Arte & MĂșsica

đŸŽ” MÚSICA E PSICANÁLISE, Naquela mesa, quando a ausĂȘncia continua ocupando um lugar.

‱
Getting your Trinity Audio player ready...

Por Leo Oliveira – PsicanĂĄlista

đŸŽŒ Ficha da mĂșsica

TĂ­tulo: Naquela Mesa
Compositor: Sérgio Bittencourt
Intérpretes: Elizeth Cardoso, Nelson Gonçalves e outros artistas
GĂȘnero: MPB / mĂșsica brasileira
Tema central: luto, memĂłria, saudade e vĂ­nculo entre pai e filho

A canção foi escrita por SĂ©rgio Bittencourt em homenagem ao seu pai, o mĂșsico Jacob do Bandolim, apĂłs sua morte. A obra posteriormente ganhou diferentes interpretaçÔes e ficou especialmente conhecida na voz de Nelson Gonçalves.

“Naquela mesa, ele sentava sempre…”

É uma frase simples.

Mas talvez seja justamente essa simplicidade que faça a mĂșsica doer tanto.

A letra completa pode ser consultada em fontes especializadas como o Cifra Club e o site oficial de Zeca Pagodinho, que também identifica Sérgio Bittencourt como compositor.

Quando a ausĂȘncia continua ocupando espaço.

Existem pessoas que partem, mas nĂŁo desaparecem completamente da nossa vida, elas continuam presentes em determinados lugares, objetos, cheiros, mĂșsicas e, principalmente, nas lembranças.
É justamente nesse territĂłrio que encontramos “Naquela Mesa”, composição de SĂ©rgio Bittencourt,
a mĂșsica nĂŁo fala apenas de alguĂ©m que morreu.

Ela fala de alguém que continua existindo dentro daquele que ficou e talvez seja justamente aí que a psicanålise encontre uma das questÔes mais interessantes da canção.

A mesa que deixou de ser um simples objeto.

A mesa, aparentemente um objeto cotidiano, ganha outro significado, ela passa a representar um lugar ocupado anteriormente por alguém, antes havia uma pessoa sentada ali.

Agora existe um espaço vazio.

Mas o vazio nĂŁo significa ausĂȘncia absoluta.

Paradoxalmente, aquele lugar vazio pode se tornar uma das formas mais concretas da presença da pessoa que partiu, é como se o objeto permanecesse fisicamente no mundo, enquanto a relação continuasse existindo na memória.

Na psicanĂĄlise, podemos pensar o luto como uma experiĂȘncia em que o sujeito precisa lidar com a perda de alguĂ©m que foi importante para sua vida e para sua prĂłpria constituição psĂ­quica.

NĂŁo se perde apenas uma pessoa.

Perdem-se também håbitos, expectativas, conversas, possibilidades e uma determinada versão de nós mesmos que existia naquela relação.

Quando a memória mantém alguém vivo.

Existe uma diferença importante entre lembrar alguém e elaborar uma perda, a memória pode preservar uma relação.

Mas elaborar o luto nĂŁo significa simplesmente esquecer, tambĂ©m nĂŁo significa deixar de sentir saudade, a elaboração envolve encontrar, pouco a pouco, uma maneira de continuar vivendo sem que a ausĂȘncia destrua completamente a possibilidade de seguir adiante.

E isso pode levar tempo.

Muito tempo.

Às vezes, a pessoa continua conversando internamente com quem morreu, lembra o que aquela pessoa diria, imagina como reagiria diante de determinada situação, volta mentalmente para determinados momentos.

Isso nĂŁo significa necessariamente que alguĂ©m esteja “preso ao passado”, pode significar que aquele vĂ­nculo continua fazendo parte da sua histĂłria, a questĂŁo psicanalĂ­tica talvez seja outra:

O que fazemos com aquilo que perdemos?

O pai que continua dentro do filho.

“Naquela Mesa” tambĂ©m pode ser lida como uma mĂșsica sobre transmissĂŁo.

Um pai não deixa apenas lembranças, ele pode deixar frases, valores, comportamentos, modos de enxergar o mundo, histórias familiares e até conflitos que permanecem atravessando geraçÔes, na perspectiva psicanalítica, as relaçÔes familiares participam da construção da subjetividade, por isso, quando um pai morre, não desaparece simplesmente uma figura externa.

Desaparece tambĂ©m uma presença que ocupava determinado lugar na histĂłria psĂ­quica daquele filho, e  esse lugar nĂŁo precisa simplesmente ser apagado.

Ele pode ser ressignificado.

O sujeito pode continuar carregando algo daquele pai sem precisar permanecer eternamente submetido Ă  ausĂȘncia dele.

É possível transformar a lembrança em parte da própria história.

LEIA TAMBÉM:  O DIVÃ DA ELEIÇÃO

A saudade também fala.

Existe uma tendĂȘncia de tratar o sofrimento como algo que precisa ser rapidamente eliminado.

“Supere.”

“Já passou.”

“VocĂȘ precisa seguir sua vida.”

Mas o luto nĂŁo funciona como uma tarefa com prazo de validade, a saudade pode aparecer anos depois, uma mĂșsica pode trazer alguĂ©m de volta por alguns minutos, uma cadeira vazia pode lembrar uma pessoa, um cheiro pode abrir uma porta para uma lembrança que parecia esquecida, e talvez o problema nĂŁo esteja em sentir, talvez esteja em acreditar que sentir significa nĂŁo ter avançado.

Seguir em frente não é necessariamente deixar alguém para trås, as vezes, seguir em frente significa aprender a caminhar carregando uma história que não pode mais continuar da mesma maneira.

A psicanĂĄlise nĂŁo manda esquecer.

Talvez uma das contribuiçÔes da psicanålise para pensar o luto seja justamente não tratar a dor como algo que precisa ser apagado imediatamente.

A pergunta nĂŁo precisa ser:

“Como faço para esquecer?”

Pode ser:

“O que essa pessoa significou para mim e o que faço agora com aquilo que ficou?”

Porque algumas pessoas realmente vĂŁo embora, mas aquilo que vivemos com elas pode continuar participando da nossa histĂłria e talvez seja isso que aquela mesa nos ensine, que existem lugares vazios que continuam dizendo alguma coisa, que algumas ausĂȘncias permanecem presentes e que lembrar nĂŁo Ă© necessariamente viver no passado.

Às vezes, lembrar Ă© simplesmente reconhecer que determinada pessoa fez parte de quem nos tornamos.

Para ouvir com outros ouvidos.

Na prĂłxima vez que vocĂȘ ouvir “Naquela Mesa”, talvez nĂŁo escute apenas uma mĂșsica sobre saudade.

Escute a mesa.

Escute o silĂȘncio daquele lugar.

Escute a ausĂȘncia.

E principalmente, escute aquilo que permanece.

Porque talvez o luto não seja apenas sobre aprender a viver sem alguém, talvez também seja sobre descobrir como continuar vivendo com tudo aquilo que essa pessoa deixou dentro de nós.

đŸŽ™ïž MĂșsica e PsicanĂĄlise.

MĂșsica e PsicanĂĄlise Ă© uma coluna de Leo Oliveira, Psicanalista, para o Arena Remix.

Aqui, mĂșsicas conhecidas serĂŁo revisitadas atravĂ©s de uma perspectiva psicanalĂ­tica, buscando compreender os desejos, conflitos, perdas, vĂ­nculos, memĂłrias e contradiçÔes humanas que aparecem por trĂĄs de cada canção.

Porque algumas mĂșsicas a gente escuta.
E outras parecem escutar a gente.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira Ă© esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna SaĂșde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na ĂĄrea da saĂșde mental com um olhar voltado Ă  compreensĂŁo do comportamento humano, das relaçÔes e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a PsicanĂĄlise da vida real, utilizando uma linguagem acessĂ­vel, direta e humana, sem excesso de termos tĂ©cnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteĂșdo, aborda temas como relacionamentos, famĂ­lia, dependĂȘncia emocional, narcisismo, infĂąncia, ansiedade, autoconhecimento e os padrĂ”es que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna SaĂșde e Bem-Estar, Leonardo propĂ”e uma reflexĂŁo sobre como cuidamos de nĂłs mesmos, das nossas relaçÔes e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos tambĂ©m Ă© uma forma de cuidar de nĂłs.

Redes sociais

Deixe uma resposta