O senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado, teve a venda de um terreno avaliado em R$ 15,8 milhões barrada por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da 9ª fase da Operação Compliance Zero. A transferência do imóvel, localizado em Camaçari (BA), foi interrompida após o cartório de registro de imóveis receber uma ordem de bloqueio de bens determinada pelo ministro, que é relator do caso.
A investigação apura suspeitas de que o senador teria atuado em favor de interesses ligados ao Banco Master. A negociação do terreno, vendido para a Lagoons Empreendimentos — empresa que tem como sócio o Grupo City (City Football Group), gestor do Esporte Clube Bahia —, foi iniciada antes da operação, de acordo com a defesa do parlamentar, que nega irregularidades.
Terreno foi vendido para empresa ligada ao Grupo City
O terreno, avaliado em R$ 15,8 milhões, foi vendido para a Lagoons Empreendimentos, que integra o Grupo City — conglomerado que também comanda a SAF do Bahia. O imóvel faz parte de uma área de 4% do espaço onde será construído um empreendimento anexo ao centro de treinamento do clube, em Camaçari, na região metropolitana de Salvador.
O projeto foi anunciado oficialmente em outubro de 2025 pelo CEO do Grupo City, Ferran Soriano, ao lado do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT). O início das obras foi anunciado em fevereiro de 2026, com a presença de Wagner. O contrato, datado de 27 de fevereiro de 2025, mostra que o Bahia transferiu R$ 2 milhões para a conta de Wagner, que pagou R$ 87.770 de imposto sobre o valor.
Decisão de André Mendonça bloqueou bens do senador
Em 18 de junho, o ministro André Mendonça autorizou as medidas de busca e apreensão contra Jaques Wagner e determinou o bloqueio de contas, bens e valores. A partir daí, foram feitas notificações a bancos, cartórios e órgãos como a ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) para barrar quaisquer movimentações em curso. De acordo com interlocutores do STF, a medida é praxe no caso de alvos de investigação.
Dias após a operação de busca e apreensão feita pela Polícia Federal contra Wagner, o 1º Ofício de Registro de Imóveis de Camaçari (BA), cartório em que Wagner fez a venda do terreno, atendeu à ordem de Mendonça e barrou a transferência.
Defesa de Wagner afirma que negociação começou antes da operação
Em nota, a defesa do senador afirmou que “a venda do imóvel é resultado de uma negociação iniciada em 2024 e formalizada em 2025 pelo City Football Group, conforme demonstram os documentos”. “O acordo previa a permuta do imóvel por lotes do empreendimento e o pagamento antecipado de R$ 2 milhões, valor devidamente declarado, com o recolhimento do imposto sobre o ganho de capital”, diz a nota.
A Lagoons Empreendimentos informou que “o processo de aquisição de imóveis foi iniciado em 2024, dando início à compra de terrenos de diferentes proprietários, seguindo critérios técnicos relacionados à implantação do empreendimento”. A empresa afirmou que o terreno mencionado foi adquirido em maio de 2025 e que todas as aquisições seguiram critérios de mercado, validadas por consultorias independentes.
Tentativa de venda ocorreu após operação da PF
Apesar da versão da defesa, a Gazeta do Povo informou que a tentativa de venda ocorreu um dia após a operação da PF contra o senador. O pedido de registro da venda do terreno foi protocolado no 1º Ofício de Registro de Imóveis de Camaçari em 19 de junho — um dia depois da deflagração da 9ª fase da Compliance Zero, em 18 de junho. A transferência foi barrada após o cartório receber a ordem de bloqueio de bens determinada por Mendonça.
Além do terreno, Wagner também negociava a venda de um apartamento em Salvador por R$ 10 milhões, que também foi bloqueado em razão da decisão judicial. O senador teria recebido ao menos R$ 12 milhões referentes às negociações, de acordo com a Gazeta do Povo.
Investigações e consequências
A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de pagamentos de vantagens indevidas a agentes públicos ligados ao Banco Master. No caso de Wagner, a PF apura se o senador recebeu benefícios para atuar em favor dos interesses do empresário Daniel Vorcaro, controlador da instituição. A investigação cita um apartamento de luxo em Salvador, avaliado em R$ 2,5 milhões, que teria sido adquirido por uma empresa ligada a terceiros com recursos relacionados ao Master.
Na operação de 18 de junho, foram apreendidos US$ 55 mil e 33 mil euros (cerca de R$ 471 mil) em endereços ligados ao senador. Após a operação, Jaques Wagner deixou o cargo de líder do governo no Senado. Ele nega irregularidades, afirma que manteve apenas relações institucionais com os envolvidos e sustenta que não foi denunciado nem se tornou réu no caso.
Fontes: Portal STF

