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Talvez a pergunta mais importante não seja se a depressão tem cura. Talvez seja perguntar o que precisa mudar para que uma pessoa volte a desejar a própria vida.
Por Leo Oliveira – Psicanalista
Essa é uma das perguntas mais frequentes de quem recebe o diagnóstico e também uma das mais difíceis de responder com um simples sim ou não.
Do ponto de vista médico, existem tratamentos eficazes para a depressão. A Organização Mundial da Saúde afirma que tratamentos psicológicos são eficazes e que, dependendo da gravidade do quadro, medicamentos também podem ser indicados. O Ministério da Saúde orienta que o objetivo do tratamento é alcançar a remissão completa dos sintomas.
Mas existe uma outra questão, menos objetiva e talvez mais humana:
O que acontece com aquilo que levou aquela pessoa a adoecer?
Melhorar não é simplesmente voltar a ser quem era
Uma pessoa pode deixar de apresentar os principais sintomas depressivos e ainda carregar conflitos, perdas, culpas, relações difíceis ou formas de funcionamento que continuam produzindo sofrimento.
É por isso que a psicanálise pode contribuir para além da pergunta “como faço para parar de sofrer?”.
Ela também pergunta:
“O que esse sofrimento está dizendo sobre a minha história?”
Isso não significa afirmar que toda depressão possui uma única causa psicológica. A própria Organização Mundial da Saúde reconhece que a depressão resulta de uma interação complexa entre fatores biológicos, psicológicos e sociais.
A depressão não deve ser reduzida a “falta de força de vontade”, tampouco a um problema que se resolve apenas descobrindo uma causa escondida.
Existe sofrimento psíquico, existe corpo, existem relações, existe contexto e existe uma história singular.
E a psicanálise, onde entra?
Para a psicanálise, não basta olhar apenas para o sintoma.
É preciso escutar o sujeito.
Às vezes, por trás de um “não tenho vontade de fazer nada”, existe uma história de perdas que nunca pôde ser elaborada.
Por trás de uma culpa constante, pode existir uma exigência interna impossível de satisfazer.
Por trás da sensação de vazio, pode existir uma vida organizada durante anos em torno das expectativas dos outros.
E, em alguns casos, aquilo que aparece como tristeza pode estar relacionado a conflitos que a própria pessoa ainda não consegue nomear.
O trabalho analítico não consiste em convencer alguém a “pensar positivo”.
Também não consiste em encontrar uma frase bonita capaz de eliminar a dor.
Consiste em criar um espaço onde aquilo que ainda não pôde ser elaborado possa ganhar palavras.
Depressão não é simplesmente tristeza
Essa distinção é fundamental.
A tristeza faz parte da experiência humana. A depressão, porém, é uma condição de saúde que pode envolver perda persistente de interesse ou prazer, alterações no sono e no apetite, fadiga, dificuldades de concentração, sentimentos de culpa ou desvalorização e, em alguns casos, pensamentos relacionados à morte.
Por isso, dizer a alguém deprimido “reaja”, “você precisa sair dessa” ou “pense nas coisas boas da vida” pode ser não apenas insuficiente, mas profundamente incompreensível para quem está sofrendo.
Quem está deprimido muitas vezes não precisa ouvir que deveria estar melhor.
Precisa encontrar condições para começar a ficar melhor.
E quando os sintomas voltam?
Esse é outro ponto importante.
O Ministério da Saúde descreve o tratamento da depressão em diferentes fases: tratamento dos sintomas, manutenção da melhora e prevenção de recaídas.
Isso significa que uma pessoa pode melhorar e, posteriormente, apresentar outro episódio depressivo.
Mas uma recaída não significa necessariamente que todo o tratamento fracassou.
Significa que depressão pode ser uma condição recorrente e que o acompanhamento precisa considerar a história e os fatores de risco de cada pessoa.
Por isso, interromper medicamentos por conta própria ou abandonar um tratamento sem orientação profissional não é recomendado.
Talvez “cura” não seja a melhor palavra
Existe uma diferença importante entre remissão dos sintomas e simplesmente “não estar mais triste”.
Remissão significa que a pessoa deixa de preencher os critérios clínicos do episódio depressivo. E alcançar essa remissão é um dos objetivos centrais do tratamento.
Mas, para quem está vivendo aquilo, talvez exista uma pergunta ainda mais profunda:
“O que eu faço com a minha vida depois que a dor diminui?”
É nesse ponto que a escuta psicanalítica pode ganhar importância.
Porque não basta apenas retirar o sofrimento.
É preciso, quando possível, reconstruir a relação da pessoa com seus desejos, seus vínculos, suas escolhas e sua própria história.
Então, depressão tem cura?
A resposta responsável é: há tratamento eficaz e muitas pessoas alcançam remissão dos sintomas e retomam suas vidas. Em alguns casos, porém, podem ocorrer novos episódios e pode ser necessário acompanhamento continuado.
A palavra “cura” pode ser insuficiente para descrever toda essa experiência.
Porque tratar depressão não é simplesmente apagar uma dor.
É ajudar uma pessoa a recuperar possibilidades que, naquele momento, parecem ter desaparecido.
E talvez uma das maiores conquistas do tratamento seja justamente essa:
não voltar a ser exatamente quem você era antes de adoecer, mas descobrir quem você pode ser depois de compreender aquilo que viveu.
Nota editorial
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica ou acompanhamento profissional. Depressão é uma condição de saúde que pode exigir tratamento psicológico, psiquiátrico, medicamentoso ou uma combinação dessas abordagens, de acordo com cada caso. Em situações de risco imediato ou pensamentos de suicídio, é fundamental procurar atendimento de urgência ou um serviço de emergência.
Fontes
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — Depressive disorder (depression).
- Ministério da Saúde — Depressão.
- Ministério da Saúde — Linha de Cuidado da Depressão no adulto.
- Organização Mundial da Saúde — recomendações sobre tratamento psicológico e medicamentoso da depressão.

