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Quando o amor pelo outro pode esconder uma pergunta sobre si mesma.
Por Leo Oliveira – Psicanalista
Ela sabe que sofre, sabe que aquele homem não oferece o que ela espera, sabe que as promessas quase nunca se transformam em atitudes, sabe que já perdoou mais vezes do que gostaria de admitir e ainda assim permanece.
Quando ele se afasta, ela sofre, quando ele volta, ela respira, quando ele muda por alguns dias, ela acredita, quando tudo volta a acontecer, ela se culpa.
E talvez a pergunta mais interessante não seja:
“Por que ela aceita isso ?”
Mas:
“O que está em jogo, inconscientemente, que mantém ela na relação ?”
É nesse ponto que a psicanálise pode deslocar completamente a maneira como pensamos o amor.
Amar não é apenas escolher.
Costumamos imaginar que escolhemos quem amamos de maneira consciente, observamos características, comparamos, decidimos.
Mas Freud mostrou que a escolha amorosa não se reduz à consciência.
O objeto de amor pode carregar marcas de relações anteriores, fantasias, identificações e investimentos libidinais que o sujeito nem sempre reconhece.
Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud já relacionava a escolha posterior de objeto às experiências e aos objetos amorosos da infância, mostrando que a vida amorosa adulta não começa do zero. Há uma história anterior que participa dessa escolha, isso significa que, algumas vezes, aquilo que chamamos de “meu tipo” pode esconder algo mais profundo.
Por que justamente esse homem?
Por que esse tipo de relação?
Por que alguém emocionalmente indisponível?
Por que alguém que precisa ser salvo?
Por que alguém que precisa ser conquistado?
O que esse outro representa para o desejo daquele que o escolhe?
Talvez ela não esteja apaixonada apenas pelo homem.
Existe uma diferença entre o homem real e o homem que existe na fantasia e a fantasia pode ser muito poderosa, ele é distante, mas ela imagina que, se conseguir chegar perto o suficiente, ele finalmente vai se entregar.
Ele é instável, mas ela acredita que, quando ele perceber o quanto ela o ama, irá mudar, ele não demonstra afeto, mas ela transforma pequenos gestos em grandes provas de amor, ela não se relaciona apenas com aquilo que ele é.
Relaciona-se também com aquilo que imagina que ele poderá ser.
A psicanálise nos ensina a desconfiar dessa distância entre realidade e fantasia, porque, às vezes, o sofrimento não está apenas naquilo que o outro faz, está também naquilo que o sujeito precisa acreditar sobre o outro para sustentar seu próprio desejo.
“Se ele me escolher, eu finalmente serei suficiente”
Aqui aparece uma questão profundamente psicanalítica, o amor pode envolver uma busca por reconhecimento.
Freud, ao discutir o narcisismo, mostrou que o investimento amoroso não é separado da relação do sujeito com seu próprio ideal. Na paixão, o objeto pode ser idealizado e receber características que ultrapassam aquilo que efetivamente está presente nele.
É possível, então, que uma mulher não esteja apenas querendo aquele homem, ela esteja querendo ser escolhida por aquele homem.
E isso não é a mesma coisa.
Porque, nesse caso, a pergunta inconsciente pode ser menos:
“Eu amo esse homem?”
e mais:
“O que significará para mim se esse homem me amar?”
Se ele me escolher, talvez eu seja importante.
Se ele voltar, talvez eu seja suficiente.
Se ele abandonar as outras por mim, talvez eu finalmente tenha valor.
O relacionamento passa a carregar uma tarefa que nenhum relacionamento consegue cumprir:
confirmar o valor do sujeito.
O amor e o narcisismo
Freud mostrou que o amor também pode assumir uma dimensão narcísica, não no sentido popular de “ser egoísta”.
Narcisismo, em psicanálise, diz respeito a uma relação do sujeito com o próprio eu e com seu investimento libidinal.
Por isso, algumas escolhas amorosas podem envolver não apenas aquilo que encontramos no outro, mas aquilo que esperamos encontrar de nós mesmos através do outro.
A mulher pode procurar naquele homem uma confirmação.
“Sou desejável.”
“Sou especial.”
“Sou diferente das outras.”
“Fui capaz de fazer esse homem amar.”
E quanto mais difícil é conquistar esse reconhecimento, mais valiosa a conquista pode parecer, é aí que o amor pode começar a se confundir com uma espécie de prova.
Por que ela insiste quando já sabe que dói?
Aqui chegamos a uma das contribuições mais importantes de Freud para pensar os vínculos:
a repetição.
Em Além do princípio do prazer (1920), Freud observa que o sujeito pode repetir experiências mesmo quando elas não produzem prazer e até quando provocam sofrimento. Ele chama atenção para a chamada compulsão à repetição.
Isso abre uma pergunta incômoda:
Por que algumas histórias parecem mudar de personagem, mas não de roteiro?
O homem muda.
O relacionamento muda.
A idade muda.
Mas alguma coisa permanece.
A mulher continua esperando.
Continua tentando conquistar.
Continua cuidando.
Continua justificando.
Continua acreditando que, dessa vez, será diferente.
Não devemos concluir automaticamente que toda relação difícil seja uma repetição infantil.
A psicanálise não funciona como uma tabela de correspondências:
“Homem distante = pai distante.”
Seria simplificar demais o inconsciente.
A questão é outra:
o que se repete na posição que esse sujeito ocupa dentro das próprias relações?
Quando amar vira tentar conquistar o impossível.
Talvez algumas relações sejam sustentadas justamente porque o outro nunca é completamente alcançado.
Ele nunca entrega tudo, nunca confirma completamente, nunca está inteiramente disponível.
E, por isso mesmo, mantém o desejo em movimento.
Isso nos leva a uma questão fundamental da psicanálise:
o desejo não é simplesmente a busca por um objeto que, uma vez encontrado, encerra toda falta.
O sujeito deseja, procura, encontra, perde, substitui, reinveste.
A satisfação nunca transforma a vida psíquica em um estado permanente de completude.
Por isso, às vezes, aquilo que parece ser “amor demais” pode esconder uma relação intensa com a própria falta.
Ela não quer apenas o homem.
Ela quer aquilo que imagina que obterá quando finalmente conseguir esse homem.
“Eu consigo mudar ele”
Talvez essa seja uma das fantasias mais poderosas em determinadas relações.
“Comigo será diferente.”
“Ele nunca amou ninguém como me ama.”
“Eu sei que ele tem problemas, mas eu consigo ajudá-lo.”
“Ele só precisa de alguém que o compreenda.”
Pode existir cuidado verdadeiro nisso, mas também pode existir uma fantasia de onipotência:
“Eu serei aquela que conseguirá aquilo que ninguém conseguiu.”
Nesse momento, o parceiro deixa de ser simplesmente um objeto de amor e transforma-se em uma espécie de projeto, ela não está apenas vivendo uma relação está tentando produzir um resultado.
E quanto mais impossível parece a tarefa, mais energia pode ser investida nela.
Quando cuidar do outro é uma maneira de não olhar para si.
Existe ainda uma pergunta delicada:
o que acontece quando toda a atenção está voltada para o outro?
Ela sabe o que ele sente.
Sabe quando ele está irritado.
Sabe quando ele vai embora.
Sabe quando ele volta.
Sabe o que ele precisa.
Sabe o que ele gosta.
Sabe como acalmá-lo.
Sabe como evitar uma briga.
Mas talvez não saiba responder:
“O que eu quero?”
Essa pergunta é central para a psicanálise.
Porque existe uma diferença entre desejar e viver orientado exclusivamente pelo desejo do outro as vezes, o sujeito passa tanto tempo tentando ser aquilo que o outro deseja que perde o contato com o próprio desejo.
E então surge uma pergunta que pode ser muito mais difícil do que parece:
“Se eu não precisar mais ser necessária para alguém, quem eu sou?”
Amor não é fusão.
Uma das fantasias mais comuns do amor romântico é a ideia de completude:
“Ele é minha metade.”
“Sem ele não sou ninguém.”
“Somos um só.”
A psicanálise é menos romântica, ela nos lembra que existe sempre uma distância entre os sujeitos o outro não pode completar definitivamente aquilo que falta.
E talvez uma relação possa se tornar mais saudável justamente quando duas pessoas conseguem estar juntas sem precisar deixar de ser duas.
Amar não significa dissolver-se no outro.
Não significa abandonar o próprio desejo.
Não significa assumir a tarefa de preencher todas as faltas do parceiro.
E também não significa exigir que o parceiro preencha as nossas.
Talvez “amar demais” seja outra coisa.
Talvez o problema não seja a quantidade de amor.
Pode existir muito amor em uma relação e, ainda assim, existir sofrimento.
A questão talvez esteja na posição ocupada pelo sujeito dentro desse amor.
Quando amar significa salvar.
Quando amar significa suportar tudo.
Quando amar significa ser indispensável.
Quando amar significa ser escolhida a qualquer preço.
Quando amar significa provar o próprio valor.
Quando amar significa abandonar o próprio desejo.
Nesse momento, talvez não seja o amor que esteja em excesso.
Talvez seja a função que esse amor passou a exercer.
E se a pergunta for outra?
Talvez seja fácil perguntar:
“Por que ele não me ama como eu mereço?”
Mas a psicanálise pode fazer uma pergunta anterior:
“Por que preciso tanto que ele me ame dessa maneira?”
Não para culpabilizar.
Não para dizer que a mulher escolheu sofrer.
E muito menos para justificar o comportamento daquele que a machuca.
Mas para investigar o sujeito.
Seu desejo.
Sua fantasia.
Sua história.
Suas repetições.
Aquilo que conscientemente diz querer.
E aquilo que, sem saber, continua procurando.
Porque o inconsciente não é simplesmente aquilo que escondemos de nós mesmos.
É também aquilo que, muitas vezes, se revela justamente naquilo que repetimos.
Talvez ela não precise aprender a amar menos
Talvez precise descobrir o que está tentando encontrar através daquele amor.
Porque amar alguém não deveria exigir o desaparecimento de quem ama.
E talvez a questão não seja:
“Como faço para deixar de amar?”
Mas:
“O que esse amor está dizendo sobre o meu desejo?”
Essa pergunta não produz respostas rápidas.
Produz trabalho psíquico.
E é justamente aí que começa a psicanálise.
Porque, às vezes, aquilo que chamamos de amor é também uma tentativa de encontrar no outro alguma coisa que acreditamos ter perdido em nós.
E talvez amadurecer no amor não seja encontrar alguém que finalmente nos complete.
Seja conseguir amar sem transformar o outro na resposta para aquilo que, em nós, ainda pede para ser escutado.
Nota editorial
A expressão “mulheres que amam demais” ficou conhecida principalmente a partir do livro Women Who Love Too Much, de Robin Norwood, publicado em 1985. Ela é utilizada neste artigo como uma expressão cultural para discutir determinados padrões de vínculo, e não como diagnóstico clínico.
A proposta desta coluna é fazer uma leitura psicanalítica do fenômeno. As ideias apresentadas sobre escolha de objeto, narcisismo, fantasia e repetição são fundamentadas principalmente na obra de Sigmund Freud e não significam que toda mulher que permanece em uma relação difícil tenha a mesma história ou estrutura psíquica.
Também é importante diferenciar sofrimento amoroso de violência. Quando há abuso psicológico, físico, sexual, econômico ou comportamento de controle, a responsabilidade pela violência pertence ao agressor. A compreensão psicanalítica do vínculo não deve ser utilizada para culpabilizar quem sofre violência.
Fontes
FREUD, Sigmund. Three Contributions to the Theory of Sex / Three Essays on the Theory of Sexuality (1905). Freud discute o desenvolvimento da sexualidade, a importância das experiências infantis e a formação da escolha de objeto.
FREUD, Sigmund. Beyond the Pleasure Principle (1920). Obra fundamental para a discussão da compulsão à repetição e da repetição de experiências que não podem ser compreendidas apenas pela busca de prazer.
FREUD, Sigmund. Group Psychology and the Analysis of the Ego (1921). Freud discute a idealização do objeto amoroso e sua relação com o ideal do eu e o narcisismo.
FREUD, Sigmund. Civilization and its Discontents (1930). Retoma questões relacionadas ao funcionamento das pulsões, à satisfação e à repetição no desenvolvimento posterior da teoria freudiana.
NORWOOD, Robin. Women Who Love Too Much: When You Keep Wishing and Hoping He’ll Change (1985). Obra que popularizou a expressão utilizada como ponto de partida para este artigo.

