Saúde e bem estar

Você já se perguntou por que sente necessidade de agradar todo mundo?

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Existe uma diferença entre ser uma pessoa gentil e precisar da aprovação dos outros para se sentir em paz.

Por Leo Oliveira – Psicanalista

Você diz “sim” quando queria dizer “não”, ceita coisas que incomodam, vita discordar, pede desculpas mesmo quando não fez nada de errado, fica preocupado quando alguém está chateado com você e  muitas vezes, faz de tudo para não decepcionar ninguém.

Por fora, pode parecer gentileza, por dentro, pode existir medo.

Medo de ser rejeitado,  de decepcionar,  de perder alguém, de ser considerado egoísta.

E talvez exista uma pergunta que quase nunca fazemos:

“Por que eu preciso tanto que as pessoas gostem de mim?”

Agradar pode ser uma estratégia aprendida.

Ninguém nasce sabendo que precisa agradar os outros, aprendemos isso nas relações, uma criança pode perceber muito cedo que determinados comportamentos aproximam os adultos, enquanto outros provocam afastamento, críticas ou conflitos.

Ela aprende, então, a observar.

“Quando eu faço isso, minha mãe fica feliz.”

“Quando eu discordo, meu pai fica bravo.”

“Quando eu não dou trabalho, todos ficam satisfeitos.”

Aos poucos, pode surgir uma associação perigosa:

ser amado passa a parecer dependente de ser agradável.

É importante não transformar essa hipótese em uma explicação universal. Cada história é singular e diferentes fatores podem contribuir para esse funcionamento, mas para algumas pessoas, agradar deixa de ser uma escolha e passa a ser uma forma de se proteger.

Quando o “sim” esconde um “não”.

Existe uma diferença importante entre generosidade e submissão, a pessoa generosa ajuda porque deseja ajudar, a pessoa que precisa agradar pode ajudar porque tem medo do que acontecerá se não ajudar ,essa é uma diferença silenciosa.

Ela diz:

“Pode deixar, eu faço.”

Mas por dentro pensa:

“Se eu não fizer, vão ficar decepcionados comigo.”

E assim vai acumulando pequenas renúncias, até que um dia percebe que está cansada, irritada e ressentida, mas nem sempre consegue entender por quê.

Afinal, ninguém obrigou.

Ela mesma disse “sim”.

O problema é que todo “sim” também contém um “não”.

Quando você aceita algo que não queria aceitar, está dizendo “não” para alguma outra coisa.

Para o seu descanso, o seu tempo, para o seu limite, para o seu desejo, para aquilo que você realmente gostaria de fazer, por isso viver tentando agradar todo mundo pode produzir uma consequência paradoxal:

Quanto mais você tenta não decepcionar os outros, mais corre o risco de decepcionar a si mesmo.

E a culpa aparece.

Para quem está acostumado a agradar, estabelecer limites pode provocar culpa.

A pessoa diz “não” e imediatamente pensa:

“Será que fui egoísta?”

“Será que magoei?”

“Será que vão pensar mal de mim?”

Mas sentir culpa não significa necessariamente que você fez algo errado, às vezes, a culpa aparece simplesmente porque você fez algo que não estava acostumado a fazer:

Colocou um limite.

E aprender a suportar essa culpa pode fazer parte de uma mudança importante.

O olhar do outro.

A psicanálise pode nos ajudar a pensar uma questão ainda mais profunda:

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Quanto daquilo que fazemos é realmente nosso desejo e quanto é uma tentativa de corresponder ao desejo do outro?

Desde cedo, somos atravessados pelo olhar das pessoas que nos cercam.

Queremos ser reconhecidos, ser amados, queremos pertencer.

Isso não é um problema.

O problema pode surgir quando a pergunta “o que eu desejo?” é constantemente substituída por:

“O que esperam que eu seja?”

Nesse momento, a vida pode começar a ser construída em torno da aprovação.

A pessoa se adapta tanto que, depois de algum tempo, já não sabe exatamente onde termina a expectativa dos outros e começa o próprio desejo.

Você não precisa ser necessário para ser amado.

Talvez essa seja uma das maiores dificuldades para quem vive tentando agradar, descobrir que algumas pessoas podem ficar decepcionadas com você.

Que algumas podem discordar, que algumas podem até não gostar de determinada escolha sua, e ainda assim, você continuar sendo digno de amor e respeito,  estabelecer limites não transforma automaticamente alguém em uma pessoa egoísta.

Dizer “não” não significa deixar de amar.

Discordar não significa rejeitar.

Escolher a si mesmo em determinado momento não significa abandonar todo mundo.

E talvez a pergunta não seja “como faço para parar de agradar?”

Talvez seja:

“O que eu acredito que vai acontecer se eu parar?”

Essa pergunta muda tudo.

Porque talvez exista uma história por trás daquele medo, exista uma necessidade antiga de aprovação, exista uma dificuldade em suportar conflitos, exista medo de abandono.

Ou talvez simplesmente exista uma pessoa que passou tanto tempo tentando ser aquilo que os outros esperavam que acabou se afastando do próprio desejo.

A psicanálise não oferece uma receita para deixar de agradar.

Ela oferece um espaço para escutar aquilo que existe por trás dessa necessidade, porque, no fundo, talvez você não esteja tentando agradar todo mundo.

Talvez esteja tentando garantir que ninguém tenha um motivo para ir embora.

E essa é uma pergunta muito mais profunda.

Você está sendo gentil porque quer?

Ou está sendo agradável porque tem medo do que pode acontecer se disser não?

Talvez descobrir a diferença seja o começo de uma relação mais honesta, inclusive com você mesmo.

Nota editorial

Este conteúdo apresenta uma reflexão psicanalítica sobre a necessidade de aprovação e não deve ser utilizado para diagnosticar comportamentos ou transtornos. A necessidade de agradar pode ter diferentes origens e significados para cada pessoa. Quando esse padrão provoca sofrimento significativo, dificuldades nos relacionamentos ou prejuízos na vida cotidiana, buscar acompanhamento profissional pode ajudar a compreender sua origem e seus efeitos.

Fontes

  • Freud, Sigmund. O Eu e o Id (1923).
  • Freud, Sigmund. Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921).
  • Winnicott, D. W. O Ambiente e os Processos de Maturação — reflexões sobre verdadeiro e falso self e adaptação às demandas ambientais.
  • Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade — contribuições sobre espontaneidade, criatividade e constituição do self.
Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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