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O delegado Leandro Almada, diretor de Inteligência Policial da Polícia Federal, foi afastado do cargo pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão divulgada nesta terça-feira (8) [1]. O afastamento, que também atingiu o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, é o mais recente episódio da crise instaurada no STF desde a semana passada.
Almada ficou conhecido nacionalmente por ter atuado no grupo de policiais federais criado para investigar o caso da morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em março de 2018. Ele também ganhou notoriedade por comandar a Superintendência da PF no Rio de Janeiro entre 2023 e 2024, além de já ter comandado as superintendências no Amazonas e na Bahia.
Trajetória na Polícia Federal
Graduado em Direito pela UERJ, Leandro Almada foi militar e delegado da Polícia Civil de Minas Gerais entre 1997 e 2007. Entrou na Polícia Federal em 2008.
Entre julho e setembro de 2020, foi diretor de Operações do Ministério da Justiça e Segurança Pública, durante o período em que André Mendonça ocupava o cargo de ministro da Justiça (29 de abril de 2020 a 29 de março de 2021) [2]. Ainda no governo Bolsonaro, Almada foi supervisor do Grupo de Investigações Ambientais Sensíveis (2020/2021).
Depois, foi superintendente regional da PF no Amazonas, substituindo o delegado Alexandre Saraiva, que enviou ao STF um pedido de investigação contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.
Investigação sobre Marielle Franco
Com a entrada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no governo, Almada foi designado superintendente da PF no Rio de Janeiro e liderou a investigação sobre a atuação de agentes da Polícia Civil do estado no caso Marielle Franco. O inquérito concluiu que houve obstrução das investigações sobre o assassinato da vereadora e do motorista Anderson Gomes.
O trabalho de Almada se concentrou nos mecanismos supostamente existentes na Polícia Civil do Rio de Janeiro que impediram, durante anos, que os responsáveis pelo crime fossem identificados e punidos. A PF apontou que a Polícia Civil havia atuado deliberadamente para garantir a impunidade dos autores e dos mandantes do crime.
Os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão foram apontados como os mandantes do crime, que teria sido executado pelo ex-PM Ronnie Lessa. O ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Rivaldo Barbosa, teria atuado para atrapalhar as investigações. Todos negam envolvimento no crime [1]. Em âmbito federal, o caso ficou sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes.
Conflitos com Cláudio Castro
Dois delegados ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmam que a atuação de Almada no Rio de Janeiro incomodava a cúpula do governo fluminense. Em dezembro de 2023, a jornalista Andreia Sadi, da GloboNews, publicou que o então governador Cláudio Castro (PL) e aliados teriam tentado tirar Almada do comando da PF no Rio.
Castro é investigado pela PF em inquéritos que apuram se ele favoreceu a refinaria Refit, uma das maiores devedoras de impostos do Rio de Janeiro, em troca de vantagens indevidas. Ele também é alvo de investigações sobre aportes do fundo de previdência de servidores públicos do Rio de Janeiro (RioPrevidência) em ativos financeiros do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
De acordo com o relatório de inteligência citado por Moraes na semana passada, a PF apontou que Mendonça teria levado até 75 dias para deferir um pedido de diligência contra Castro, enquanto demorou apenas nove dias para deferir um pedido contra o senador Jaques Wagner (PT-BA).
Motivo do afastamento
Na decisão, noticiada pelo Portal Arena Remix (Clique Aqui Para ver a Reportagem), que determinou o afastamento, Mendonça relaciona a medida contra Almada à produção de relatórios de inteligência que, segundo o ministro, teriam extrapolado as atribuições legais da PF. Esses relatórios foram citados em um despacho de Moraes após a divulgação dos documentos sobre supostas trocas de mensagens entre ele e Vorcaro.
Os relatórios analisavam, entre outros pontos, decisões tomadas pelo próprio Mendonça no âmbito de investigações sob sua relatoria no STF, além da atuação do advogado-geral da União, Jorge Messias, e de delegados da PF. Mendonça classificou a produção e a divulgação dos documentos como ilícita.
No caso específico de Almada, Mendonça justificou o afastamento citando que ele ocupa a Diretoria de Inteligência Policial (DIP), órgão central do sistema de inteligência da PF. A decisão, no entanto, não afirma que Almada tenha pessoalmente elaborado ou determinado a produção dos documentos.
O ministro determinou ainda que as circunstâncias da produção dos documentos sejam investigadas pela Corregedoria da PF. A depender do resultado, Rodrigues e Almada podem ser alvo de processos administrativos que podem levar às suas expulsões da corporação.
Próximos passos
O afastamento de Almada e Andrei Rodrigues está sendo submetido à apreciação da Segunda Turma do STF. Os ministros Kássio Nunes Marques e Luiz Fux já votaram para manter o afastamento. O julgamento está suspenso após um pedido de vistas feito por Gilmar Mendes.
Referências
BBC News Brasil — Crise no STF: Mendonça afasta delegado que investigou morte de Marielle Franco.
O Globo — Leandro Almada, diretor da PF afastado por Mendonça, atuou no caso Marielle e foi contra bloqueios de estradas nas eleições de 2022.
Portal Arena Remix — STF: André Mendonça submete ao colegiado pedido de afastamento do diretor-geral da PF

