|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
Renan Santos, candidato à Presidência da República pelo partido Missão, defendeu o desenvolvimento de armas nucleares pelo Brasil e a adoção de medidas de exceção em áreas dominadas por facções criminosas durante entrevista exibida na noite de quarta-feira, 26 de agosto de 2026.
O candidato foi o terceiro entrevistado de uma série com seis postulantes ao Palácio do Planalto. Durante a sabatina, apresentou propostas nas áreas de segurança pública, economia, política externa e Previdência, além de responder a perguntas sobre declarações de aliados, violência contra mulheres e respeito às decisões do Supremo Tribunal Federal.
Defesa de armas nucleares
Renan afirmou que o Brasil precisa iniciar pesquisas e investimentos para desenvolver uma bomba atômica como instrumento de soberania e poder de dissuasão. Segundo ele, a medida permitiria ao país ocupar uma posição de maior relevância nas negociações internacionais.
“Não precisa de estudo científico para determinar que uma nação tem que ter força política para se defender”, afirmou o candidato
Ele reconheceu que o país não teria condições de produzir uma arma nuclear nos próximos dez anos, mas defendeu o início de um processo de pesquisa com objetivos de médio e longo prazo. Também propôs que o Brasil deixe o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e citou a Coreia do Norte como exemplo de país que, apesar do regime repressivo, seria respeitado por possuir armas atômicas.
A proposta enfrenta obstáculos constitucionais e diplomáticos. A Constituição determina que as atividades nucleares no território brasileiro tenham fins pacíficos, e o país é signatário do tratado internacional desde 1998.
Segurança pública com estado de exceção
Na área de segurança, Renan prometeu retomar territórios dominados por facções criminosas em até um ano de governo. Para isso, defendeu a declaração de guerra contra o crime organizado, o endurecimento das leis penais e a aplicação de um regime especial semelhante ao estado de defesa em favelas.
O candidato afirmou que pretende destinar R$ 6 bilhões à construção de presídios e R$ 5 bilhões por ano para operações contra organizações criminosas. Também mencionou o conceito de “direito penal do inimigo”, que prevê tratamento mais rigoroso para pessoas identificadas como integrantes de grupos criminosos.
Renan citou o modelo de segurança pública adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Questionado sobre denúncias de tortura, desaparecimentos e mortes sob custódia, disse não reconhecer os casos apresentados e classificou as críticas como um “clichê da mídia internacional”.
Ao ser confrontado com declarações anteriores sobre “banho de sangue”, o candidato manteve o tom. “O sangue que tem que jorrar não é do inocente, é do bandido”, afirmou, acrescentando que os brasileiros estariam pedindo uma guerra contra o crime.
Corte de gastos e nova reforma da Previdência
Renan prometeu reduzir em R$ 1,1 trilhão a trajetória de crescimento da dívida pública. Para alcançar o objetivo, defendeu uma nova reforma da Previdência e a desvinculação dos pisos constitucionais de saúde e educação.
A proposta permitiria, segundo ele, que municípios destinassem recursos de acordo com suas necessidades locais. Renan argumentou que cidades com população envelhecida precisariam de mais verbas para a saúde, enquanto municípios com forte crescimento populacional poderiam concentrar investimentos na educação.
“As vinculações fazem que eles sejam obrigados a gastar com educação, mesmo quase não tendo crianças”, declarou.
O candidato disse que a mudança liberaria recursos para investimentos em infraestrutura e prometeu transformar o país em “um canteiro de obras gigantesco”. Ele não apresentou, durante a entrevista, um detalhamento completo sobre como o corte de gastos seria executado nem quais seriam os impactos das medidas sobre os serviços públicos.
Críticas à China e às terras raras
Na política externa, Renan classificou o Brasil como “vassalo da China” e defendeu uma mudança na relação comercial e estratégica com o país asiático. Ele afirmou que o Brasil poderia usar suas reservas de terras raras como instrumento de negociação com os Estados Unidos.
O candidato disse que os Estados Unidos dependeriam da China para obter esses minerais. A afirmação foi contestada em checagem posterior: os norte-americanos possuem reservas, extração e processamento de terras raras, embora a China mantenha ampla liderança mundial no refino desses elementos.
O Brasil possui a segunda maior reserva global conhecida de terras raras, atrás apenas da China. A exploração desses minerais é considerada estratégica para setores como eletrônicos, veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares.
Mulheres, feminicídio e declarações de aliados
Questionado sobre feminicídio e violência contra crianças, Renan afirmou que seu programa não apresenta políticas específicas para cada crime. Segundo ele, o foco será o combate ao crime organizado, e as medidas de segurança alcançariam outros delitos de forma indireta.
O candidato também foi questionado sobre o fato de 92% dos filiados ao Missão serem homens e sobre declarações machistas feitas pelo ex-deputado Arthur do Val. Renan afirmou que o áudio em que o ex-parlamentar dizia que mulheres ucranianas eram “fáceis porque são pobres” foi inadequado, mas ressaltou que se tratava de uma conversa privada.
Sobre um aliado que defendeu a retirada do direito de voto de pessoas que recebem benefícios sociais, Renan disse que a declaração representava uma opinião individual. Mesmo assim, defendeu a participação do correligionário na elaboração do programa partidário.
Respeito às decisões do STF
Renan reafirmou que, se eleito, poderá descumprir decisões do Supremo Tribunal Federal que considere ilegais. “Decisão ilegal não se cumpre”, declarou, citando como exemplo uma decisão que classificou como “grotesca” sobre quebra de sigilo de fontes jornalísticas.
A afirmação amplia a tensão entre a candidatura e o Judiciário, uma vez que o cumprimento das decisões judiciais é princípio básico do Estado de Direito. O candidato também defendeu que qualquer cidadão poderia deixar de cumprir uma decisão que julgasse ilegal, sem apresentar os mecanismos institucionais que usaria para contestar essas determinações.
A entrevista foi avaliada com nota média de 2,6, em uma escala de 1 a 5. Os comentários destacaram que Renan se mostrou mais preparado, fluente e controlado do que em debates anteriores, mas apontaram contradições, propostas de difícil implementação e conteúdo autoritário em temas como segurança, armas nucleares e relação com o STF.
Fonte:
• g1 — Renan Santos é entrevistado na Globo; veja íntegra
• g1 Fato ou Fake — Veja o que é fato e o que é fake na entrevista de Renan Santos

