Agronegócio

Expocacau expõe crise de mão de obra e avanço tecnológico

Feira em Ilhéus reuniu cerca de 7 mil visitantes e colocou produtividade, preços, clima e doenças no centro dos debates

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A segunda edição da Expocacau terminou na quinta-feira, 27 de agosto de 2026, em Ilhéus, no sul da Bahia, com cerca de 7 mil visitantes de 11 países. Ao longo de três dias, produtores, empresas, estudantes e pesquisadores discutiram os principais gargalos da cacauicultura, entre eles a falta de mão de obra, a necessidade de mecanização e a adoção de novas tecnologias.

A feira teve pouco mais de 60 estandes e 75 empresas participantes. Os negócios gerados ainda serão contabilizados e divulgados pela CocoaAction Brasil, entidade organizadora. A programação também abordou a relação entre indústria e produtor, descontos aplicados no pagamento pelo cacau, efeitos do clima e do El Niño, prevenção e manejo de doenças.

Falta de trabalhadores pressiona produção

A crise de mão de obra foi um dos temas mais recorrentes nos painéis e nos corredores da exposição. A cacauicultura exige atividades contínuas, como poda, manejo de sombra, colheita, quebra dos frutos e controle de doenças. A falta de trabalhadores aumenta custos, reduz a regularidade das operações e dificulta a expansão das áreas cultivadas.

O problema também reforça a busca por máquinas e soluções capazes de reduzir a dependência de trabalho manual. A mecanização, entretanto, precisa ser adaptada às características do cultivo do cacau, que ocorre frequentemente em áreas de relevo irregular e em sistemas agroflorestais.

Para pequenos produtores, o acesso às tecnologias depende de crédito, assistência técnica e equipamentos compatíveis com a escala das propriedades. Sem esses instrumentos, a inovação tende a se concentrar em fazendas maiores e pode ampliar a diferença de produtividade dentro da cadeia.

Tecnologia é apresentada como resposta de longo prazo

Pedro Ronca, diretor da CocoaAction Brasil, afirmou que a feira pretende estimular um ciclo de investimentos em máquinas, implementos e insumos.

“A Expocacau está olhando para um horizonte de longo prazo, para estruturar cadeias de insumos, de máquinas, de implementos, fomentar a demanda por máquinas, implementos e insumos, para que se crie a intenção e um ciclo positivo de o produtor investir em tecnologia”, disse Ronca.

A estratégia inclui soluções para manejo, monitoramento das lavouras, prevenção de doenças e melhoria das etapas de pós-colheita. O objetivo é elevar a produtividade sem abandonar práticas de sustentabilidade e conservação ambiental.

Entre as tecnologias debatidas estão ferramentas digitais de apoio à decisão, equipamentos para atividades de campo e técnicas de manejo que permitem identificar problemas antes que eles provoquem perdas maiores. A utilidade dessas soluções depende da capacitação dos trabalhadores e da disponibilidade de assistência técnica no campo.

Cotações caíram, mas recuperação foi registrada

A realização da feira ocorreu em um cenário de forte oscilação dos preços do cacau. As cotações na Bolsa de Nova York caíram de forma acentuada no último ano, criando dúvidas sobre a capacidade de produtores manterem investimentos.

Ronca afirmou que o setor atravessou uma crise de preços no início de 2026, mas passou a observar níveis melhores ao longo do ano. Segundo ele, as cotações chegaram a patamares acima das médias históricas da última década.

A recuperação, contudo, não elimina a pressão sobre os produtores. O preço recebido na fazenda pode ser reduzido por descontos, qualidade das amêndoas, custos de transporte e condições de negociação com a indústria. Essas reclamações também apareceram nos debates da Expocacau.

Indústria e produtor discutem deságios

A relação comercial entre produtores e indústria foi outro ponto de tensão. Agricultores questionam descontos aplicados no pagamento das amêndoas e defendem maior transparência sobre os critérios usados para definir o valor final.

A discussão envolve qualidade, umidade, fermentação, classificação e custos de processamento. Para os produtores, a falta de clareza pode dificultar o planejamento financeiro e reduzir a capacidade de investir em lavouras, equipamentos e mão de obra.

A indústria, por sua vez, precisa garantir matéria-prima em volume e qualidade compatíveis com a produção de chocolate e derivados. O desafio é estabelecer mecanismos de remuneração que estimulem boas práticas sem transferir integralmente ao produtor os riscos de um mercado sujeito a ciclos de alta e baixa.

Clima e doenças ameaçam produtividade

As mudanças nas condições climáticas e os efeitos associados ao El Niño também foram discutidos durante o evento. Oscilações de chuva e temperatura podem afetar a floração, o desenvolvimento dos frutos e a incidência de doenças.

O manejo fitossanitário exige monitoramento constante e resposta rápida. Em períodos de maior umidade, a propagação de fungos pode aumentar, enquanto a irregularidade das chuvas interfere no calendário de trabalho e na disponibilidade de água.

A tecnologia, nesse cenário, é apresentada como instrumento de prevenção. Sistemas de monitoramento, registros de campo e orientação técnica podem auxiliar a identificar focos de doença e organizar a aplicação de medidas de controle. A adoção, no entanto, depende de conectividade, treinamento e custo acessível.

Setor tenta transformar crise em investimento

A participação de produtores na Expocacau, apesar do cenário de preços desfavorável, foi interpretada pelos organizadores como sinal de interesse em soluções de longo prazo. O público também incluiu profissionais da cadeia, estudantes, pesquisadores e acadêmicos.

A presença de empresas de insumos, máquinas e serviços tecnológicos indica que a cacauicultura está ampliando a discussão sobre produtividade e gestão. O desafio é converter a exposição de soluções em adoção efetiva nas propriedades, especialmente entre agricultores familiares.

A terceira edição da Expocacau está prevista para 2027. Até lá, o desempenho dos preços, a oferta de trabalhadores e a capacidade de acesso a máquinas e assistência técnica deverão definir quanto das propostas apresentadas em Ilhéus chegará ao campo.

Fonte:

CocoaAction Brasil — Programa de sustentabilidade da cadeia do cacau

IBGE — Produção de Cacau no Brasil

ExpoCacau — Informações sobre a feira

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Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

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