Saúde e bem estar

Quando o corpo muda e a emoção acompanha: o Implanon pode afetar o humor?

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Por Leo Oliveira — Psicanalista | Coluna Saúde e Bem-Estar — Portal Arena Remix

Existe uma pergunta que algumas mulheres fazem depois de colocar um implante contraceptivo hormonal:

“Por que eu não me sinto mais como antes?”

Às vezes, a mudança aparece como irritabilidade. Em outras, como tristeza, ansiedade, perda de libido, maior sensibilidade emocional ou uma sensação difícil de explicar de que alguma coisa mudou por dentro.

E então surge outra pergunta:

“É hormonal ou é emocional?”

Talvez essa seja justamente a pergunta que precise ser melhor formulada, porque corpo e subjetividade não vivem em mundos separados.

O que é o Implanon?

O Implanon NXT é um implante contraceptivo subdérmico que contém 68 mg de etonogestrel, um hormônio do grupo dos progestagênios. Ele é colocado sob a pele do braço e atua principalmente inibindo a ovulação. O método é considerado um contraceptivo de longa duração e está registrado no Brasil para prevenção da gravidez.

Nos últimos anos, o implante passou a fazer parte também das políticas públicas brasileiras. Em 2025, o Ministério da Saúde ampliou sua utilização no SUS para mulheres adultas de 18 a 49 anos, com implementação progressiva.

Ou seja: estamos falando de um método contraceptivo importante e amplamente utilizado.

Mas ser um método eficaz não significa que todas as mulheres terão exatamente a mesma experiência com ele.

E o humor? O Implanon pode mexer com as emoções?

Essa é uma questão mais complexa do que parece.

Um estudo publicado na revista Contraception, envolvendo 900 usuárias de implante de etonogestrel, encontrou relatos de alterações de humor em 34% das participantes. Entretanto, os pesquisadores não encontraram associação entre a concentração do hormônio no sangue e os relatos de alteração de humor.

Isso significa duas coisas importantes.

Primeiro: alterações de humor são relatadas por uma parcela das usuárias.

Segundo: isso não significa que o hormônio seja necessariamente a causa direta dessas alterações em cada mulher.

Outro estudo prospectivo, publicado em 2026, acompanhou adolescentes que utilizaram o implante e não encontrou mudanças estatisticamente significativas nos sintomas de depressão, ansiedade ou estresse ao longo de seis meses.

É justamente essa diferença entre os estudos que exige cuidado.

Não é correto dizer:

“Implanon causa depressão.”

Mas também não é correto transformar toda mulher que relata mudanças emocionais após o implante em alguém que simplesmente “está imaginando coisas”.

A ciência ainda investiga por que algumas mulheres relatam essas experiências e outras não.

Quando a mulher diz “eu mudei”.

Imagine uma mulher que coloca o implante.

Alguns meses depois, percebe que está mais irritada, começa a chorar com mais facilidade, perde um pouco do interesse sexual, sente-se ansiosa, fica mais impaciente com os filhos, começa a questionar o relacionamento e principalmente, começa a dizer:

“Eu não era assim.”

É nesse momento que precisamos tomar cuidado com duas respostas igualmente simplistas.

A primeira é:

“É tudo psicológico.”

A segunda:

“É tudo culpa do hormônio.”

Nenhuma das duas explicações dá conta da complexidade da experiência humana.

O corpo também participa da nossa vida emocional.

A psicanálise há muito tempo nos convida a pensar que não existe uma separação tão simples entre corpo e subjetividade.

Nós não temos um corpo de um lado e uma mente completamente independente do outro.

O corpo participa da maneira como sentimos prazer, desejo, ansiedade, angústia, irritação, medo e satisfação.

Uma alteração corporal pode modificar a maneira como uma pessoa experimenta a própria existência.

Isso não significa que a psicanálise possa determinar se determinado sintoma é provocado pelo etonogestrel.

Essa é uma questão médica e deve ser investigada por um profissional de saúde.

Mas a psicanálise pode ajudar a formular outra pergunta:

O que está acontecendo com essa mulher quando ela percebe que já não se reconhece da mesma maneira?

Nem tudo que sentimos começa na cabeça.

Existe uma tendência perigosa de psicologizar o sofrimento feminino.

A mulher está cansada?

“É emocional.”

Está irritada?

“É estresse.”

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Está triste?

“Você precisa se controlar.”

Perdeu o desejo?

“É problema no relacionamento.”

Mas e quando existe uma mudança corporal acontecendo ao mesmo tempo?

O corpo precisa ser escutado.

Da mesma forma, também precisamos evitar o caminho contrário: atribuir automaticamente toda mudança emocional ao contraceptivo.

Uma mulher pode colocar o implante e, simultaneamente, estar passando por uma separação, dificuldades financeiras, problemas familiares, sobrecarga materna, conflitos conjugais ou outras situações capazes de produzir sofrimento.

A experiência humana raramente possui uma única causa.

A mulher precisa ser escutada.

Talvez essa seja a parte mais importante dessa discussão.

Se uma mulher percebe uma mudança significativa depois de iniciar um método hormonal, ela não precisa escolher entre “é psicológico” e “é hormonal” sozinha.

Ela pode conversar com o ginecologista ou outro profissional habilitado para avaliar possíveis efeitos do método e também considerar outras causas para os sintomas.

O próprio CDC, em suas recomendações de 2024, classifica o implante de etonogestrel como categoria 1 para pessoas com transtornos depressivos, ou seja, a presença de depressão, por si só, não constitui uma restrição ao uso do método.

Isso é diferente de dizer que nenhuma mulher poderá apresentar alterações emocionais durante o uso.

Uma coisa é contraindicação médica.

Outra é experiência individual e possível efeito adverso.

E distinguir essas duas coisas é fundamental.

Quando procurar ajuda?

Mudanças de humor que sejam intensas, persistentes ou que estejam interferindo na vida cotidiana merecem atenção.

Especialmente quando aparecem sintomas como tristeza persistente, ansiedade intensa, isolamento, perda importante de interesse pelas atividades, alterações significativas do sono ou do funcionamento diário.

Nessas situações, a mulher deve buscar avaliação profissional.

E se houver pensamentos de morte ou de autoagressão, a procura por atendimento deve ser imediata.

Também é importante não retirar ou interromper o método por conta própria sem conversar com um profissional que possa avaliar a situação e orientar sobre alternativas contraceptivas.

Talvez a pergunta não seja “é hormonal ou emocional?”

Talvez seja:

“O que está acontecendo com essa mulher?”

Essa pergunta é muito mais interessante.

Porque permite olhar para o corpo sem ignorar a subjetividade.

Permite olhar para a subjetividade sem negar o corpo.

E permite que uma mulher diga:

“Alguma coisa mudou em mim.”

Sem que alguém responda imediatamente:

“É coisa da sua cabeça.”

Nem tudo é psicológico.

Nem tudo é hormonal.

E, muitas vezes, o sofrimento aparece justamente no encontro entre aquilo que acontece no corpo e aquilo que acontece na história de cada pessoa.

A mulher não precisa ser reduzida ao seu hormônio.

Mas também não precisa ser privada do direito de investigar o que seu corpo está tentando dizer.

Escutar o corpo também é uma forma de escutar a pessoa.

Nota editorial:

Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica, ginecológica ou psicológica/psicanalítica individualizada. O objetivo é discutir, de maneira acessível, possíveis relações entre contracepção hormonal, alterações de humor e experiência subjetiva. As evidências científicas disponíveis não permitem afirmar que o implante de etonogestrel provoque desequilíbrio emocional ou depressão em todas as usuárias. Mulheres que apresentem alterações emocionais persistentes ou intensas durante o uso do método devem conversar com um profissional de saúde antes de tomar decisões sobre sua contracepção.

Fontes

  • Ministério da Saúde / Conitec — documentação técnica sobre o implante subdérmico de etonogestrel 68 mg.
  • Ministério da Saúde — Portaria SECTICS/MS nº 47/2025, sobre a ampliação do uso do implante de etonogestrel no SUS.
  • CDC — U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024 — recomendações sobre contraceptivos e transtornos depressivos.
  • Diamond B, Sheeder J, Lazorwitz A. An exploratory study on the possible association of serum etonogestrel concentrations with mood concerns and symptoms among contraceptive implant users. Contraception, 2024.
  • Freitas GS et al. Depression, Anxiety, and Stress in Adolescents Using the Etonogestrel Implant: A Prospective Cohort Study. Journal of Pediatric and Adolescent Gynecology, 2026.
Léo Oliveira
Sobre o autor

Léo Oliveira

Leo Oliveira é esposo, pai, filho, psicanalista, escritor e editor da coluna Saúde e Bem-Estar do Arena Remix. Atua na área da saúde mental com um olhar voltado à compreensão do comportamento humano, das relações e dos conflitos emocionais presentes no cotidiano. Seu trabalho busca aproximar a Psicanálise da vida real, utilizando uma linguagem acessível, direta e humana, sem excesso de termos técnicos ou respostas prontas. Como escritor e produtor de conteúdo, aborda temas como relacionamentos, família, dependência emocional, narcisismo, infância, ansiedade, autoconhecimento e os padrões que muitas vezes repetimos sem compreender. À frente da coluna Saúde e Bem-Estar, Leonardo propõe uma reflexão sobre como cuidamos de nós mesmos, das nossas relações e da nossa vida emocional, partindo de uma ideia simples: entender o que sentimos também é uma forma de cuidar de nós.

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