Caso Dark Horse

Flávio Bolsonaro voltou dos EUA no mesmo jatinho ligado a Vorcaro que Alexandre de Moraes usou 7 meses depois

•

Aeronave Legacy 650 de prefixo PP-NLR, que tinha empresa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro entre os cotistas, foi a mesma usada pelo ministro Alexandre de Moraes meses depois; viagem ocorreu em 19 de janeiro de 2025, na véspera da posse de Donald Trump, em meio às negociações para o financiamento do filme "Dark Horse"

Getting your Trinity Audio player ready...

O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) viajou de Fort Lauderdale, na Flórida, para Brasília, em 19 de janeiro de 2025, a bordo de um jato executivo Legacy 650 de prefixo PP-NLR que tinha entre seus cotistas uma empresa da qual o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, era sócio. A informação foi revelada pela revista Piauí e confirmada pelo G1, O Globo e Folha de S.Paulo.

A bordo estavam a mulher do senador, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, as duas filhas do casal e o advogado Willer Tomaz, amigo próximo de Flávio e um dos cotistas da aeronave. Willer é investigado no esquema de fraudes bilionárias do INSS e teve envolvimento no escândalo da JBS.

A rota entre Fort Lauderdale e Brasília em que Flávio viajou com a mulher e as duas filhas – Reprodução

A aeronave e os cotistas

O Legacy 650 PP-NLR tinha sua propriedade dividida em três participações. A Prime You, empresa operadora do jato, detinha um terço das cotas e tinha Daniel Vorcaro como sócio entre setembro de 2021 e setembro de 2025. A participação havia sido adquirida no fim de 2024, pouco antes da viagem de Flávio.

Legacy 650 PP-NLR

A segunda cota pertencia a Willer Tomaz, por meio da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. A terceira estava nas mãos de Laércio Cosentino, fundador da TOTVS.

A aeronave era administrada pela Prime Aviation Táxi Aéreo e Serviços, empresa integrante do grupo Prime You. Segundo as investigações da Polícia Federal, a estrutura de luxo da companhia, na qual Vorcaro controlava participação por meio do fundo patrimonial Blue até setembro de 2025, servia como uma ferramenta para se aproximar e agradar figuras de poder em Brasília.

Para os investigadores, o uso recorrente da frota da companhia para transportar autoridades não seria coincidência, mas parte de uma estratégia para fortalecer a posição do Banco Master e de seu presidente no centro do poder.

O Advogado Willer e Flávio Bolsonaro Reprodução Instagram

O mesmo avião usado por Moraes

O jato PP-NLR é o mesmo que, em agosto de 2025, transportou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes. O casal foi filmado desembarcando da aeronave no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

O escritório de advocacia de Viviane Barci mantinha contratos milionários com o Banco Master. Após a divulgação das imagens, Flávio Bolsonaro atacou o magistrado nas redes sociais e acusou Moraes de integrar uma “máfia”. A campanha do senador chegou a avaliar o uso do vídeo no horário eleitoral.

A nova revelação mostra que o próprio senador havia viajado naquele mesmo avião sete meses antes de Moraes.

O contexto: negociações do “Dark Horse”

A viagem de Flávio Bolsonaro ocorreu em meio às negociações para o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro bancada por Vorcaro. O cronograma do acordo previa um aporte de US$ 2 milhões em 20 de janeiro de 2025**, um dia depois do desembarque do senador em Brasília, e outros **US$ 2 milhões cinco dias mais tarde.

No dia seguinte ao voo, Flávio Bolsonaro escreveu ao intermediário Thiago Miranda pedindo que desse “um gás na resposta do jurídico do investidor”.

O senador é investigado formalmente no STF no inquérito sobre o longa, para o qual Vorcaro pagou ao menos R$ 65 milhões, conforme revelaram o Intercept Brasil e a revista Piauí. A Polícia Federal investiga o caminho dos recursos destinados ao projeto cinematográfico e busca esclarecer a movimentação financeira envolvendo empresas e fundos nos Estados Unidos.

LEIA TAMBÉM:  Assessora de Flávio Bolsonaro negociou emendas com miliciano condenado no caso Marielle

Outras viagens e vínculos

A viagem no avião de Vorcaro não foi um episódio isolado na relação entre Flávio e Willer Tomaz. A PF identificou ao menos cinco viagens internacionais feitas em conjunto pelos dois no primeiro semestre de 2025, que incluíram deslocamentos aos EUA, África do Sul, Portugal e França.

A identificação das viagens foi possível após investigadores vasculharem o celular e a caixa de e-mails de Willer, onde encontraram fotografias, reservas, registros de voos e aluguel de veículo.

Além disso, o advogado também comprou de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, um imóvel que foi cedido a Flávio Bolsonaro para uma festa de aniversário de uma das filhas do senador, em fevereiro de 2026, em Angra dos Reis.

O que dizem os envolvidos

Procurado pelo GLOBO sobre os deslocamentos, Flávio afirmou manter com Willer uma “relação de amizade legítima” e disse que “qualquer tentativa de insinuar irregularidade a partir dessa afinidade pessoal é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”.

Willer Tomaz, por sua vez, afirmou que as viagens são de “caráter estritamente privado” e decorrem de uma relação de amizade com Flávio. O advogado confirmou que detinha 1/3 das cotas da sociedade proprietária da aeronave e que, “quando havia assentos disponíveis e amigos com destino coincidente, oferecia carona — gesto de cordialidade, sem qualquer custo, contrapartida ou benefício de parte a parte”.

A defesa de Willer também afirma que “Willer Tomaz não conhece Daniel Vorcaro, jamais esteve com ele e nunca celebrou com ele qualquer negócio — de qualquer natureza”. O advogado informou que, ao saber que a aeronave estava envolvida no esquema do Banco Master, denunciou o contrato e iniciou um litígio com a Prime.

A reportagem da Piauí procurou Flávio Bolsonaro e a defesa de Daniel Vorcaro, mas não obteve resposta até a publicação.

O que está em jogo

A revelação amplia o escopo das investigações sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. O caso “Dark Horse” já é objeto de inquérito no STF, e a PF apura se parte dos recursos destinados ao filme teve outras finalidades. A coincidência do uso da mesma aeronave por Flávio e por Moraes adiciona um novo elemento à crise institucional na Corte e ao debate eleitoral.

O senador é candidato à Presidência e disputa o segundo turno contra o presidente Lula (PT). A campanha de Flávio informou que não vai comentar o assunto.

Referências

Revista Piauí — FLÁVIO BOLSONARO VIAJOU EM JATO DE VORCARO

O Globo — Flávio Bolsonaro voltou dos EUA com a família e advogado em jato de Vorcaro que foi usado por Moraes.

Revista Fórum — Flávio Bolsonaro usou jatinho de Vorcaro, diz revista.

Folha de S.Paulo — Flávio Bolsonaro viajou dos EUA ao Brasil em 2025 em jato de Vorcaro, diz revista.

Estado de Minas — Flávio Bolsonaro voou com familiares em jatinho de Vorcaro, diz revista.

Diário do Centro do Mundo — Flávio Bolsonaro voou em avião de Vorcaro para voltar dos EUA com a família.

Aeroin — Jatinho Legacy utilizado por Moraes também transportou Flávio Bolsonaro, segundo cotista da aeronave.

Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

Redes sociais

Deixe uma resposta