Eleições 2026

O DIVÃ DA ELEIÇÃO

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Romeu Zema: o empresário, o gestor e a promessa de administrar o Brasil

Por Leo Oliveira — Psicanalista

Depois de Lula, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury e Ronaldo Caiado, chegamos a um candidato que construiu sua imagem política a partir de uma identidade bastante específica:

a do empresário que entrou na política para administrar.

Romeu Zema nasceu em Araxá, Minas Gerais, formou-se em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas e construiu sua carreira profissional no setor privado, ligado ao grupo empresarial de sua família. Antes da política, acumulou experiência em diferentes funções dentro dos negócios da família e, posteriormente, assumiu o controle das Lojas Zema.

Em 2018, entrou na política e foi eleito governador de Minas Gerais.

Em 2022, foi reeleito no primeiro turno, com 56,18% dos votos válidos.

Em março de 2026, deixou o governo mineiro para disputar a Presidência da República.

O TSE deferiu o registro da chapa de Zema pelo Novo, tendo Eduardo Girão como candidato a vice.

Mas talvez a palavra que melhor organize sua persona política seja:

Gestão.

Gestão do dinheiro.

Gestão do Estado.

Gestão das contas.

Gestão dos recursos.

Gestão da máquina pública.

E existe uma pergunta interessante por trás dessa imagem:

O que acontece quando alguém acostumado a administrar uma empresa passa a pedir ao eleitor que confie a ele a administração de um país?

Essa é a questão central desta análise.

Não estamos fazendo uma avaliação psicológica de Romeu Zema.

Não estamos tentando descobrir sua personalidade inconsciente.

Não estamos diagnosticando ninguém.

Estamos analisando sua persona pública, sua trajetória, seus discursos e a relação simbólica que ele estabelece com seus eleitores.


1. Quem é Zema na construção da própria narrativa?

Zema não começou sua história política dizendo:

“Eu sou político.”

Sua narrativa é quase o contrário.

Ele construiu sua imagem justamente como alguém que não dependia da política para sobreviver.

Antes de ocupar cargos públicos, já possuía uma carreira empresarial.

Isso é importante.

Porque permite construir uma identidade política baseada no chamado outsider.

O homem que vem de fora.

O empresário que olha para Brasília e pensa:

“Se uma empresa precisa controlar gastos, estabelecer metas e cobrar resultados, por que o Estado não deveria fazer o mesmo?”

Essa comparação é poderosa.

Ela simplifica uma realidade extremamente complexa.

Empresa.

Estado.

Receita.

Despesa.

Resultado.

Eficiência.

A narrativa fica fácil de compreender.

Mas existe uma diferença fundamental:

uma empresa possui clientes, enquanto um Estado possui cidadãos.

E cidadãos não podem ser tratados simplesmente como consumidores.


2. A imagem do homem que venceu no mundo real

Existe outro elemento importante na construção de Zema:

a trajetória profissional.

Sua biografia oficial destaca que ele começou a trabalhar ainda muito jovem, passando por funções como cobrador, frentista, balconista, estoquista, caixa, comprador, vendedor e gerente antes de chegar a posições de comando empresarial.

Essa narrativa produz uma imagem muito específica:

o homem que conhece o trabalho.

Não apenas o empresário.

Mas alguém que teria experimentado diferentes posições dentro da estrutura profissional.

É uma narrativa de ascensão.

E narrativas de ascensão possuem enorme força simbólica.

Porque permitem ao eleitor pensar:

“Ele chegou lá porque trabalhou.”

Isso cria identificação principalmente com pessoas que valorizam esforço, empreendedorismo e autonomia.

O candidato deixa de ser apenas um administrador.

Ele passa a representar uma fantasia social bastante conhecida:

a de alguém que começou por baixo e conseguiu vencer.


3. O Zema empresário versus o Zema político

Aqui aparece uma das principais tensões de sua candidatura.

Zema construiu boa parte de sua identidade justamente criticando a maneira tradicional de fazer política.

Mas, para governar o Brasil, ele precisa fazer política.

E política não funciona exatamente como uma empresa.

Uma empresa pode substituir um gerente.

Um governo precisa negociar com Congresso, governadores, Judiciário, partidos, servidores, sindicatos, empresários, movimentos sociais e milhões de cidadãos que não concordam entre si.

Ou seja:

governar exige administrar conflitos que não podem simplesmente ser demitidos.

Esse talvez seja um dos maiores desafios simbólicos de Zema.

Sua força está na imagem do gestor.

Mas a Presidência exige também a figura do articulador.

O empresário pode decidir.

O presidente precisa negociar.

E aqui existe uma pergunta importante:

Até onde a lógica empresarial funciona quando aplicada à política?


4. Como ele utiliza identificação e pertencimento?

Zema fala especialmente com um eleitor que valoriza:

trabalho;

empreendedorismo;

liberdade econômica;

menos burocracia;

responsabilidade fiscal;

iniciativa privada.

Sua identificação não depende necessariamente de uma região ou de uma profissão.

Ela pode acontecer através de valores.

O eleitor pode não ser empresário.

Pode nunca ter administrado uma empresa.

Mas pode pensar:

“Eu também quero viver em um país onde quem trabalha tenha mais liberdade.”

Essa identificação é importante.

Porque o candidato deixa de representar somente empresários.

Ele passa a representar uma determinada maneira de enxergar a sociedade.

Uma sociedade na qual:

quem produz deve ter espaço.

quem trabalha deve ser recompensado.

o Estado não deveria atrapalhar.

o dinheiro público precisa ser tratado com rigor.

É uma narrativa com forte apelo para quem sente que o Estado cobra demais e entrega pouco.


5. O papel da gestão e da eficiência

Se Caiado ocupa simbolicamente o lugar da ordem, Zema ocupa um lugar diferente:

a eficiência.

Sua campanha nacional tem defendido austeridade fiscal, privatizações, reforma administrativa e mudanças nas regras trabalhistas. Em agenda de campanha divulgada pela Agência Brasil, Zema também defendeu maior liberdade para o trabalhador escolher sua escala de trabalho.

A mensagem simbólica é relativamente simples:

“O problema não é falta de dinheiro. É falta de gestão.”

Essa ideia possui enorme força.

Porque oferece ao eleitor uma explicação aparentemente objetiva para problemas complexos.

Se o Estado está endividado:

corte gastos.

Se existe burocracia:

reduza a burocracia.

Se uma empresa estatal é considerada ineficiente:

privatize.

Se o serviço público não funciona:

cobre resultado.

Mas existe uma questão que a psicanálise pode ajudar a formular:

por que soluções simples para problemas complexos são tão sedutoras?

Porque elas diminuem a angústia.

Diante de um problema difícil, uma resposta objetiva produz sensação de controle.

E controle produz alívio.


6. Como Zema reage ao conflito e à oposição?

A imagem de gestor também interfere na maneira como o candidato enfrenta conflitos.

O discurso empresarial tende a valorizar:

objetividade.

resultado.

metas.

decisão.

responsabilidade.

Mas a política é um território no qual nem sempre existe uma resposta objetiva.

Duas pessoas podem defender interesses legítimos e completamente diferentes.

O produtor quer uma coisa.

O trabalhador quer outra.

O empresário quer outra.

O servidor quer outra.

O consumidor quer outra.

O Estado precisa administrar essas diferenças.

Por isso, o desafio de Zema não está apenas em demonstrar que sabe administrar.

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Está em demonstrar que sabe negociar sem abandonar seus princípios.

Porque governar não é apenas decidir.

É convencer.

É construir maioria.

É aceitar limites.

É lidar com frustração.

E, principalmente:

é governar pessoas que não pensam como você.


7. O que seus apoiadores projetam nele?

Para seus apoiadores, Zema pode representar:

competência;

trabalho;

empreendedorismo;

austeridade;

liberdade econômica;

renovação política;

gestão profissional.

Existe também uma projeção muito interessante:

o administrador que finalmente vai tratar o Brasil como uma organização que precisa voltar a funcionar.

Isso produz sensação de pragmatismo.

Não é necessariamente:

“Ele vai mudar o mundo.”

Pode ser simplesmente:

“Ele vai colocar a casa em ordem.”

E essa imagem tem enorme força.

Principalmente para o eleitor cansado de discursos ideológicos.

O gestor aparece como alguém que supostamente estaria menos preocupado em discutir quem está certo e mais preocupado em descobrir o que funciona.


8. E o que seus críticos projetam nele?

A mesma característica pode produzir uma leitura completamente diferente.

Para seus críticos, o empresário pode se transformar em:

alguém que enxerga o Estado como empresa.

O gestor pode ser visto como:

tecnocrata.

A austeridade pode ser interpretada como:

redução de políticas sociais.

A privatização pode ser percebida como:

entrega do patrimônio público ao setor privado.

A defesa da liberdade econômica pode ser entendida como:

prioridade aos interesses empresariais.

Perceba novamente:

A característica não mudou.

O olhar mudou.

É exatamente aí que a identificação política se torna interessante.

O que para um eleitor é:

“competência”

para outro pode ser:

“frieza.”

O que para um é:

“responsabilidade fiscal”

para outro pode ser:

“falta de sensibilidade social.”


9. A força — e os limites — da figura de Zema

Zema possui algo que nenhum candidato pode fabricar facilmente:

uma experiência concreta de gestão pública.

Ele foi governador de Minas Gerais por dois mandatos e foi reeleito com votação expressiva no primeiro turno em 2022.

Isso permite que sua candidatura seja construída não apenas sobre promessas.

Existe uma experiência anterior para ser julgada.

Mas existe também um limite.

Administrar Minas Gerais não é administrar o Brasil.

A Presidência envolve política externa, defesa, relações federativas, Banco Central, Congresso Nacional, sistema tributário, políticas nacionais de saúde e educação, infraestrutura e uma infinidade de interesses que ultrapassam a lógica de uma administração estadual.

O próprio TSE define o presidente como chefe de Estado e chefe de Governo, responsável pela administração federal e pela coordenação das políticas nacionais.

Portanto, a pergunta para Zema não é apenas:

“Você sabe administrar?”

É:

“Você consegue transformar sua experiência de gestor em capacidade de governar um país inteiro?”

E existe ainda outro desafio.

Nas pesquisas de setembro, Zema aparece com apenas 1% das intenções de voto tanto na Quaest quanto na BTG/Nexus. Na Quaest, divulgada em 14 de setembro, Lula tinha 36%, Flávio Bolsonaro 31%, Cury 7%, Renan Santos e Caiado 4% cada, e Zema 1%.

Isso mostra que possuir uma identidade política clara não significa necessariamente possuir alcance eleitoral nacional.


10. Afinal, por que Zema desperta identificação e rejeição?

Talvez porque ele represente uma fantasia política bastante contemporânea:

a de transformar a política em gestão.

Menos discurso.

Mais resultado.

Menos burocracia.

Mais eficiência.

Menos Estado.

Mais liberdade.

É uma proposta sedutora.

Principalmente quando o eleitor está cansado da sensação de que o Estado custa muito e entrega pouco.

Mas existe uma questão que não pode ser ignorada:

uma sociedade não é uma empresa.

Uma empresa pode escolher seu mercado.

O Estado não pode escolher seus cidadãos.

Uma empresa pode encerrar uma atividade que não dá lucro.

O Estado precisa atender também aquilo que não dá lucro.

Uma empresa pode demitir.

Um governo precisa construir políticas públicas.

E talvez seja justamente aí que esteja a grande questão simbólica da candidatura de Zema.

Ele consegue representar muito bem:

o homem que sabe administrar.

Mas será que consegue representar também:

o homem que sabe cuidar do que não pode ser medido apenas por números?

Porque nem tudo que importa em uma sociedade aparece em uma planilha.


O DIVÃ NÃO É DO CANDIDATO. É NOSSO.

Lula nos apresenta a força da história.

Flávio Bolsonaro, a força da herança política.

Augusto Cury, a autoridade do conhecimento.

Caiado, a autoridade e a ordem.

Zema apresenta outra promessa:

a eficiência.

E talvez seja por isso que sua candidatura encontre identificação em um determinado tipo de eleitor.

Aquele que olha para Brasília e pensa:

“Eu não quero mais um político. Quero alguém que faça funcionar.”

Mas existe uma pergunta escondida nessa frase.

Quando você escolhe um gestor para governar o país, o que exatamente você espera que ele administre?

O dinheiro?

A máquina pública?

A economia?

Ou a própria sociedade?

Porque administrar números é uma coisa.

Administrar pessoas é outra.

E talvez a grande questão da candidatura de Zema seja justamente essa:

Você está procurando um presidente ou um gestor?

Talvez a resposta seja:

os dois.

Mas, se for assim, precisamos lembrar de uma coisa.

Um bom gestor pode saber cortar custos.

Um presidente precisa saber quais custos não podem ser cortados.

Um gestor pode buscar eficiência.

Um presidente precisa decidir eficiência para quem.

Um gestor pode estabelecer metas.

Um presidente precisa perguntar quem ficará para trás enquanto elas são cumpridas.

No final, como sempre, a pergunta volta para o eleitor:

O que você está procurando naquele candidato?

No caso de Zema, talvez seja:

eficiência.

liberdade.

trabalho.

menos Estado.

mais resultado.

Mas talvez exista uma pergunta ainda mais profunda:

“Você quer alguém para administrar o país ou alguém para representar aquilo que você acredita que o país deveria ser?”

Porque, no fundo, a escolha eleitoral nunca é apenas sobre o candidato.

É também sobre aquilo que projetamos nele.

E talvez seja justamente aí que comece a nossa própria análise.

O divã não é do candidato.

É nosso.


Fontes consultadas

  • Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — registro das candidaturas à Presidência da República em 2026.
  • Governo de Minas Gerais — biografia, trajetória profissional e experiência de Romeu Zema no governo estadual.
  • Agência Brasil — trajetória política, candidatura presidencial e propostas apresentadas por Zema em 2026.
  • TSE — Eleições 2026 — atribuições constitucionais da Presidência da República.
  • Quaest, setembro de 2026 — cenário eleitoral de primeiro e segundo turnos.
  • BTG/Nexus, setembro de 2026 — cenário eleitoral e metodologia da pesquisa.

Observação editorial: esta análise não constitui avaliação psicológica, psicanalítica ou diagnóstico de Romeu Zema. O objeto é sua persona pública, sua narrativa política e a relação de identificação que estabelece com diferentes grupos de eleitores.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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