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A pergunta talvez não seja apenas quando colocar uma criança diante de uma tela, mas quando ela está preparada para começar a descobrir um mundo que não termina quando o celular é desligado.
Leo Oliveira — Psicanalista
Colunista do Arena Remix
Hoje, praticamente toda criança cresce cercada por tecnologia.
Celular, televisão, tablet, videogame, aplicativos, vídeos, chamadas de vídeo e, cada vez mais cedo, redes sociais.
Diante disso, muitos pais fazem a mesma pergunta:
“Com que idade meu filho pode começar a usar a internet?”
A resposta não é simplesmente “a partir de determinada idade”.
Porque existe uma diferença importante entre ter contato com tecnologia e ser colocado sozinho dentro do mundo digital.
Antes dos 2 anos: menos tela, mais presença
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar a exposição de crianças às telas antes dos 2 anos, mesmo que o conteúdo pareça educativo. A entidade reforça que a primeira infância é um período especialmente importante para o desenvolvimento e que o contato direto com adultos, brincadeiras e experiências concretas não deve ser substituído pela tela.
A Organização Mundial da Saúde também não recomenda tempo de tela sedentário para crianças de 1 ano. Para crianças de 2 anos, recomenda no máximo uma hora por dia, sendo que menos é melhor.
Isso não significa que uma criança pequena nunca verá uma tela.
Uma chamada de vídeo com um familiar, por exemplo, é muito diferente de deixar uma criança durante horas assistindo vídeos sozinha.
A questão está também na finalidade, na duração e na presença do adulto.
E dos 2 aos 5 anos?
É justamente nessa fase que muitos pais começam a introduzir desenhos, jogos e conteúdos educativos.
A recomendação da OMS é de até uma hora diária de tela sedentária para crianças de 2 a 4 anos. A Academia Americana de Pediatria também recomenda, dos 2 aos 5 anos, limitar o uso a cerca de uma hora por dia de conteúdo de qualidade e, sempre que possível, assistir junto com a criança.
Mas existe algo ainda mais importante:
A criança não deveria apenas consumir o conteúdo; ela precisa de alguém que a ajude a compreender aquilo que está vendo.
Uma criança pode assistir a uma história e conversar sobre os personagens.
Pode fazer uma atividade educativa e depois reproduzi-la no mundo real.
Pode fazer uma chamada de vídeo com os avós.
Nesse contexto, a tecnologia pode ser uma ferramenta.
O problema aparece quando ela começa a ocupar o lugar da brincadeira, da conversa, do contato físico, do sono e da convivência.
O problema não começa necessariamente na tela
Existe uma situação bastante comum dentro das famílias.
A criança chora.
O adulto entrega o celular.
A criança fica inquieta.
O celular aparece novamente.
Está na hora de comer.
O vídeo começa.
Está na hora de dormir.
Mais um desenho.
A criança está entediada.
Mais um vídeo.
Aos poucos, a tela deixa de ser apenas uma ferramenta de entretenimento e passa a funcionar como reguladora das emoções da criança.
E aqui existe uma questão importante para os pais.
A criança precisa aprender, progressivamente, que nem todo desconforto precisa ser imediatamente eliminado.
Tédio também faz parte da infância.
Esperar faz parte.
Frustração faz parte.
Brincar sem uma programação pronta faz parte.
Aprender a lidar com o “não” também faz parte.
Quando toda irritação é rapidamente silenciada por uma tela, perdemos algumas oportunidades de ensinar a criança a reconhecer e atravessar aquilo que está sentindo.
E quando chega a internet?
Existe uma diferença enorme entre assistir a um desenho escolhido pelos pais e navegar pela internet.
Na internet, a criança pode encontrar publicidade, conteúdos inadequados, desinformação, contatos com desconhecidos, mecanismos de recomendação, desafios, violência e diferentes formas de manipulação.
Por isso, ter idade para usar tecnologia não significa ter maturidade para navegar sozinho.
A questão não é mais imaginar se nossos filhos entrarão no mundo digital.
Eles provavelmente entrarão.
A questão é como vamos prepará-los para isso.
A criança precisa de limite, mas também precisa de referência
Proibir completamente a tecnologia pode não ser suficiente.
Liberar completamente também não.
A criança precisa encontrar adultos que estabeleçam limites, expliquem os riscos e, principalmente, sirvam de referência.
Não adianta dizer:
“Larga esse celular!”
enquanto o adulto passa o jantar inteiro olhando para o próprio telefone.
A educação digital começa muito antes de entregarmos o primeiro aparelho.
Ela começa na forma como a família utiliza a própria tecnologia.
Então, qual é a idade certa?
Não existe uma idade mágica em que uma criança acorda pronta para a internet.
As recomendações ajudam a estabelecer limites:
Antes dos 2 anos: evitar telas, salvo situações específicas como videochamadas.
Dos 2 aos 5 anos: uso limitado, conteúdo apropriado e, preferencialmente, acompanhado por um adulto.
A partir dos 6 anos: estabelecer limites que considerem a rotina individual da criança, garantindo que o uso digital não prejudique sono, atividade física, escola, convivência familiar e outras experiências importantes.
Mas existe uma pergunta que talvez seja ainda mais importante do que:
“Meu filho já tem idade para usar internet?”
Talvez seja:
“Meu filho já tem condições de aprender a usar a internet sem que a internet passe a usá-lo?”
Porque ensinar uma criança a mexer em um celular é relativamente fácil.
Ensinar uma criança a lidar com comparação, aprovação, frustração, publicidade, exposição, desconhecidos, pressão social e excesso de estímulos é outra história.
E essa segunda educação começa muito antes do primeiro perfil em uma rede social.
Nota editorial
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. As recomendações sobre uso de telas podem variar conforme idade, desenvolvimento e contexto individual da criança. Em situações específicas, pais e responsáveis devem buscar orientação de pediatras e outros profissionais qualificados.
Fontes
- Sociedade Brasileira de Pediatria — #Menos Telas #Mais Saúde – Atualização 2024.
- Organização Mundial da Saúde — Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age.
- American Academy of Pediatrics — recomendações sobre uso de mídia por crianças e adolescentes.

