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Vacina da UFMG busca bloquear efeitos de cocaína e crack

Pesquisadora Raíssa Lima Pereira, da UFMG, segura frasco contendo a formulação do imunizante Calixcoca. Imagem: UFMG. Calixcoca induz anticorpos contra a droga, mas ainda não foi testada em humanos nem está disponível para tratamento.

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Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais desenvolveram a Calixcoca, uma vacina terapêutica experimental que busca reduzir os efeitos da cocaína e do crack no cérebro.

A estratégia é estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos capazes de se ligar às moléculas da droga na corrente sanguínea e dificultar sua passagem pela barreira hematoencefálica.

O projeto já apresentou resultados em estudos pré-clínicos com animais, mas ainda não demonstrou segurança e eficácia em seres humanos. Segundo a Fundep, os pesquisadores preparavam a documentação para solicitar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorização para iniciar um estudo clínico de fase 1.

A etapa inicial em humanos terá como objetivo principal verificar segurança, efeitos adversos e comportamento do produto no organismo. Portanto, a Calixcoca não deve ser apresentada como cura comprovada ou como vacina disponível para pessoas com dependência de cocaína ou crack.

Como a vacina pretende funcionar

A cocaína atravessa a barreira hematoencefálica e alcança o sistema nervoso central, onde interfere em circuitos relacionados à recompensa e à compulsão. O crack produz efeitos semelhantes porque é uma forma fumada da cocaína, com absorção rápida e alta capacidade de provocar dependência.

A Calixcoca pretende induzir a produção de anticorpos que reconheçam as moléculas da droga no sangue. Quando ligados à cocaína, esses anticorpos formariam complexos maiores, com menor capacidade de atravessar a barreira que protege o cérebro.

Com menos droga chegando ao sistema nervoso central, a expectativa é reduzir os efeitos de euforia e recompensa associados ao consumo. A finalidade proposta é auxiliar pacientes que já estejam em tratamento e diminuir o risco de recaída, não impedir fisicamente todo consumo nem substituir acompanhamento médico, psicológico e social.

“Demonstramos a redução dos efeitos, o que sugere eficácia no tratamento da dependência. Pensamos em utilizar o fármaco para evitar recaídas em pacientes que estão em tratamento, dando mais tempo para eles reconstruírem sua vida sem a droga”, afirmou Frederico Garcia, um dos coordenadores da pesquisa.

Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP. Imagem da UFMG

Resultados ainda são pré-clínicos

A pesquisa começou em 2015 e passou por testes em animais. A equipe afirma ter observado produção de anticorpos, redução da ação da cocaína no sistema nervoso central e sinais de segurança nos modelos avaliados.

Esses resultados são necessários para solicitar o início de estudos clínicos, mas não permitem concluir que o mesmo efeito ocorrerá em pessoas. Diferenças de metabolismo, dose, resposta imunológica e condições de saúde podem alterar o resultado quando um produto passa de animais para seres humanos.

A fase 1, caso autorizada, normalmente envolve um grupo pequeno de voluntários e se concentra na segurança. Mesmo que o produto seja considerado seguro nessa etapa, ainda serão necessários estudos posteriores para medir eficácia, dose, duração da resposta imunológica e impacto sobre recaídas.

Próximo passo depende da Anvisa

Segundo a Fundep, os pesquisadores estavam finalizando documentos para submeter à Anvisa o pedido de autorização do estudo de fase 1. A previsão apresentada pela instituição era de que os primeiros estudos em humanos pudessem ocorrer em até dois anos, após a obtenção das autorizações e a organização do financiamento e da estrutura de pesquisa.

A expectativa da equipe era que a vacina pudesse se tornar um produto definitivo em três ou quatro anos. Esse prazo é uma projeção dos pesquisadores, não uma garantia de registro ou de chegada ao mercado.

Antes de qualquer eventual uso clínico, a Calixcoca precisará passar por todas as etapas regulatórias e demonstrar relação favorável entre benefícios e riscos. A Anvisa também deverá avaliar os protocolos, a fabricação, a qualidade do produto e os dados produzidos nos ensaios.

Recursos sustentam avanço da pesquisa

Em 2023, a UFMG e o Governo de Minas Gerais anunciaram um aporte de R$ 10 milhões para viabilizar a continuidade do desenvolvimento e a preparação da fase clínica. Os recursos foram associados à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais e à Secretaria de Estado de Saúde.

O projeto também recebeu 500 mil euros no Prêmio Euro Inovação na Saúde, aproximadamente R$ 2,6 milhões segundo os valores divulgados pela Fundep. O dinheiro foi destinado ao avanço da pesquisa.

A tecnologia é protegida nacional e internacionalmente pela UFMG, por meio da Coordenadoria de Transferência e Inovação Tecnológica. A universidade também busca parceiros para licenciar o produto, caso as etapas científicas e regulatórias sejam concluídas com resultados positivos.

Vacina não elimina o tratamento da dependência

A proposta da Calixcoca é terapêutica: ela seria usada como uma ferramenta adicional para pessoas que já estão em tratamento. A vacina não teria como objetivo prevenir o primeiro contato com a droga nem substituir a rede de atenção psicossocial.

A dependência química é uma condição complexa, influenciada por fatores biológicos, psicológicos e sociais. O tratamento pode envolver atendimento médico, psicoterapia, redução de danos, assistência social, apoio familiar e acompanhamento continuado.

Também será necessário avaliar se a redução dos efeitos da cocaína poderia levar alguns usuários a aumentar a dose ou combinar substâncias para tentar superar o bloqueio imunológico. Esse tipo de risco deverá ser investigado nos ensaios clínicos e no acompanhamento de longo prazo.

Especialistas pedem cautela com a divulgação

A descrição de uma “vacina contra o vício” facilita a compreensão do mecanismo, mas pode criar uma expectativa exagerada. A Calixcoca ainda é um candidato terapêutico em desenvolvimento, e os resultados obtidos em animais não equivalem à comprovação de eficácia em pacientes.

A expressão “desativa os efeitos” também precisa ser relativizada. O mecanismo pretende reduzir a chegada da droga ao cérebro, mas não significa necessariamente bloquear todos os efeitos, eliminar a compulsão ou impedir intoxicações. Além disso, o consumo de crack e cocaína pode envolver adulterantes e riscos cardiovasculares que não seriam automaticamente anulados pela vacina.

O projeto representa uma linha de pesquisa promissora, mas sua utilidade clínica dependerá dos resultados em humanos. Até que as etapas sejam concluídas, a Calixcoca deve ser tratada como uma tecnologia experimental, e não como tratamento aprovado.

Fontes

1.Fundep/UFMG — Vacina Calixcoca

2.UFMG — Universidade recebe recursos para avançar nos estudos da Calixcoca

3.UFMG — Governo de Minas anuncia recursos para o projeto

4.Revista Pesquisa Fapesp — Uma potencial vacina contra a cocaína

5.CNPq — Vacina desenvolvida por pesquisadores da UFMG

6.Rede Brasileira de Ensaios Clínicos — Calixcoca

*Aviso editorial: esta reportagem é informativa e não substitui avaliação de profissionais de saúde. A Calixcoca ainda não está disponível para uso clínico.

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Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

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