Saúde e bem estar

Todo excesso esconde uma falta

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O que a psicanálise freudiana pode revelar por trás daquilo que nunca parece ser suficiente

Por Leo Oliveira – Psicanalista.

Há pessoas que trabalham demais.
Outras compram demais, comem demais, bebem demais, fazem sexo demais, acumulam relacionamentos, precisam constantemente de atenção ou passam horas tentando controlar cada detalhe da própria vida.

À primeira vista, parecem apenas comportamentos excessivos.

Mas a psicanálise nos convida a fazer outra pergunta:

O que esse excesso está tentando preencher?

É importante não transformar essa ideia em uma regra absoluta. Nem todo excesso necessariamente nasce de uma falta, e um comportamento excessivo pode ter diferentes causas. Mas, para Freud, o comportamento humano não é explicado apenas pelo que é consciente. Muitas vezes, aquilo que fazemos revela conflitos, desejos e necessidades que não conseguimos reconhecer diretamente.

É justamente aí que o excesso pode ganhar outro significado.

Quando ter mais não resolve

Freud colocou o princípio do prazer no centro de sua compreensão do funcionamento psíquico. Buscamos satisfação e tentamos evitar o desprazer. Mas existe um problema: a satisfação nunca encerra definitivamente o desejo humano.

Em O mal-estar na civilização (1930), Freud observa que a felicidade, entendida como satisfação plena e permanente, não pode ser completamente realizada. A satisfação de uma necessidade pode produzir prazer, mas esse estado não permanece indefinidamente.

Isso ajuda a compreender uma experiência bastante comum:

A pessoa compra aquilo que queria e, pouco depois, já deseja outra coisa.

Conquista alguém e rapidamente precisa de novas provas de amor.

Recebe reconhecimento, mas logo precisa de mais.

Trabalha cada vez mais, mas nunca sente que fez o suficiente.

Come até não aguentar mais, mas a sensação de vazio permanece.

O problema, portanto, pode não estar na quantidade.

Pode estar naquilo que a quantidade está tentando resolver.

O excesso como tentativa de satisfação

Na perspectiva freudiana, o sintoma não é simplesmente um comportamento absurdo ou sem sentido. Ele pode funcionar como uma formação que expressa, de maneira deformada, algo que não conseguiu encontrar outra forma de manifestação.

Um excesso pode cumprir uma função psíquica.

A comida pode não ser apenas comida.

O trabalho pode não ser apenas trabalho.

O consumo pode não ser apenas consumo.

A necessidade constante de sexo pode não estar relacionada somente ao prazer sexual.

A necessidade de controlar tudo pode não ser apenas perfeccionismo.

Em determinados casos, aquilo que aparece como excesso pode estar oferecendo uma satisfação substitutiva para algo que permanece sem elaboração. Freud relaciona os sintomas justamente a formas substitutivas de satisfação que podem, ao mesmo tempo, produzir sofrimento.

Por isso, simplesmente retirar o comportamento pode não resolver o conflito.

É preciso perguntar:

“O que isso está fazendo por você?”

Nem sempre queremos aquilo que pensamos querer

Essa talvez seja uma das contribuições mais desconcertantes da psicanálise.

O sujeito nem sempre sabe exatamente por que faz aquilo que faz, podemos acreditar que estamos procurando dinheiro, quando talvez estejamos procurando reconhecimento.

Podemos acreditar que queremos um relacionamento, quando talvez estejamos tentando escapar da solidão.

Podemos acreditar que queremos controlar o outro, quando talvez estejamos tentando controlar uma angústia interna.

Podemos acreditar que queremos prazer, quando talvez estejamos tentando silenciar alguma coisa.

É por isso que Freud desloca a pergunta do comportamento manifesto para aquilo que existe por trás dele.

Não basta perguntar “o que você faz?”. É preciso perguntar “por que isso se repete?”.

Quando o excesso deixa de produzir prazer

Existe ainda outro ponto importante na obra de Freud: a compulsão à repetição.

Em Além do princípio do prazer (1920), Freud observa que o sujeito pode repetir experiências e padrões mesmo quando eles não produzem prazer evidente — e, algumas vezes, mesmo quando produzem sofrimento.

Isso muda completamente a compreensão do excesso.

Porque nem todo excesso é prazeroso.

Às vezes, a pessoa repete justamente aquilo que diz querer evitar.

Escolhe relacionamentos semelhantes.

Entra novamente em conflitos parecidos.

Procura aprovação e volta a se sentir insuficiente.

Tenta preencher um vazio e termina sentindo o mesmo vazio.

Nesse ponto, o comportamento já não parece simplesmente uma busca por prazer.

Parece uma repetição.

E aquilo que se repete pode estar apontando para algo que ainda não foi elaborado.

O excesso pode esconder uma pergunta

Talvez seja por isso que algumas pessoas tenham tanta dificuldade de parar, não porque simplesmente “não têm força de vontade”.

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Mas porque aquele comportamento pode estar cumprindo uma função psíquica que ainda não foi compreendida.

O sujeito não está apenas fazendo alguma coisa.

Ele está, de alguma maneira, tentando responder a uma questão.

“Eu sou importante?”

“Alguém vai ficar?”

“Eu sou desejável?”

“Eu sou suficiente?”

“Eu tenho valor?”

“Posso ser amado?”

“Posso relaxar sem perder tudo?”

O excesso pode funcionar como uma resposta improvisada para perguntas que continuam sem resposta.

E quanto mais profunda é a falta, maior pode ser a necessidade de repetir a tentativa de preenchê-la.

Mas existe uma diferença entre falta e vazio

Aqui precisamos ter cuidado.

A psicanálise não afirma simplesmente que todo comportamento exagerado nasce de uma “carência”.

A experiência humana é mais complexa.

Além disso, a falta não significa necessariamente que exista algo concreto que possa ser colocado no lugar dela, Freud não apresenta o sujeito como alguém que encontrará um objeto perfeito capaz de produzir satisfação definitiva. Pelo contrário: a própria dinâmica do desejo e da satisfação mostra que a realização humana é marcada por limites e conflitos.

Por isso, talvez a questão não seja:

“O que está faltando para eu finalmente ficar completo?”

Mas:

“O que estou tentando fazer com aquilo que me falta?”

Essa é uma pergunta muito mais psicanalítica.

O problema talvez não seja o excesso

Imagine alguém que trabalha 14 horas por dia.

A pergunta imediata seria:

“Por que você trabalha tanto?”

A psicanálise talvez faça uma pergunta diferente:

“O que acontece quando você para?”

Imagine alguém que precisa constantemente de atenção.

Em vez de perguntar apenas:

“Por que você precisa tanto de aprovação?”

Talvez seja necessário perguntar:

“O que você sente quando ninguém está olhando?”

Para alguém que não consegue ficar sozinho:

“O que aparece quando não existe ninguém para ocupar esse espaço?”

Para alguém que precisa controlar tudo:

“O que você teme que aconteça se perder o controle?”

É nesse deslocamento que começa a escuta psicanalítica.

Porque, muitas vezes, o excesso é apenas a parte visível de uma história que ainda não encontrou palavras.

Talvez não seja sobre ter mais

Vivemos em uma cultura que frequentemente oferece uma solução quantitativa para problemas subjetivos.

Está triste? Compre alguma coisa.

Está sozinho? Encontre alguém.

Está frustrado? Trabalhe mais.

Está inseguro? Mostre mais resultados.

Está vazio? Consuma.

Mas a subjetividade não funciona como uma conta bancária, nem sempre aquilo que falta pode ser compensado e colocado mais coisas dentro.

Às vezes, quanto mais tentamos preencher, mais evidente fica o buraco.

E talvez seja justamente aí que a psicanálise tenha algo a dizer.

Nem todo excesso precisa ser eliminado. Alguns excessos precisam ser escutados.

Porque por trás de uma repetição pode existir uma história.

Por trás de uma compulsão, um conflito.

Por trás de uma busca incessante, um desejo.

E por trás de determinados excessos, talvez exista uma falta que não pede necessariamente para ser preenchida.

Pede para ser reconhecida.

Nota editorial

Este artigo apresenta uma reflexão inspirada em conceitos da psicanálise freudiana. A expressão “todo excesso esconde uma falta” não é uma formulação literal de Sigmund Freud e não deve ser entendida como uma regra universal sobre comportamentos excessivos.

Excessos podem ter diferentes origens e significados, e sua compreensão depende da história e da singularidade de cada sujeito. O objetivo do texto é apresentar, de maneira acessível, uma possibilidade de leitura psicanalítica sobre a relação entre excesso, satisfação, desejo, sintoma e repetição.

Fontes

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). Texto fundamental para a compreensão freudiana da compulsão à repetição e da relação entre repetição, prazer e desprazer.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Obra em que Freud discute, entre outros temas, os limites da felicidade, a satisfação pulsional e os conflitos entre indivíduo e civilização.

LEVINE, Howard B. “The compulsion to repeat: An introduction”. The International Journal of Psychoanalysis, 2020. Discussão contemporânea sobre a compulsão à repetição na tradição psicanalítica.

CAMPOS, Érico Bruno Viana; COELHO, N. E. “Freud e o sintoma nas Conferências introdutórias: algumas considerações”. Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica. Discussão sobre sintoma, satisfação, libido e compulsão à repetição na obra freudiana.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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