Saúde e bem estar

Homem não chora. Homem aguenta.

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O que acontece quando um homem aprende a esconder tudo aquilo que sente?

Por Leo Oliveira – Psicanalista

“Engole o choro.”

“Você é homem.”

“Homem não pode demonstrar fraqueza.”

“Resolve sozinho.”

“Para de frescura.”

Talvez muitos homens não se lembrem exatamente de quando ouviram essas frases pela primeira vez. Mas aprenderam a mensagem.

Sentir pode até ser permitido.

Demonstrar, nem sempre.

E talvez essa seja uma das razões pelas quais tantos homens tenham dificuldade de falar sobre aquilo que acontece dentro deles.

Não significa que homens sintam menos.

Significa que muitos aprenderam, desde cedo, a não transformar sentimento em palavra.

Antes do homem que diz “está tudo bem”

Existe um personagem bastante conhecido dentro das famílias.

É aquele homem que trabalha, paga as contas, resolve problemas, ajuda todo mundo e aparece quando alguém precisa, mas quando alguém pergunta:

— “E você, está bem?”

Ele responde:

— “Estou.”

E a conversa termina.

Só que, algumas vezes, aquele “estou bem” pode significar:

“Eu não sei explicar o que estou sentindo.”

Ou:

“Não aprendi a falar sobre isso.”

Ou ainda:

“Não quero que ninguém pense que eu não dou conta.”

A Organização Mundial da Saúde aponta que normas rígidas de masculinidade podem contribuir para comportamentos de risco, uso inadequado de álcool e menor procura por ajuda e cuidados de saúde. Uma revisão da própria OMS sobre homens, masculinidades e saúde mental também identificou como barreiras importantes a autossuficiência, a dificuldade de expressar emoções e a expectativa de autocontrole.

Quando a tristeza aparece como raiva

Existe outro problema.

Nem sempre o sofrimento masculino aparece com a aparência que imaginamos.

Nem todo homem deprimido vai dizer:

“Estou triste.”

Alguns podem ficar irritados.

Outros se afastam.

Alguns mergulham no trabalho.

Outros aumentam o consumo de álcool.

Alguns se tornam emocionalmente distantes.

Outros passam a viver em uma espécie de piloto automático.

Isso não significa que toda irritabilidade, isolamento ou consumo de álcool seja depressão. Não existe uma única maneira masculina de sofrer, mas significa que precisamos prestar atenção também às formas pelas quais o sofrimento pode aparecer.

A própria literatura da OMS chama atenção para manifestações que podem acompanhar problemas de saúde mental masculina, incluindo dificuldade de reconhecer o sofrimento, abuso de substâncias e empobrecimento das relações interpessoais.

E onde entra Freud?

A psicanálise pode nos ajudar a pensar justamente sobre aquilo que não conseguimos dizer.

Para Freud, a repressão não significa simplesmente “guardar uma emoção”.

Ela envolve um processo psíquico pelo qual determinados conteúdos, desejos ou impulsos ficam afastados da consciência. E aquilo que é reprimido não necessariamente desaparece: pode encontrar outras formas de expressão, inclusive por meio de sintomas.

Isso nos permite fazer uma pergunta interessante sobre a masculinidade:

O que acontece quando um homem aprende que determinadas emoções são proibidas?

Se ele aprende que medo é fraqueza, onde coloca o medo?

Se aprende que tristeza é coisa de gente fraca, onde coloca a tristeza?

Se aprende que pedir ajuda significa não dar conta, o que faz quando realmente precisa de ajuda?

Talvez ele não pare de sentir.

Talvez apenas encontre outras maneiras de expressar aquilo que não consegue colocar em palavras.

“Eu não preciso de ajuda.”

Essa frase pode parecer força.

Mas também pode esconder sofrimento.

E existe uma diferença importante entre ser capaz de enfrentar dificuldades sozinho e acreditar que pedir ajuda é uma vergonha.

A primeira pode ser autonomia.

A segunda pode se transformar em isolamento.

A OMS aponta que homens, em comparação com mulheres, tendem a procurar menos ajuda para problemas de saúde mental e apresentam maior risco de morte por suicídio. Entre as barreiras identificadas estão justamente a autossuficiência, o autocontrole e a dificuldade de expressar emoções.

Isso não significa que todo homem que evita terapia esteja em sofrimento grave.

Nem que toda resistência à ajuda seja resultado de repressão.

Mas revela um problema cultural que merece ser discutido.

O homem também precisa de espaço para não saber

Existe uma cobrança silenciosa para que o homem tenha respostas.

Saiba o que fazer.

Saiba resolver.

Saiba sustentar.

Saiba proteger.

Saiba controlar.

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Saiba seguir em frente.

Mas quase ninguém ensina o homem a dizer:

“Eu não sei o que estou sentindo.”

E essa frase, apesar de simples, pode ser um começo.

Porque falar sobre emoções não significa ter todas as respostas.

Às vezes, significa simplesmente conseguir admitir que alguma coisa está acontecendo.

Talvez o silêncio também seja uma defesa

Na perspectiva psicanalítica, não precisamos olhar para o silêncio apenas como ausência de fala.

Ele também pode ter uma função.

Ficar calado pode proteger.

Evitar determinado assunto pode impedir o contato com uma dor.

Transformar tristeza em irritação pode ser uma maneira menos ameaçadora de experimentar aquilo que parece impossível de suportar.

Manter-se ocupado o tempo inteiro pode evitar o encontro com pensamentos que aparecem quando tudo fica em silêncio.

Isso não significa que todo comportamento tenha uma explicação única.

Significa que vale a pena perguntar:

“O que esse comportamento está evitando que eu sinta?”

Cuidar da saúde mental também é coisa de homem

Talvez precisemos mudar uma ideia de força que foi ensinada durante gerações.

Força não precisa significar ausência de medo.

Não precisa significar nunca chorar.

Não precisa significar resolver tudo sozinho.

E pedir ajuda não transforma ninguém em menos homem.

O Ministério da Saúde, por meio da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), reconhece a necessidade de ampliar o acesso dos homens aos serviços de saúde e de considerar as diferentes formas de masculinidade na organização desse cuidado.

Cuidar da própria saúde mental faz parte disso.

Conversar com alguém de confiança faz parte disso.

Procurar um profissional quando necessário faz parte disso.

Admitir que alguma coisa dói também.

Talvez ele não esteja bem. Talvez só tenha aprendido a não dizer.

Essa talvez seja a parte mais importante dessa conversa.

Às vezes, quando uma mulher está sofrendo, alguém pergunta:

“O que aconteceu?”

Quando um homem está sofrendo, muitas vezes perguntamos:

“Você consegue resolver?”

Talvez precisemos fazer uma pergunta diferente.

“Como você está?”

E, principalmente, aprender a permanecer quando a resposta não for simplesmente:

“Estou bem.”

Porque talvez um homem passe boa parte da vida tentando provar que consegue suportar tudo.

Até descobrir que não precisa suportar tudo sozinho.

Um homem não se torna forte porque aprendeu a esconder o que sente.

Às vezes, ele apenas aprendeu a sofrer em silêncio.

E talvez uma das formas mais importantes de cuidado seja ensinar que falar também pode ser uma forma de força.


Nota editorial

Este artigo apresenta uma reflexão sobre saúde mental masculina a partir de conceitos da psicanálise e de evidências sobre masculinidades e procura por cuidados em saúde mental.

A discussão não pretende afirmar que todos os homens tenham dificuldade de expressar emoções ou que exista uma única maneira masculina de sofrer. Experiências emocionais são individuais e atravessadas por fatores sociais, culturais, familiares, psicológicos e econômicos.

A perspectiva freudiana apresentada aqui é uma leitura teórica sobre repressão, sintoma e expressão psíquica — não uma explicação única para os comportamentos masculinos.

Em situações de sofrimento intenso ou pensamentos relacionados à própria morte, é importante buscar ajuda profissional e serviços de emergência. O Ministério da Saúde orienta que pessoas em risco não sejam deixadas sozinhas e que seja buscado apoio especializado.

Fontes

Organização Mundial da Saúde (OMS). Mental health, men and culture: how do sociocultural constructions of masculinities relate to men’s mental health help-seeking behaviour in the WHO European Region? 2020.

Organização Mundial da Saúde (OMS). Gender and health: Why is gender equality also men’s concern? Documento sobre os efeitos de normas rígidas de masculinidade na saúde e na procura por cuidados.

Organização Mundial da Saúde (OMS). Suicide worldwide in 2021: global health estimates. Publicado em 2025.

Ministério da Saúde. Saúde do Homem — Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH).

Ministério da Saúde. Suicídio (Prevenção). Orientações oficiais sobre sinais de alerta e busca de ajuda.

FREUD, Sigmund. A General Introduction to Psychoanalysis. Discussão freudiana sobre repressão e formação dos sintomas.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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