Saúde e Bem-Estar

RELACIONAMENTO ABERTO: CORAGEM DE AMAR OU MEDO DE ASSUMIR ALGO SÉRIO?

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Em tempos em que a liberdade afetiva ganha espaço, uma pergunta merece ser feita: estamos aprendendo novas formas de amar ou encontrando maneiras mais sofisticadas de fugir do compromisso?

Por Leo Oliveira – Psicanalista

O amor mudou ou foi a nossa disposição para assumir compromissos que mudou?

Durante muito tempo, amar alguém significava, quase obrigatoriamente, construir uma relação exclusiva. Namorar, casar, dividir a vida e, pelo menos na teoria, desejar apenas aquela pessoa. Hoje, os relacionamentos abertos desafiam essa tradição e apresentam outra possibilidade: amar alguém sem necessariamente estabelecer a exclusividade sexual ou afetiva, para alguns isso representa liberdade, honestidade e maturidade emocional. Para outros, parece uma tentativa de aproveitar os benefícios de um relacionamento sem assumir todas as responsabilidades que ele exige.

Mas será que a questão é tão simples?

Afinal, abrir um relacionamento exige coragem para enfrentar o ciúme, as inseguranças e os padrões sociais? Ou, em determinadas situações, pode ser uma maneira de manter alguém por perto enquanto se evita uma entrega mais profunda?

A resposta talvez esteja menos no modelo escolhido e mais nas razões que levam alguém a escolhê-lo.

A liberdade também pode esconder uma prisão.

Existe uma diferença importante entre desejar viver uma relação não monogâmica e propor um relacionamento aberto porque não se consegue sustentar determinados aspectos de um compromisso.

Uma pessoa pode desejar sinceramente compartilhar a vida com alguém sem exigir exclusividade. Isso não significa, por si só, ausência de amor, superficialidade ou incapacidade de assumir responsabilidades.

Entretanto, também existem situações em que o discurso da liberdade pode funcionar como uma defesa emocional.

Imagine alguém que deseja receber carinho, atenção, companhia e acolhimento, mas recua sempre que a relação exige conversas difíceis, responsabilidade afetiva ou maior envolvimento.

Nesse caso, a questão não é necessariamente a existência de outros parceiros, mas a dificuldade de sustentar os vínculos que já foram construídos.

Porque desejar liberdade é legítimo. Utilizar a liberdade como justificativa para fugir da responsabilidade é outra história.

E essa fuga, vale lembrar, também acontece em relacionamentos monogâmicos.

O que a psicanálise pode dizer sobre isso?

A psicanálise nos convida a olhar além daquilo que uma pessoa declara desejar.

Nem sempre sabemos exatamente por que fazemos determinadas escolhas. Nossos desejos podem conviver com medos, conflitos e experiências emocionais que nem sempre reconhecemos conscientemente.

O medo de perder a autonomia, de ser abandonado, de depender emocionalmente de alguém ou de repetir experiências dolorosas pode influenciar a maneira como construímos nossos relacionamentos.

Isso não significa que quem escolhe uma relação aberta esteja necessariamente fugindo da intimidade. Seria uma interpretação simplista e injusta.

A questão psicanalítica é outra: o que essa escolha representa para aquele sujeito, naquela relação e naquele momento da vida?

Para uma pessoa, a não monogamia pode expressar uma maneira autêntica de viver o amor. Para outra, pode estar associada a conflitos que merecem ser compreendidos.

Da mesma forma, alguém pode defender a monogamia por convicção ou permanecer em uma relação exclusiva simplesmente pelo medo de ficar sozinho.

O inconsciente não escolhe um único modelo de relacionamento para manifestar seus conflitos.

Quando um aceita por medo de perder o outro.

Talvez um dos aspectos mais delicados dessa discussão apareça quando apenas um dos parceiros deseja abrir a relação.

Imagine um casal em que uma pessoa propõe a abertura e a outra concorda, não porque compartilhe desse desejo, mas porque acredita que essa é a única maneira de evitar uma separação.

Aparentemente, existe um acordo.

Emocionalmente, porém, pode existir um conflito profundo, uma pessoa experimenta a liberdade que deseja. A outra tenta suportar uma situação que a machuca, na esperança de preservar o relacionamento.

Nesse cenário, a pergunta deixa de ser se o relacionamento aberto funciona e passa a ser se existe verdadeira liberdade para dizer não.

Consentimento não deveria ser confundido com resignação.

Quando alguém precisa abandonar os próprios limites para não ser abandonado, talvez o relacionamento já esteja custando mais do que deveria.

Essa reflexão não é uma condenação das relações abertas. É um questionamento sobre a diferença entre um acordo construído por duas pessoas e uma condição aceita pelo medo de perder alguém.

Mas quem disse que exclusividade é sinônimo de compromisso?

Aqui também precisamos questionar uma crença bastante difundida.

Existem casais monogâmicos que vivem relações marcadas por mentiras, negligência emocional, traições e ausência de diálogo.

Ao mesmo tempo, existem pessoas em relacionamentos consensualmente não monogâmicos que estabelecem acordos claros, compartilham responsabilidades e constroem vínculos duradouros.

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Uma meta-análise publicada em 2025 no The Journal of Sex Research, reunindo 35 estudos e 24.489 participantes, não encontrou diferenças estatisticamente significativas, em termos gerais, na satisfação amorosa ou sexual entre pessoas monogâmicas e não monogâmicas.

Isso não significa que todos os modelos funcionem igualmente para todas as pessoas. Significa que não podemos determinar a qualidade de um relacionamento apenas pela sua estrutura.

A fidelidade a um acordo não precisa ter exatamente o mesmo significado para todos os casais. Mas a honestidade, o respeito e o consentimento continuam sendo fundamentais.

Porque compromisso não é apenas uma promessa de exclusividade.

Compromisso também é responsabilidade pelo que se constrói com o outro.

O ciúme não desaparece quando o relacionamento se abre.

Outro equívoco é acreditar que pessoas que vivem relacionamentos abertos necessariamente superaram o ciúme ou alcançaram algum estágio superior de maturidade emocional.

O ciúme pode surgir em diferentes configurações afetivas. E sua existência, isoladamente, não determina se alguém é maduro, inseguro ou incapaz de amar.

A questão está na maneira como cada pessoa compreende e lida com o que sente.

Em uma relação aberta, conversar sobre limites, expectativas, envolvimento com terceiros e possíveis mudanças nos acordos pode exigir bastante diálogo.

Mas uma relação monogâmica saudável também necessita dessas conversas.

Nenhuma estrutura amorosa elimina automaticamente os conflitos humanos.

Afinal, podemos mudar as regras de uma relação sem necessariamente transformar os nossos medos.

Coragem para amar ou medo de se comprometer?

Talvez estejamos fazendo a pergunta errada quando tentamos decidir se todo relacionamento aberto é resultado de coragem ou de medo.

Existem pessoas corajosas que escolhem a monogamia. Existem pessoas corajosas que escolhem a não monogamia.

E existem pessoas que utilizam qualquer uma dessas escolhas para evitar enfrentar as próprias dificuldades emocionais.

O problema começa quando a liberdade de um depende do sofrimento silencioso do outro, quando os acordos são desrespeitados ou quando a palavra amor serve para justificar comportamentos que ferem.

Não existe maturidade afetiva em convencer alguém a aceitar aquilo que o machuca apenas para satisfazer os próprios desejos.

Mas também não existe maturidade em condenar automaticamente uma relação porque ela não corresponde ao modelo que escolheríamos para nós.

Amar não deveria significar possuir alguém. Mas também não deveria significar manter alguém emocionalmente disponível enquanto nos recusamos a reconhecer suas necessidades.

A reflexão final.

No fundo, a discussão sobre relacionamentos abertos revela uma questão que ultrapassa a sexualidade e os novos modelos afetivos.

Estamos realmente dispostos a construir relações nas quais nossos desejos possam ser expressos sem que os sentimentos do outro sejam ignorados?

Porque a dificuldade de assumir algo sério não está necessariamente em desejar mais de uma pessoa.

Às vezes, está na incapacidade de ser verdadeiro com uma única pessoa. Outras vezes, está na incapacidade de reconhecer que nossos desejos não são compatíveis com os dela.

Talvez a maior coragem no amor não esteja em abrir ou fechar um relacionamento, mas em assumir as consequências emocionais das nossas escolhas.

No fim das contas, a verdadeira questão não é quantas pessoas cabem em um relacionamento, mas quanta honestidade, respeito e responsabilidade somos capazes de colocar dentro dele.

Fontes e referências

  • ANDERSON, Joel R. et al. (2025). Countering the Monogamy-Superiority Myth: A Meta-Analysis of the Differences in Relationship Satisfaction and Sexual Satisfaction as a Function of Relationship Orientation. The Journal of Sex Research. Consultar estudo.
  • HANGEN, Forrest; CRASTA, Dev; ROGGE, Ronald D. (2020). Delineating the Boundaries Between Nonmonogamy and Infidelity: Bringing Consent Back Into Definitions of Consensual Nonmonogamy With Latent Profile Analysis. The Journal of Sex Research. Consultar estudo.
  • RODRIGUES, David L. (2024). A Narrative Review of the Dichotomy Between the Social Views of Non-Monogamy and the Experiences of Consensual Non-Monogamous People. Archives of Sexual Behavior. Consultar estudo.
  • FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). Obra utilizada como referência teórica para refletir sobre desejo, conflito psíquico e exigências da vida em sociedade.

Nota editorial

Este artigo apresenta uma reflexão psicanalítica sobre as diferentes formas de construir vínculos amorosos. O objetivo não é estabelecer a monogamia ou a não monogamia como modelo superior, tampouco atribuir características psicológicas a indivíduos com base em suas escolhas afetivas. A análise busca incentivar o diálogo sobre desejo, consentimento, limites e responsabilidade emocional. As interpretações psicanalíticas apresentadas são reflexões teóricas e não devem ser confundidas com conclusões empíricas dos estudos citados.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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