Os novos planos estratégicos da principal potência da indústria bélica brasileira para equipar as Forças Armadas com mísseis de cruzeiro, foguetes de longa distância e frotas de drones autônomos trouxeram de volta aos bastidores de Brasília um debate há muito adormecido: a capacidade de dissuasão estratégica do país e os limites da soberania tecnológica em um cenário global hiperpolarizado. A análise, baseada nas revelações do jornalista Marcelo Godoy no jornal O Estado de S. Paulo, detalha o salto tecnológico que o complexo industrial de defesa projeta para blindar as fronteiras nacionais.
Contudo, a busca por mísseis de alta precisão e longo alcance inevitavelmente esbarra em uma das maiores discussões da história militar brasileira: o papel e o tabu que envolvem a energia e o armamento nuclear na defesa do território.
A barreira dos mísseis e o arsenal atômico
O desenvolvimento de vetores de lançamento sofisticados — como o Míssil de Cruzeiro Tático (AV-MTC), capaz de atingir alvos a centenas de quilômetros com precisão milimétrica — coloca o Brasil em um seleto grupo de nações detentoras dessa tecnologia. No jargão militar, possuir mísseis de longo alcance é o pilar da chamada “dissuasão convencional”.
A grande questão levantada por analistas de segurança é que, historicamente, a tecnologia para guiar e impulsionar mísseis avançados é idêntica à utilizada por potências globais para carregar ogivas de destruição em massa. Embora o Brasil seja signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e a própria Constituição Federal de 1988 proíba explicitamente o uso da energia nuclear para fins não pacíficos, o avanço da indústria de mísseis reabre discussões técnicas sobre a real autonomia do país caso os conflitos geopolíticos escalem a nível global.
“Dominar a tecnologia de mísseis de cruzeiro e propulsão de foguetes é dar ao Brasil o músculo necessário para que o país seja respeitado diplomaticamente. Contudo, o verdadeiro poder de dissuasão em um mundo onde grandes potências ignoram tratados internacionais sempre esbarra no debate nuclear. O Brasil escolheu o caminho da paz e da tecnologia convencional, mas precisa garantir que seus vetores sejam robustos o suficiente para anular qualquer ameaça externa”, avalia um especialista em estratégia militar e geopolítica.

Daniel Teixeira/Estadão
Submarino nuclear e o futuro da dissuasão
O calcanhar de Alvo dessa estratégia de defesa de longo prazo e que se conecta diretamente com a ambição nuclear brasileira é o Prosub (Programa de Desenvolvimento de Submarinos), capitaneado pela Marinha, que visa colocar na água o primeiro submarino brasileiro com propulsão nuclear (o Álvaro Alberto).
Ao alinhar a produção em massa de mísseis avançados em terra pela indústria bélica privada com o desenvolvimento do reator nuclear para a frota naval, o Brasil tenta criar uma “redoma protetora”. A meta da indústria e do Ministério da Defesa é provar que, mesmo sem possuir ou desejar uma bomba atômica, o país pode alcançar o status de potência militar intransponível apenas dominando os meios tecnológicos e a propulsão nuclear para proteger suas riquezas naturais e a Amazônia Azul.

