Eleições 2026

O DIVÃ DA ELEIÇÃO

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Renan Santos: o ativista, o provocador e a tentativa de transformar indignação em poder

Por Leo Oliveira — Psicanalista

Depois de analisarmos candidatos que representam a história, a herança política, o conhecimento, a autoridade, a gestão, a revolução, a representação e a luta, chegamos a uma figura que nasceu politicamente em outro lugar:

a indignação.

Renan Santos, 42 anos, é empresário, cofundador do Movimento Brasil Livre (MBL) e presidente nacional do Partido Missão, legenda criada a partir da experiência acumulada pelo movimento e aprovada pelo Tribunal Superior Eleitoral em 2025.

Foi uma das figuras ligadas à mobilização pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e passou anos atuando na política principalmente através da organização de movimentos, campanhas e comunicação política.

Agora, em 2026, faz uma mudança importante:

deixa de atuar apenas pressionando o poder e passa a pedir o próprio poder.

É candidato à Presidência da República pelo Missão, tendo Aroldo Medina como vice. O TSE validou oficialmente a chapa.

E talvez essa seja a grande questão desta análise:

O que acontece quando quem passou anos dizendo que o sistema precisa mudar decide entrar no sistema para mudá-lo por dentro?

Antes de continuar, uma ressalva importante.

Não estamos diagnosticando Renan Santos.

Não estamos tentando descobrir sua personalidade inconsciente.

Não estamos fazendo uma avaliação psicológica.

Estamos analisando sua persona pública, sua trajetória política, sua comunicação e a relação de identificação que sua figura estabelece com diferentes grupos de eleitores.


1. Quem é Renan Santos na construção da própria narrativa?

Renan não construiu sua identidade política a partir de uma carreira tradicional.

Não começou como vereador.

Não começou como deputado.

Não começou como governador.

Ele ganhou projeção através do ativismo político.

O movimento antes do partido.

Essa diferença é fundamental.

O MBL surgiu como um movimento de mobilização política e ganhou enorme visibilidade durante as manifestações que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff.

Renan esteve entre os articuladores desse processo e posteriormente participou da construção de uma estrutura partidária própria.

A trajetória, portanto, pode ser lida como uma transformação:

movimento → organização → partido → candidatura.

É quase uma passagem da rua para a instituição.

E isso produz uma narrativa muito poderosa:

“Nós não precisamos apenas protestar contra a política. Precisamos ocupar a política.”

O ativista se transforma em candidato.

O crítico se transforma em dirigente partidário.

O movimento se transforma em partido.

E o partido agora tenta chegar ao Palácio do Planalto.


2. A imagem do homem que não veio da política tradicional

Existe uma característica central na persona pública de Renan:

ele não quer parecer um político tradicional.

Sua identidade nasceu justamente da crítica à política tradicional.

O Partido Missão se apresenta como uma legenda sem Centrão e sem fisiologismo, construída para organizar uma direita que pretende atuar de forma independente.

A mensagem é clara:

“Nós não somos parte do problema que estamos tentando resolver.”

Isso produz identificação especialmente com um eleitor cansado de:

velha política;

troca de favores;

fisiologismo;

corrupção;

partidos tradicionais;

promessas que nunca se realizam.

A persona de Renan nasce, portanto, do contraste.

Ele precisa existir em oposição ao político tradicional.

Sua identidade depende, em parte, daquilo que ele diz não ser.

E isso é importante para entender sua comunicação.


3. O ativista versus o presidente

Aqui aparece uma das maiores tensões de sua candidatura.

O ativista tem uma função:

incomodar o poder.

O presidente tem outra:

exercer o poder.

O ativista pode dizer:

“Isso é absurdo.”

O presidente precisa responder:

“Como vamos resolver?”

O ativista pode pressionar.

O presidente precisa decidir.

O ativista pode denunciar.

O presidente precisa administrar as consequências da decisão.

Essa passagem é enorme.

Porque criticar o sistema permite uma liberdade que governar não permite.

Quando você está fora:

você pode exigir.

Quando está dentro:

você precisa entregar.

E talvez essa seja uma das perguntas centrais da candidatura de Renan:

Ele consegue transformar a capacidade de mobilização em capacidade de governo?


4. Como Renan utiliza identificação e pertencimento?

Aqui está uma das maiores forças de sua comunicação.

Renan não parece buscar identificação através de uma biografia de sofrimento.

Não é o trabalhador que diz:

“Eu sou um de vocês.”

Também não é o empresário que diz:

“Eu sei administrar.”

A identificação ocorre através de outra experiência:

a revolta.

O eleitor que sente:

“Isso não pode continuar assim.”

encontra espaço nessa narrativa.

O jovem que sente:

“A política tradicional não me representa.”

pode se reconhecer.

O empreendedor que pensa:

“O Estado atrapalha mais do que ajuda.”

também encontra identificação.

O cidadão que acredita:

“Precisamos de mais liberdade e menos burocracia.”

encontra outra porta de entrada.

O Missão organiza sua plataforma em torno de liberdade econômica, Estado enxuto, segurança pública e reforma política.

Portanto, o pertencimento não é construído apenas pela classe social.

É construído por uma atitude diante do Estado:

“Eu não quero que o Estado controle minha vida mais do que precisa.”


5. O papel da liberdade

Se Zema tem como palavra central a eficiência, Renan acrescenta outra:

liberdade.

Liberdade econômica.

Empreendedorismo.

Menos burocracia.

Estado mais enxuto.

Responsabilidade fiscal.

Esses elementos aparecem no programa do Partido Missão e nas propostas apresentadas pela candidatura.

Mas existe uma diferença interessante.

Renan não apresenta apenas uma proposta econômica.

A liberdade aparece também como valor cultural e político.

É uma espécie de promessa:

“Você deveria ter mais controle sobre a própria vida.”

E isso é extremamente poderoso.

Porque a sensação de autonomia é uma das necessidades humanas mais fortes.

Quando alguém sente que o Estado, a burocracia, os políticos ou as instituições controlam excessivamente sua vida, surge ressentimento.

A política pode então transformar esse ressentimento em projeto.


6. Segurança: quando a indignação encontra o medo

Existe outro eixo fundamental na candidatura de Renan:

segurança pública.

O programa do Missão propõe uma política de enfrentamento extremamente duro ao crime organizado, incluindo a retomada territorial de áreas dominadas por facções e uma declaração de guerra ao crime organizado no início do governo.

Aqui aparece uma dimensão emocional muito poderosa:

o medo.

O eleitor que sente medo da violência não está discutindo apenas estatísticas.

Está pensando:

“Minha família está segura?”

“Meu filho vai voltar para casa?”

“Posso andar na rua?”

“O Estado consegue me proteger?”

Quando a política consegue responder a esse medo com uma promessa de ação, ela produz identificação.

É justamente aí que a figura de Renan se fortalece.

Ele não apresenta a segurança como uma questão secundária.

Apresenta como uma das grandes funções do Estado.

E isso cria uma narrativa:

“O Estado precisa voltar a exercer autoridade.”


7. O papel da provocação

Talvez esse seja um dos elementos mais marcantes de Renan.

Sua trajetória no MBL foi construída dentro de uma cultura política muito ligada à internet, às redes sociais, à provocação e ao enfrentamento de adversários.

Isso criou uma forma de comunicação diferente daquela utilizada por políticos tradicionais.

Menos:

cerimônia.

Mais:

confronto.

Menos:

linguagem institucional.

Mais:

linguagem de rede social.

Essa estratégia possui uma enorme vantagem:

chama atenção.

Mas também possui um risco:

a política pode se transformar em espetáculo permanente.

Quando a provocação vira identidade, surge uma pergunta:

Como manter a capacidade de governar quando o conflito deixa de ser ferramenta e passa a ser a própria linguagem?

Porque existe uma diferença entre:

provocar para chamar atenção

e

negociar para conseguir aprovar uma política.

O presidente precisa fazer os dois.


8. O que seus apoiadores projetam nele?

Para seus apoiadores, Renan pode representar:

renovação;

liberdade;

coragem;

pragmatismo;

combate à velha política;

empreendedorismo;

segurança;

direita moderna;

independência diante do establishment.

Existe uma projeção muito específica:

o político que não tem medo de dizer aquilo que outros não dizem.

Isso pode produzir sensação de autenticidade.

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O eleitor não necessariamente pensa:

“Ele é perfeito.”

Pode pensar:

“Pelo menos ele fala.”

E isso importa.

Em um cenário de desconfiança política, a percepção de autenticidade pode ser mais importante do que a concordância absoluta.


9. E o que seus críticos projetam nele?

Novamente, a mesma característica produz uma interpretação oposta.

A provocação pode ser vista como:

agressividade.

A ruptura pode ser:

radicalismo.

O discurso contra a velha política pode parecer:

populismo antipolítico.

A defesa de um Estado enxuto pode ser interpretada como:

desmonte de políticas públicas.

A política de segurança pode ser vista como:

punitivismo.

E a experiência no MBL pode ser apresentada pelos críticos como evidência de uma política excessivamente orientada para redes sociais e mobilização digital.

Aqui encontramos novamente o mecanismo que aparece em toda a série:

a mesma característica pode produzir amor e rejeição.

Para um:

“Ele é corajoso.”

Para outro:

“Ele é irresponsável.”

Para um:

“Ele enfrenta o sistema.”

Para outro:

“Ele vive de criar conflito.”

A diferença não está apenas no candidato.

Está também no olhar de quem o observa.


10. A força — e os limites — da figura de Renan Santos

Renan possui algo que poucos candidatos conseguem construir:

uma máquina de mobilização política que nasceu antes da candidatura.

O MBL deu a ele experiência em comunicação, mobilização, organização e disputa de narrativa.

O Partido Missão representa o passo seguinte:

transformar influência em estrutura institucional.

O próprio partido afirma ter sido criado justamente depois de anos de mobilização política para organizar uma direita programática independente.

Mas aqui aparece um desafio.

Influência não é necessariamente governabilidade.

Ter capacidade de mobilizar pessoas nas redes sociais não significa automaticamente conseguir:

formar maioria no Congresso;

negociar com governadores;

aprovar reformas;

administrar uma máquina pública gigantesca;

lidar com crises internacionais;

tomar decisões impopulares.

Essa é a grande prova de fogo.

O candidato que nasceu do ativismo precisa demonstrar que consegue fazer algo muito diferente:

transformar energia política em Estado.


11. O Renan da liberdade versus o Renan da autoridade

Talvez exista aqui uma das contradições mais interessantes de sua candidatura.

De um lado:

liberdade.

De outro:

autoridade.

Liberdade econômica.

Mas Estado forte contra o crime.

Menos interferência estatal na vida do cidadão.

Mas maior capacidade repressiva contra organizações criminosas.

Menos burocracia.

Mas maior cobrança de resultados.

Essa combinação não é necessariamente contraditória.

Pode ser entendida como uma visão de Estado:

pequeno onde não deveria controlar e forte onde deveria proteger.

O programa do Missão tenta justamente organizar essa ideia através de propostas de reforma do Estado, segurança, economia e gestão pública.

Mas existe uma pergunta inevitável:

Quem decide onde termina a liberdade e começa a necessidade de controle?

Essa fronteira é uma das grandes disputas políticas do nosso tempo.


12. A política externa também revela essa persona

Na política internacional, Renan apresenta uma postura que tenta evitar alinhamentos automáticos.

Em levantamento da Folha, ele aparece defendendo uma postura pragmática diante de Estados Unidos e China e uma participação pragmática no Brics, evitando alinhamentos puramente ideológicos.

Isso combina com a persona construída internamente:

menos ideologia, mais pragmatismo.

Não seria:

“Somos aliados porque pertencemos ao mesmo campo ideológico.”

Mas:

“Somos parceiros quando isso interessa ao Brasil.”

Essa é uma extensão interessante de sua narrativa.

A mesma lógica que ele aplica à economia aparece na política externa:

resultado primeiro.


13. O que as pesquisas mostram?

Renan já não é apenas um nome de nicho.

Nas pesquisas divulgadas em setembro, aparece numericamente à frente de vários candidatos.

Na Quaest de 14 de setembro, registrou 4% no primeiro turno, empatado com Ronaldo Caiado. Na BTG/Nexus divulgada no mesmo período, apareceu com 2%.

É pouco diante dos dois líderes da disputa.

Mas é suficiente para mostrar que existe um espaço eleitoral real para sua candidatura.

Na pesquisa Quaest, por exemplo, Lula aparece com 36%, Flávio Bolsonaro com 31%, Augusto Cury com 7%, enquanto Renan e Caiado aparecem com 4%.

Isso produz uma situação interessante.

Renan não está apenas disputando um espaço ideológico.

Está disputando também:

o eleitor de direita que não quer necessariamente votar no bolsonarismo.

Esse pode ser um dos maiores potenciais de sua candidatura.


14. Afinal, por que Renan Santos desperta identificação e rejeição?

Talvez porque Renan represente uma coisa extremamente contemporânea:

a transformação da indignação digital em projeto político.

Ele vem de uma geração em que política e internet se misturaram.

Uma geração que aprendeu que:

uma postagem pode mobilizar milhares.

um vídeo pode destruir uma narrativa.

uma hashtag pode criar pressão.

uma manifestação pode mudar o debate.

Mas existe uma diferença enorme entre:

viralizar uma ideia

e

governar um país.

Essa talvez seja a pergunta central da candidatura de Renan.

Ele já demonstrou capacidade de mobilizar.

Agora precisa demonstrar capacidade de governar.


O DIVÃ NÃO É DO CANDIDATO. É NOSSO.

Lula representa a força da história.

Flávio Bolsonaro, a herança política.

Augusto Cury, a autoridade do conhecimento.

Caiado, a autoridade e a ordem.

Zema, a eficiência.

Rui Costa Pimenta, a revolução.

Samara Martins, o pertencimento e a representação.

Hertz Dias, a luta.

Edmilson Costa, o poder popular.

E Renan Santos apresenta:

a ruptura pela direita.

Mas talvez exista algo ainda mais profundo.

Renan não começou pedindo para governar.

Começou ajudando a dizer:

“Nós não aceitamos mais isso.”

Essa frase é poderosa.

Porque toda transformação política começa, de alguma maneira, com uma insatisfação.

Mas existe uma diferença entre:

não aceitar

e

saber o que colocar no lugar.

É aí que começa a responsabilidade do candidato.

Porque indignação mobiliza.

Mas governo precisa construir.

Revolta mobiliza.

Mas governo precisa decidir.

Provocação mobiliza.

Mas governo precisa negociar.

E talvez seja justamente esse o grande teste de Renan Santos.

Conseguir transformar o espírito de protesto em capacidade de governo.

No final, a pergunta volta para o eleitor:

O que você está procurando naquele candidato?

No caso de Renan, talvez seja:

liberdade.

segurança.

renovação.

menos Estado.

combate à velha política.

pragmatismo.

Mas talvez exista uma pergunta ainda mais profunda:

“Você quer alguém para administrar o sistema ou alguém que tenha coragem de enfrentá-lo?”

Porque Renan construiu sua carreira política justamente enfrentando aquilo que considerava o sistema.

Agora ele pede algo diferente.

A oportunidade de comandá-lo.

E talvez essa seja a grande passagem da sua candidatura:

do ativista ao governante.

da rua ao Estado.

da crítica ao poder.

E é justamente nessa passagem que veremos se a indignação consegue se transformar em projeto.

Porque protestar contra o poder é uma coisa.

Assumir a responsabilidade por ele é outra.

O divã não é do candidato.

É nosso.


Fontes consultadas

  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — registro e validação da chapa Renan Santos/Aroldo Medina e informações sobre o Partido Missão.
  • Agência Brasil — trajetória de Renan Santos, MBL e criação do Partido Missão.
  • Partido Missão — princípios, posicionamento político e estrutura programática da legenda.
  • Site oficial da candidatura de Renan Santos — propostas para economia, segurança, trabalho, educação, desenvolvimento e reforma do Estado.
  • CNN Brasil — candidatura, composição da chapa e estrutura do “Livro Amarelo”, programa de governo do Missão.
  • Folha de S.Paulo — posições de Renan Santos sobre política externa, Brics, Estados Unidos e China.
  • Quaest / setembro de 2026 — cenário eleitoral e desempenho de Renan Santos.
  • BTG/Nexus / setembro de 2026 — cenário eleitoral e desempenho de Renan Santos.

Observação editorial: esta análise não constitui avaliação psicológica, psicanalítica ou diagnóstico de Renan Santos. O objeto é sua persona pública, sua narrativa política e a relação de identificação que estabelece com diferentes grupos de eleitores.

O divã não é do candidato. É nosso.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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