Política

Por que atacar em vez de debater? Quando a esquerda transforma divergência em confronto.

•
Getting your Trinity Audio player ready...

Entre a defesa de causas sociais, a necessidade de estar certo e a dificuldade de aceitar opiniões contrárias, a psicanálise ajuda a compreender por que o debate político tantas vezes termina em ataques pessoais.

Por Leo Oliveira | Psicanalista

Existe uma diferença enorme entre defender uma ideia e atacar alguém por pensar diferente. Entretanto, no cenário político brasileiro, essa fronteira parece cada vez mais difícil de reconhecer.

Basta alguém questionar uma decisão do governo, discordar de determinada pauta social ou apresentar uma visão conservadora para que, em alguns ambientes políticos, a discussão deixe de ser sobre o argumento e passe a ser sobre o caráter de quem argumentou.

Em determinados setores da esquerda, palavras como “fascista”, “retrógrado”, “preconceituoso” e “ignorante” podem aparecer antes mesmo de qualquer tentativa de compreender o pensamento do outro.

É importante reconhecer que tais termos possuem significados reais e, em determinadas situações, podem descrever comportamentos ou posições concretas. O problema começa quando são utilizados indiscriminadamente, como substitutos do argumento.

Mas por que isso acontece? Por que algumas pessoas parecem tão dispostas a combater quem discorda delas, mesmo quando poderiam simplesmente debater?

E, principalmente, o que existe por trás dessa necessidade de transformar o adversário político em inimigo moral?

Quando a opinião política se torna parte da identidade.

A política não envolve apenas propostas econômicas, programas sociais ou modelos de governo. Para muitas pessoas, ela também representa pertencimento, reconhecimento e identidade, é justamente nesse ponto que a psicanálise oferece uma reflexão interessante.

Em sua obra Psicologia das Massas e Análise do Eu, publicada em 1921, Sigmund Freud examinou como os indivíduos se identificam com grupos, líderes e ideais coletivos.

Quando alguém se identifica profundamente com uma causa, uma crítica dirigida a essa causa pode ser vivenciada como se fosse uma crítica à própria pessoa, a discussão deixa de ser apenas racional e passa a envolver questões emocionais.

Em determinados grupos militantes da esquerda, por exemplo, pautas relacionadas à igualdade, à inclusão e à justiça social ocupam um lugar central na identidade política.

São preocupações legítimas, que merecem discussões sérias.

Entretanto, quando alguém passa a acreditar que suas posições representam não apenas uma proposta política, mas a própria definição do que é moralmente correto, surge um risco: interpretar qualquer discordância como sinal de inferioridade moral, nesse momento, o adversário deixa de ser alguém que pensa diferente e passa a ser visto como alguém que precisa ser combatido.

E quando uma pessoa acredita possuir o monopólio da virtude, ouvir o outro pode parecer menos importante do que condená-lo.

A necessidade de estar do lado certo.

Existe uma situação particularmente delicada nas discussões políticas: a sensação de superioridade moral.

Em determinados discursos, a mensagem parece ser a seguinte: quem concorda comigo é consciente, humanizado e comprometido com a sociedade. Quem discorda precisa ser esclarecido, corrigido ou rejeitado.

O problema desse raciocínio é que ele transforma a política em uma divisão simplista entre pessoas boas e pessoas ruins.

Sob uma interpretação psicanalítica, podemos pensar na dificuldade de reconhecer contradições em nós mesmos e nos grupos aos quais pertencemos.

Afinal, admitir que o adversário possa estar certo em determinado ponto não significa abandonar nossos valores. Significa reconhecer que nenhuma identidade política elimina a possibilidade de erro, mas essa admissão pode ser emocionalmente desconfortável.

É mais fácil desqualificar uma pessoa do que considerar seriamente um argumento capaz de abalar nossas certezas.

Isso não é exclusividade da esquerda. Setores da direita também recorrem a mecanismos semelhantes, substituindo argumentos por acusações e rótulos como “comunista” ou “inimigo da família”.

O ponto central não é estabelecer qual lado possui pessoas moralmente superiores, mas compreender por que a convicção política pode se transformar em intolerância.

O ataque como mecanismo de defesa.

Imagine a seguinte situação.

Alguém questiona os resultados de uma política pública. Em vez de apresentar números, explicar os objetivos do programa ou reconhecer suas limitações, outra pessoa responde acusando o interlocutor de não se importar com os pobres.

Perceba o que aconteceu.

A discussão começou sobre a eficiência de uma política pública e terminou em um julgamento sobre a sensibilidade humana de quem fez a pergunta.

Isso pode funcionar como uma maneira de evitar o desconforto provocado pela divergência.

Na linguagem psicanalítica, determinadas reações agressivas podem ser compreendidas como tentativas defensivas diante de sentimentos de ameaça, insegurança ou frustração.

Isso não significa que toda pessoa que ataca esteja insegura, nem permite diagnosticar alguém por seu posicionamento político.

Mas permite levantar uma pergunta importante:

Será que estamos defendendo nossas ideias ou tentando proteger nossa imagem de pessoas que estão sempre certas?

Há momentos em que o ataque não demonstra a força de uma convicção. Demonstra apenas a dificuldade de sustentá-la diante do contraditório.

As redes sociais recompensam a agressividade.

Existe ainda outro elemento nessa discussão: a maneira como as redes sociais transformaram a indignação em espetáculo.

LEIA TAMBÉM:  Alvaro Dias fora do Senado: líder nas pesquisas renuncia à candidatura.

Um comentário equilibrado pode passar despercebido. Uma resposta agressiva, carregada de ironia e indignação, pode receber milhares de curtidas.

Uma pesquisa publicada em 2021 na revista Science Advances, conduzida por William Brady e colaboradores, identificou que recompensas sociais e normas dos grupos nas redes podem estimular a repetição de manifestações de indignação moral.

Não é difícil perceber as consequências desse ambiente.

Em vez de convencer alguém que pensa diferente, muitas discussões parecem ter como objetivo conquistar aplausos de quem já concorda.

O debate se transforma em apresentação.

A agressividade vira demonstração de fidelidade ao grupo.

E a capacidade de escutar passa a ser confundida com fraqueza.

No Brasil, pesquisas sobre polarização afetiva também mostram como a identidade política pode alimentar sentimentos negativos entre grupos adversários.

Não há base suficiente para concluir que a esquerda, como um todo, ataque mais do que a direita. O que se observa é uma dinâmica de hostilidade que atravessa diferentes campos políticos, embora possa assumir formas distintas em cada um deles.

Defender a democracia exige aceitar o contraditório.

Talvez uma das maiores contradições do debate contemporâneo seja a facilidade com que algumas pessoas defendem a diversidade de pensamentos enquanto demonstram enorme dificuldade de conviver com opiniões diferentes das suas.

É claro que aceitar o contraditório não significa tolerar ameaças, discriminação ou discursos que incentivem violência.

Também não significa que todas as ideias possuam o mesmo fundamento ou mereçam concordância.

Mas existe uma diferença fundamental entre confrontar uma ideia com argumentos e tentar humilhar quem a apresenta.

Uma sociedade democrática precisa ser capaz de discutir programas sociais, desigualdade, segurança pública, valores familiares, economia e direitos individuais sem transformar cada discordância em uma guerra moral.

E essa responsabilidade pertence tanto à esquerda quanto à direita.

O direito de pensar diferente não deveria depender da autorização de quem acredita estar do lado correto da história.

A maturidade de quem consegue discordar

A psicanálise nos convida a reconhecer que não somos tão racionais quanto gostaríamos de acreditar.

Nossas opiniões também são atravessadas por emoções, experiências pessoais, desejos de pertencimento e identificações inconscientes.

Isso vale para o militante progressista, para o conservador, para o eleitor de esquerda, para o eleitor de direita e até para aquele que afirma não gostar de política.

Talvez a verdadeira maturidade política não esteja na capacidade de vencer discussões, mas na disposição de perceber que o outro pode apresentar argumentos relevantes, mesmo quando não concordamos com suas conclusões.

Questionar um governo não é necessariamente odiar seus eleitores.

Discordar de uma pauta progressista não significa automaticamente ser preconceituoso.

E defender valores conservadores não torna uma pessoa incapaz de reconhecer desigualdades sociais.

Da mesma forma, criticar posições conservadoras não deveria ser interpretado automaticamente como um ataque à liberdade ou à família.

Precisamos recuperar uma habilidade aparentemente simples: discordar sem desumanizar.

Considerações finais

A esquerda possui uma longa tradição de reivindicações sociais, debates intelectuais e defesa de direitos. Reduzir toda essa diversidade a um comportamento agressivo seria tão equivocado quanto afirmar que toda a direita é intolerante.

Isso, porém, não impede uma crítica necessária aos setores que utilizam a superioridade moral como justificativa para desqualificar adversários.

Da mesma forma, nenhum campo político deveria receber imunidade contra questionamentos simplesmente porque acredita defender uma causa justa.

A democracia não exige que todos concordem. Exige que possamos discordar sem transformar automaticamente o outro em inimigo.

E talvez a pergunta mais incômoda seja justamente esta:

Se a sua ideia é tão boa, por que você precisa atacar quem pensa diferente, em vez de demonstrar por que ela merece ser defendida?

Porque, no fim das contas, o debate deveria servir para confrontar ideias, não para destruir pessoas.

Fontes e referências

  • Sigmund Freud (1921). Psicologia das Massas e Análise do Eu. Obra sobre identificação, vínculos coletivos e fenômenos de grupo.
  • Brady, W. J. e colaboradores (2021). How Social Learning Amplifies Moral Outrage Expression in Online Social Networks. Science Advances.
  • Nature Communications (2024). Patterns of Partisan Toxicity and Engagement Reveal the Common Structure of Online Political Communication Across Countries.
  • Revista Agenda Política — UFSCar. Lula como elemento polarizante: Análise de Dados Topológica (TDA) para compreensão da polarização afetiva no Twitter. Estudo sobre a polarização afetiva e moralizante no Brasil.

Nota editorial

Este artigo apresenta uma reflexão opinativa fundamentada em conceitos psicanalíticos e pesquisas sobre comportamento político e polarização. Não pretende caracterizar todos os integrantes de uma corrente ideológica nem atribuir diagnósticos clínicos a pessoas por suas preferências políticas. Seu objetivo é estimular a reflexão sobre a intolerância, os ataques pessoais e a importância do contraditório no debate democrático.

Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

Redes sociais

Deixe uma resposta