadas, facilitando a fuga de lideranças do PCC.
O ex-comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel José Augusto Coutinho, também é citado nas mensagens. A Polícia Federal levanta a hipótese de uma ligação entre ele e um doleiro foragido conhecido como “Amin”. Coutinho já era alvo de investigações da corregedoria da PM em casos que envolvem a suspeita de que policiais prestaram segurança a uma empresa de ônibus ligada ao PCC e o vazamento de informações que permitiu a fuga de uma liderança da facção.
Reação das defesas e da corporação
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que as corregedorias das polícias Militar e Civil já adotaram providências para apurar os fatos e que eventuais responsabilidades serão investigadas com rigor. O comando da PM reforçou o compromisso de combater o crime organizado e atuar em parceria com o Ministério Público.
Em nota, a defesa de Cleber Azevedo dos Santos negou que ele atuasse como operador financeiro do PCC e negou qualquer envolvimento dos policiais citados com suas empresas. A defesa do coronel José Augusto Coutinho afirmou que as referências ao oficial nas mensagens são “meramente incidentais e indiretas”, e que sua inocência será demonstrada. O advogado de Robson Martins de Souza não respondeu aos contatos da imprensa, e o coronel Luiz Carlos Pereira Martins não se manifestou.

