Saúde e bem estar

Estamos aprendendo a falar sobre sentimentos, mas desaprendendo a lidar com frustrações?

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Nunca se falou tanto sobre limites, gatilhos, autocuidado e saúde mental. Mas reconhecer o que sentimos significa, necessariamente, saber lidar com aquilo que sentimos?

Por Leo Oliveira — Psicanalista | Coluna Saúde e Bem-Estar — Arena Remix

Durante muito tempo, falar sobre sentimentos foi quase um sinal de fraqueza.

Homens eram ensinados a engolir o choro. Mulheres ouviam que estavam exagerando. Crianças escutavam que precisavam parar de reclamar. Ansiedade era “frescura”, depressão era confundida com falta de vontade e estabelecer limites poderia ser interpretado como egoísmo.

Felizmente, muita coisa mudou.

Hoje falamos mais sobre saúde mental, relações abusivas, limites, traumas, ansiedade, dependência emocional e autocuidado. Existe um vocabulário emocional que antes não fazia parte de muitas conversas familiares.

Isso representa um avanço importante.

Mas existe uma pergunta que talvez também precise ser feita:

aprendemos a reconhecer nossas emoções ou estamos começando a acreditar que qualquer emoção desagradável precisa imediatamente desaparecer?

Existe uma diferença enorme entre cuidar do sofrimento e não suportar nenhum desconforto.

E talvez seja justamente nessa diferença que esteja uma das questões emocionais mais interessantes do nosso tempo.

Nem tudo aquilo que incomoda é tóxico.

“Tóxico.”

“Gatilho.”

“Red flag.”

“Isso não me faz bem.”

“Preciso preservar minha saúde mental.”

Todas essas expressões podem representar experiências legítimas e importantes. O problema começa quando palavras que deveriam ajudar a compreender situações complexas passam a ser utilizadas para classificar praticamente qualquer experiência desagradável.

Alguém discordou de mim: tóxico.

Recebi uma crítica: ataque.

Meu parceiro colocou um limite: falta de responsabilidade afetiva.

Meu chefe cobrou algo: ambiente abusivo.

Uma conversa me deixou desconfortável: gatilho.

E aqui precisamos fazer uma distinção importante.

Existem relações abusivas.

Existem ambientes adoecedores.

Existem traumas e situações capazes de desencadear sofrimento emocional intenso.

Mas existe também algo muito mais comum e inevitável:

frustração.

E frustração não é necessariamente violência.

A vida não foi construída para corresponder aos nossos desejos.

Talvez uma das contribuições mais incômodas da psicanálise seja justamente lembrar que desejar alguma coisa não significa que o mundo tenha obrigação de oferecê-la.

Você pode amar alguém que não deseja permanecer com você.

Pode se esforçar e não conseguir aquela promoção.

Pode ser uma boa pessoa e ainda assim ser rejeitado.

Pode cuidar de alguém e não receber exatamente o mesmo cuidado de volta.

Pode planejar durante anos e ver um projeto fracassar.

Pode ouvir um “não”.

Pode precisar esperar.

Pode perder.

Pode descobrir que algumas coisas simplesmente não estão sob seu controle.

O desenvolvimento emocional não acontece quando conseguimos construir uma vida na qual nada disso ocorre.

Acontece quando começamos a desenvolver recursos internos para atravessar essas experiências sem desmoronar diante de cada uma delas.

Na tradição psicanalítica, existe uma passagem fundamental entre um funcionamento orientado apenas pela satisfação imediata do desejo e a capacidade de reconhecer as limitações impostas pela realidade.

Em outras palavras:

Amadurecer também significa descobrir que o mundo não existe para satisfazer imediatamente aquilo que desejamos.

Sentir não é o mesmo que obedecer ao sentimento.

Talvez aqui esteja outra confusão contemporânea.

Aprender a validar sentimentos não significa transformar sentimentos em ordens.

Posso sentir raiva e não agredir.

Posso sentir ciúme e não controlar.

Posso sentir medo e ainda enfrentar determinada situação.

Posso sentir vontade de mandar uma mensagem e decidir não mandar.

Posso me sentir frustrado e não destruir uma relação por causa disso.

Posso me sentir rejeitado sem concluir que não tenho valor.

Um sentimento merece ser escutado.

Mas nem todo sentimento precisa determinar o comportamento que vem depois.

Essa capacidade de criar algum espaço entre aquilo que sentimos e aquilo que fazemos é parte importante da regulação emocional.

Pesquisas sobre regulação das emoções mostram justamente que dificuldades para lidar com incerteza e estratégias como ruminação, evitação e busca excessiva por garantias podem estar associadas a maior sofrimento emocional. Uma meta-análise envolvendo mais de 30 mil participantes encontrou relação entre intolerância à incerteza e estratégias menos adaptativas de regulação emocional.

Dar nome ao sentimento ajuda, mas não encerra o trabalho.

Existe uma conquista importante quando alguém consegue dizer:

“Estou com medo.”

“Estou com raiva.”

“Estou com ciúme.”

“Estou me sentindo rejeitado.”

“Estou frustrado.”

Isso já é muito diferente de simplesmente agir dominado pela emoção.

Há estudos mostrando que colocar emoções em palavras, processo conhecido como affect labeling, pode, em determinados contextos, ajudar a reduzir a intensidade do sofrimento emocional.

Mas existe um passo seguinte.

Depois de perguntar:

“O que estou sentindo?”

talvez precisemos perguntar:

“O que vou fazer com aquilo que estou sentindo?”

É exatamente aí que começa uma parte importante do amadurecimento.

Quando colocar limites vira evitar qualquer desconforto.

Estabelecer limites é saudável.

Mas limite não significa nunca negociar.

Autocuidado não significa nunca fazer algo difícil.

Amor-próprio não significa que ninguém possa nos contrariar.

Responsabilidade afetiva não significa que o outro seja responsável por impedir qualquer sofrimento que possamos sentir.

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E proteger a saúde mental não significa construir uma vida na qual nunca teremos contato com frustração.

Imagine um relacionamento no qual duas pessoas só permaneçam juntas enquanto nenhuma contraria a outra.

Isso não é intimidade.

É uma relação condicionada à ausência de conflito.

Relações maduras exigem capacidade de conversar quando existe diferença.

Às vezes exigem ceder.

Em outras, sustentar um limite.

Em algumas situações, reconhecer o próprio erro.

Em outras, descobrir que amar alguém não significa conseguir permanecer com essa pessoa.

Talvez não estejamos frágeis. Talvez estejamos confusos.

Seria simplista dizer que “as pessoas de hoje não suportam mais nada”.

Não existe evidência suficiente para transformar essa frase em diagnóstico de uma geração inteira.

Além disso, gerações anteriores também tinham suas dificuldades emocionais — muitas delas simplesmente eram silenciadas.

O que talvez esteja acontecendo é algo mais interessante.

Estamos aprendendo um novo vocabulário emocional.

E, como acontece sempre que uma sociedade aprende novas palavras, ainda precisamos aprender a utilizá-las com precisão.

Precisamos falar sobre trauma sem transformar toda lembrança desagradável em trauma.

Precisamos identificar abuso sem chamar todo conflito de abuso.

Precisamos ensinar limites sem transformar relações em espaços nos quais ninguém possa ser contrariado.

Precisamos acolher emoções sem transformar emoções em autoridade absoluta.

E precisamos falar sobre saúde mental sem transmitir a ideia de que uma mente saudável é aquela que nunca sofre.

Porque não é.

A capacidade de suportar o “não sei”.

Existe ainda outro elemento: a incerteza.

“Será que ele vai voltar?”

“Será que meu relacionamento vai dar certo?”

“Será que vou conseguir aquele emprego?”

“Será que fiz a escolha correta?”

Queremos respostas.

E queremos respostas agora.

Mas grande parte da vida acontece justamente no espaço em que ainda não sabemos o que vai acontecer.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na Clinical Psychology Review encontrou uma associação relevante entre intolerância à incerteza e dificuldades na regulação emocional. Pesquisas mais recentes continuam tratando a intolerância à incerteza como um elemento importante para compreender diferentes formas de sofrimento psicológico.

Talvez amadurecer também seja desenvolver a capacidade de permanecer por algum tempo dentro de uma pergunta que ainda não possui resposta.

Não precisamos ensinar pessoas a sofrer caladas.

É importante deixar isso claro.

Defender maior tolerância à frustração não significa romantizar sofrimento.

Não significa permanecer em relacionamentos abusivos.

Não significa aceitar humilhações.

Não significa ignorar sintomas psicológicos.

Muito menos significa retornar ao tempo em que alguém em sofrimento simplesmente ouvia:

“Engole o choro e segue a vida.”

A proposta é exatamente o contrário.

Precisamos falar sobre aquilo que sentimos.

Precisamos pedir ajuda quando necessário.

Precisamos reconhecer nossos limites.

Mas talvez também precisemos recuperar uma capacidade emocional fundamental:

Atravessar aquilo que não podemos imediatamente modificar.

Porque algumas dores precisam ser tratadas.

Algumas relações precisam terminar.

Algumas situações precisam ser denunciadas.

Mas algumas experiências simplesmente precisam ser elaboradas.

A pergunta que fica.

Talvez saúde emocional não seja conseguir eliminar todas as situações que nos causam desconforto.

Talvez seja conseguir reconhecer quais situações realmente precisam ser interrompidas e quais precisam ser atravessadas.

Existe uma enorme diferença entre se proteger e fugir.

Entre estabelecer um limite e não tolerar contrariedade.

Entre respeitar um sentimento e ser governado por ele.

Por isso, além de ensinar alguém a dizer:

“Isso me machuca.”

talvez precisemos ensiná-lo também a perguntar:

“O que eu consigo fazer com aquilo que estou sentindo?”

Porque saúde emocional não é viver sem desconforto.

É não precisar fugir toda vez que o desconforto aparece.

Fontes e referências

  • SAHIB, A.; CHEN, J.; CÁRDENAS, D.; CALEAR, A. L. Intolerance of uncertainty and emotion regulation: A meta-analytic and systematic review. Clinical Psychology Review, 2023. A revisão analisou 91 estudos, reunindo mais de 30 mil participantes.
  • SAHIB, A. et al. Emotion regulation mediates the relation between intolerance of uncertainty and emotion difficulties: A longitudinal investigation. Journal of Affective Disorders, 2024.
  • LEVY-GIGI, E.; SHAMAY-TSOORY, S. Affect labeling: The role of timing and intensity. Frontiers in Behavioral Neuroscience, 2022.
  • LIEBERMAN, M. D. e colaboradores. Estudos sobre affect labeling e regulação emocional, discutindo os efeitos de colocar experiências emocionais em palavras.
  • CARLETON, R. N. e colaboradores. Literatura científica sobre intolerância à incerteza como fenômeno relacionado a diferentes formas de sofrimento emocional.
  • FREUD, Sigmund. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico (1911). Referência clássica para a discussão psicanalítica sobre princípio do prazer, princípio da realidade e adiamento da satisfação.

Nota editorial

Este artigo possui caráter informativo e reflexivo e não pretende estabelecer diagnósticos individuais ou generalizações sobre uma geração. Termos como trauma, abuso, transtorno de ansiedade e outras condições de saúde mental possuem significados clínicos específicos e não devem ser utilizados como diagnóstico sem avaliação adequada. Em situações de sofrimento emocional persistente ou intenso, recomenda-se procurar um profissional qualificado.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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