Saúde e bem estar

A sessão não termina quando o psicanalista diz: “acabou”.

•
Getting your Trinity Audio player ready...

O relógio encerra o encontro. Mas algumas palavras continuam trabalhando muito depois que a porta do consultório se fecha.

Por Leo Oliveira — Psicanalista

Existe um momento curioso em uma sessão de psicanálise:

O paciente fala durante cinquenta minutos sobre a própria vida. Conta aquilo que conseguiu organizar em palavras, aquilo que tentou esconder, aquilo que disse sem perceber que estava dizendo.

Então o psicanalista olha para o relógio e avisa:

“Por hoje, vamos parar aqui.”

O paciente vai embora, mas será que a sessão realmente terminou?

Formalmente sim, psicologicamente, muitas vezes não.

Há conversas que continuam acontecendo dentro de nós muito depois de terem acabado do lado de fora.

Algumas frases só fazem sentido depois.

Nem sempre uma interpretação produz efeito no instante em que é feita às vezes o paciente escuta alguma coisa durante a sessão e não reage, muda de assunto, discorda, ri, diz que não faz sentido e vai embora.

Horas depois, enquanto dirige, toma banho ou tenta dormir, aquela frase reaparece.

“Por que aquilo me incomodou tanto?”

“Será que faço isso mesmo?”

“Por que sempre escolho pessoas parecidas?”

“Por que aquilo que ele disse ficou na minha cabeça?”

Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes do processo analítico:

Uma sessão pode terminar no relógio antes de terminar emocionalmente.

O divã não serve apenas para encontrar respostas.

Muita gente chega à análise esperando respostas.

“Por que sou assim?”

“O que devo fazer?”

“Preciso terminar meu relacionamento?”

“Como faço para parar de sofrer?”

Mas psicanálise não deveria funcionar como alguém entregando um manual de instruções sobre a vida do outro, em muitos momentos, o trabalho consiste justamente em construir perguntas melhores, existem perguntas capazes de acompanhar uma pessoa durante dias e algumas delas incomodam.

Uma boa sessão nem sempre termina com alívio, às vezes termina com silêncio, com uma dúvida, com uma lembrança, com uma frase aparentemente simples que começa a desmontar uma certeza construída há vinte anos.

O paciente continua elaborando.

Freud utilizou a ideia de elaboração para falar de um trabalho psíquico que exige tempo.

Não basta reconhecer intelectualmente um padrão, uma pessoa pode saber perfeitamente:

“Meu relacionamento me faz mal.”

E continuar nele.

Pode compreender:

“Passei a vida tentando conseguir a aprovação do meu pai.”

E continuar procurando essa aprovação em chefes, parceiros e amigos.

Pode dizer:

“Sei que não preciso agradar todo mundo.”

E sentir culpa toda vez que diz não.

Porque compreender intelectualmente alguma coisa e transformá-la emocionalmente são processos diferentes.

É por isso que análise exige tempo.

Descobrir o padrão é uma coisa. Deixar de obedecer a ele é outra.

E o psicanalista?

Existe também outro lado dessa história que poucas pessoas conhecem.

Quando uma sessão termina, o profissional não deveria simplesmente apagar mentalmente aquilo que acabou de ouvir.

Há sessões que pedem reflexão.

Uma frase pode parecer secundária durante o atendimento e ganhar importância posteriormente.

Uma contradição pode aparecer.

Um silêncio pode chamar atenção.

Uma repetição pode finalmente formar um desenho.

Dependendo da prática profissional, o psicanalista pode fazer registros clínicos, estudar determinado ponto, refletir sobre suas próprias reações diante daquela sessão e, quando necessário, recorrer à supervisão.

Mas é importante fazer uma distinção:

LEIA TAMBÉM:  O que está acontecendo com os jovens de hoje? Por que a internet vem se tornando um refúgio emocional?

Isso não significa continuar invadindo mentalmente a vida do paciente, nem ultrapassar os limites da relação terapêutica.

Significa trabalhar clinicamente com aquilo que aconteceu dentro daquele espaço.

A própria reação emocional do analista diante do paciente também pode se tornar material importante de reflexão clínica, aquilo que a tradição psicanalítica desenvolveu, entre outros conceitos, ao discutir a contratransferência.

Às vezes aquilo que não foi dito é justamente o que mais importa.

Existe uma fantasia de que uma boa sessão é aquela em que o paciente conta tudo.

Não necessariamente, existem silêncios que falam muito, mudanças repentinas de assunto, piadas feitas exatamente quando algo doloroso aparece, esquecimentos, atrasos.

Frases como:

“Isso não tem nada a ver, mas…”

Curiosamente, depois dessa frase frequentemente aparece algo que tem muito a ver.

A psicanálise se interessa não apenas pela história que a pessoa conta, ela também observa como essa história é contada.

O que aparece, o que desaparece, o que se repete, o que provoca vergonha, o que provoca raiva.

E até aquilo que o paciente tenta desesperadamente convencer o analista, e talvez a si próprio de que já superou.

O silêncio depois da sessão também faz parte do processo.

Vivemos em uma época que parece exigir respostas imediatas.

Uma pergunta precisa de resposta.

Uma dor precisa desaparecer.

Uma dúvida precisa ser resolvida.

A análise trabalha de outro modo.

Às vezes precisamos suportar algum tempo sem resposta.

Porque existem compreensões que não podem ser forçadas.

Elas precisam amadurecer, talvez por isso determinadas sessões permaneçam conosco.

Você sai.

Volta para sua rotina.

Trabalha.

Conversa com alguém.

E de repente percebe uma coisa que estava diante dos seus olhos há anos, não porque alguém lhe entregou uma resposta pronta, mas porque alguma coisa dentro de você finalmente conseguiu enxergar.

O relógio encerra o encontro. Não necessariamente o processo.

Quando o psicanalista diz:

“Nos vemos na próxima semana.”

Aquela sessão terminou institucionalmente, os limites importam, o horário importa, a separação entre terapeuta e paciente importa.

Mas o trabalho psíquico pode continuar, no paciente que repensa aquilo que disse, no silêncio que ganhou significado, na lembrança que apareceu horas depois, na pergunta que começou a incomodar e também no profissional que precisa pensar cuidadosamente sobre aquilo que escutou.

Talvez essa seja uma das particularidades mais bonitas da análise:

Você pode sair do consultório às 18h.

Mas uma parte da conversa pode voltar para casa com você.

E, às vezes, é justamente depois que a sessão termina que alguma coisa começa.

Fontes e referências:

Sigmund Freud — Recordar, repetir e elaborar (1914), texto fundamental para compreender a elaboração psíquica e a repetição dentro do processo analítico.

Sigmund Freud — Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise (1912), sobre a posição e a escuta do analista.

Wilfred Bion — trabalhos sobre pensamento, experiência emocional e a capacidade de transformar experiências psíquicas em algo que possa ser pensado.

Donald Winnicott — contribuições sobre o ambiente terapêutico, sustentação emocional e desenvolvimento do self.

Nota editorial:

Este artigo tem finalidade informativa e reflexiva. A forma de condução das sessões varia conforme a abordagem, formação e prática de cada profissional. Psicanálise e acompanhamento em saúde mental devem respeitar limites éticos, técnicos, confidencialidade e as necessidades individuais de cada pessoa.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

Redes sociais

Deixe uma resposta