Caminhão carregado com soja em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil, 16 de março de 2026. REUTERS/Diego Vara
A safra de soja 2026/27 do Brasil deverá registrar o menor crescimento de área plantada dos últimos 20 anos, refletindo um cenário de margens pressionadas, aumento dos custos de produção e maior cautela dos produtores rurais. A avaliação foi apresentada nesta terça-feira, em São Paulo, pelo diretor da consultoria Veeries, Fabio Meneghin, durante evento do setor agropecuário.
Segundo Meneghin, o plantio, previsto para começar em meados de setembro, deve avançar apenas cerca de 400 mil hectares em relação ao ciclo anterior, um crescimento considerado modesto para o maior produtor e exportador global da oleaginosa. A expansão reduzida ocorre após anos de rentabilidade mais apertada no campo, especialmente diante da volatilidade dos preços internacionais e do encarecimento dos insumos agrícolas.
Entre os principais fatores de pressão está a disparada no custo dos fertilizantes, agravada pelo conflito envolvendo o Irã e seus impactos nas cadeias globais de energia e logística. O aumento dos preços da ureia e de outros insumos nitrogenados ocorre em meio às dificuldades de abastecimento ligadas ao Estreito de Ormuz, rota estratégica para exportações do Oriente Médio. O Brasil, altamente dependente de fertilizantes importados, sente os efeitos quase de forma imediata.
De acordo com estimativas do setor, cerca de 85% dos fertilizantes consumidos pelo Brasil são importados, tornando o agronegócio nacional especialmente vulnerável às tensões geopolíticas internacionais. Em resposta ao aumento dos custos, produtores vêm postergando compras, renegociando contratos e reduzindo riscos operacionais para preservar margens.
Apesar da desaceleração nacional, a expansão da área deverá continuar em regiões mais competitivas, sobretudo no estado de Mato Grosso, principal polo produtor do país. Segundo Meneghin, áreas com histórico recente de maior rentabilidade ainda tendem a atrair investimentos, embora em ritmo significativamente inferior ao observado em ciclos anteriores. Projeções do setor apontam que o crescimento no estado pode ficar abaixo de 0,3%, indicando uma tendência de estabilização da fronteira agrícola da soja.
Mesmo com o avanço limitado da área cultivada, a produção brasileira de soja ainda deve crescer, impulsionada por ganhos de produtividade. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta uma colheita de aproximadamente 186 milhões de toneladas na safra 2026/27, acima da temporada anterior, consolidando o Brasil na liderança global do mercado da commodity.
Especialistas avaliam, porém, que um crescimento mais lento da oferta brasileira pode aumentar a sensibilidade do mercado internacional às condições climáticas e aos custos logísticos, ampliando a volatilidade dos preços globais da soja nos próximos meses.
Fonte: Reuters / Edição Luiz Gomes

