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A busca por pertencimento, o medo da rejeição e a dificuldade de encontrar espaços de escuta ajudam a compreender por que tantos jovens recorrem ao mundo virtual para lidar com suas emoções.
Por Leo Oliveira — Psicanalista | Portal Arena Remix
Um adolescente chega da escola, entra no quarto, fecha a porta e pega o celular. As horas passam, a família tenta conversar, mas as respostas são curtas. Do lado de fora, os adultos se perguntam o que está acontecendo. Do lado de dentro, talvez exista um jovem tentando encontrar, na internet, um lugar onde consiga se sentir aceito.
O cenário é cada vez mais familiar para muitas famílias. Diante dele, surge uma pergunta importante: estamos diante de uma geração que simplesmente não consegue se desconectar ou de jovens que encontraram no ambiente virtual uma maneira de lidar com dificuldades que nem sempre conseguem expressar?
A resposta não é simples. A internet oferece oportunidades de aprendizagem, entretenimento, amizade e acolhimento. Entretanto, também pode se transformar em um espaço de fuga quando as experiências da vida cotidiana são marcadas por solidão, insegurança ou sensação de não pertencimento.
Uma geração conectada, mas nem sempre acolhida.
A adolescência é um período de intensas transformações. O jovem começa a questionar sua identidade, busca autonomia, deseja ser reconhecido pelos amigos e tenta descobrir qual é o seu lugar no mundo.
Nesse processo, a aceitação social pode adquirir uma importância enorme. Ser rejeitado, sentir-se diferente ou acreditar que não corresponde às expectativas dos outros pode provocar sofrimento significativo.
A internet oferece possibilidades de conexão que ultrapassam as fronteiras da escola, do bairro e da família. Um jovem que se sente isolado presencialmente pode encontrar comunidades com interesses semelhantes, pessoas que compartilham suas experiências e espaços nos quais consegue falar com mais liberdade.
Essas relações podem ser positivas e até fundamentais para quem não encontra apoio em outros ambientes. O problema não está necessariamente em buscar companhia na internet, mas em depender exclusivamente dela para experimentar segurança e pertencimento.
Estar conectado não é a mesma coisa que se sentir acolhido.
Quando o mundo virtual se transforma em esconderijo.
Pela perspectiva da psicanálise, podemos compreender determinados comportamentos como tentativas de lidar com sentimentos difíceis.
Um jovem que teme ser ridicularizado pode preferir relações nas quais consiga controlar melhor sua exposição. Aquele que enfrenta conflitos familiares pode procurar em desconhecidos a escuta que não encontra em casa. Quem se sente inadequado pode construir, nas redes sociais, uma imagem de si que acredita ser mais facilmente aceita.
Isso não significa que todo adolescente que passa muito tempo conectado esteja fugindo da realidade. É necessário compreender a história e as circunstâncias de cada pessoa.
Entretanto, quando o ambiente virtual passa a ser a única alternativa para evitar frustrações, conflitos e inseguranças, vale investigar o que está tornando a vida fora das telas tão difícil de enfrentar.
A internet pode funcionar como uma ponte para novas experiências, mas também pode se tornar um esconderijo emocional.
A diferença está, em parte, na possibilidade de o jovem transitar entre esses dois mundos sem abandonar o sono, os estudos, as relações presenciais e outras atividades importantes para seu desenvolvimento.
O que dizem os estudos sobre redes sociais e adolescência?
Um relatório divulgado em setembro de 2024 pela Organização Mundial da Saúde, com dados de quase 280 mil adolescentes de 11, 13 e 15 anos de 44 países e regiões da Europa, da Ásia Central e do Canadá, identificou sinais de uso problemático das redes sociais em 11% dos participantes, contra 7% em 2018.
O estudo considerou dificuldades de controle do uso e consequências negativas na vida cotidiana. Os resultados, referentes à população pesquisada, não devem ser interpretados como uma estimativa específica para todos os adolescentes brasileiros. (OMS, 2024.)
O relatório também evidencia a importância de diferenciar o uso frequente do uso problemático. A quantidade de horas diante de uma tela, isoladamente, não explica toda a relação de um jovem com a tecnologia.
Em 2024, as Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos publicaram um relatório sobre redes sociais e saúde de adolescentes, discutindo tanto os possíveis benefícios quanto os riscos desses ambientes. Entre os temas abordados estão o assédio virtual, o desenho das plataformas, a transparência e a necessidade de ampliar a educação para o uso crítico das mídias digitais.
Portanto, a discussão não deve se limitar a classificar a internet como vilã ou solução. É necessário compreender como o ambiente digital se relaciona com as condições emocionais, familiares e sociais de cada jovem.
A necessidade de aprovação e o peso da comparação.
Curtidas, comentários, seguidores e visualizações podem funcionar como indicadores de reconhecimento social. Para um adolescente que ainda está construindo sua identidade, essas respostas podem adquirir um significado que ultrapassa o simples entretenimento.
Uma publicação que recebe pouca atenção pode ser interpretada como rejeição. A imagem de alguém aparentemente mais bonito, popular ou bem-sucedido pode alimentar sentimentos de inferioridade.
Nas redes sociais, a comparação acontece repetidamente e, muitas vezes, envolve versões cuidadosamente selecionadas da vida alheia. O jovem compara suas inseguranças e dificuldades com imagens que mostram apenas determinados momentos de outras pessoas.
Sob um olhar psicanalítico, essa dinâmica permite refletir sobre a diferença entre construir uma percepção própria de valor e depender continuamente do olhar externo para sentir-se aceito.
Quando a aprovação se torna uma condição para sentir-se bem consigo mesmo, a liberdade de experimentar, errar e expressar a própria individualidade pode ficar comprometida.
Isso não significa que todos os jovens estejam presos a essa dinâmica, mas que ela merece atenção quando começa a produzir sofrimento persistente.
E quando falta espaço para conversar dentro de casa?
A preocupação dos pais com o uso excessivo de celulares é legítima. Crianças e adolescentes precisam de limites, proteção e orientação para utilizar a tecnologia de maneira segura.
Entretanto, quando toda conversa sobre o assunto se transforma em cobrança, o conflito pode aumentar.
O adolescente ouve que passa tempo demais no celular, os pais sentem que perderam o controle da situação e ambos acabam se afastando. Quanto maior a tensão, menor pode ser a disposição para compartilhar dificuldades.
Nem sempre isso acontece porque a família não se importa. Muitas vezes, os adultos tentam proteger os filhos utilizando os recursos que conhecem, sem perceber que a forma de abordar o problema também influencia a relação.
Existe uma diferença entre perguntar por que um jovem não larga o celular e perguntar o que ele encontra ali que torna tão difícil se afastar.
A segunda pergunta não elimina a necessidade de limites. Ela acrescenta algo essencial: a tentativa de compreender.
O UNICEF destaca a importância de espaços de escuta, apoio e orientação para a saúde mental de adolescentes, além de reconhecer que o ambiente digital pode oferecer benefícios e apresentar riscos.
Antes de transformar o celular em inimigo, vale descobrir se o jovem sente que pode falar sobre suas dificuldades sem ser imediatamente julgado.
O que as famílias podem fazer?
A primeira medida é observar mudanças no cotidiano. O isolamento crescente, as alterações persistentes no sono, o abandono de atividades, as dificuldades escolares e o sofrimento intenso merecem atenção. Nenhum desses sinais, isoladamente, estabelece um diagnóstico, mas eles podem indicar a necessidade de uma conversa mais cuidadosa e de avaliação profissional.
Também é importante estabelecer limites coerentes para o uso das telas, proteger os horários de descanso e preservar momentos de convivência sem dispositivos eletrônicos.
Essas medidas funcionam melhor quando acompanhadas de diálogo. Conhecer os interesses do adolescente, conversar sobre os conteúdos que consome e discutir os riscos das interações virtuais ajuda a construir uma relação de confiança.
A família também pode incentivar atividades presenciais, esportes, música, encontros com amigos e outras experiências que ampliem as possibilidades de prazer e pertencimento.
O objetivo não deve ser apenas retirar o celular das mãos do jovem, mas ajudá-lo a construir uma vida na qual não dependa exclusivamente da internet para encontrar satisfação, reconhecimento ou companhia.
Quando houver sinais de sofrimento emocional persistente, procurar ajuda profissional pode ser um passo importante.
Uma geração que precisa ser compreendida.
É fácil atribuir as dificuldades dos jovens à falta de resistência, ao excesso de tecnologia ou às diferenças entre gerações. Essas explicações, porém, podem deixar de lado questões fundamentais sobre identidade, vínculos, expectativas sociais e saúde mental.
A internet não é necessariamente a causa do sofrimento, assim como estar conectado não significa estar bem. Para alguns jovens, ela representa apoio e pertencimento; para outros, pode ampliar inseguranças ou facilitar o afastamento de experiências importantes.
A psicanálise contribui para essa discussão ao propor uma escuta que considere a singularidade de cada história. Em vez de presumir que todos os jovens se refugiam na internet pelo mesmo motivo, busca compreender o significado que esse comportamento assume na vida de cada um.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas por que os jovens passam tanto tempo conectados, mas o que acontece quando precisam se desconectar.
Quando a internet se transforma no único lugar em que um jovem acredita ser aceito, precisamos olhar além da tela e compreender a necessidade de pertencimento que pode estar pedindo atenção.
Essa necessidade não se resolve apenas com proibições. Ela exige presença, diálogo, limites e relações nas quais seja possível falar sobre o que dói sem precisar esconder as próprias fragilidades.
Fontes e referências:
- Organização Mundial da Saúde (OMS). A focus on adolescent social media use and gaming, 2024.
https://www.who.int/europe/publications/i/item/9789289061322 - UNICEF Brasil. Saúde mental adolescente e mídia social.
https://www.unicef.org/brazil/saude-mental-adolescente-e-midia-social - National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. Social Media and Adolescent Health, 2024.
https://www.nationalacademies.org/projects/HMD-BPH-21-14/publication/27396 - UNICEF Brasil. Saúde mental de adolescentes e jovens.
https://www.unicef.org/brazil/relatorios/saude-mental-de-adolescentes
Nota editorial
Este artigo tem caráter informativo e reflexivo, com uma abordagem psicanalítica sobre o uso da internet por adolescentes e jovens. Não pretende estabelecer diagnósticos nem atribuir o sofrimento juvenil a uma causa única. A relação entre tecnologia e saúde mental é complexa e deve ser compreendida considerando fatores individuais, familiares e sociais. Em situações de sofrimento persistente, recomenda-se buscar orientação profissional adequada.

