Clima

PNUMA alerta que mundo deve ultrapassar 1,5°C de aquecimento

Relatório sobre o chamado overshoot climático afirma que políticas atuais apontam para pelo menos 1,8°C de aquecimento, mas ressalta que cada fração de grau evitada reduz riscos.

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O mundo deve ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento global nas próximas décadas, segundo o relatório Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A publicação afirma que, considerando as políticas atuais e trajetórias próximas, a ultrapassagem se tornou amplamente provável ou inevitável.

O documento não trata o excesso como um ponto isolado, mas como uma trajetória composta por quatro etapas: ultrapassagem de 1,5°C, pico de aquecimento, queda gradual e estabilização. O objetivo considerado mais viável pelo PNUMA é manter o pico o mais baixo possível, limitar o tempo acima do patamar e tentar retornar abaixo de 1,5°C.

A organização ressalta que o cenário não deve ser interpretado como motivo para abandonar a meta do Acordo de Paris. Ao contrário, o relatório defende cortes mais rápidos e profundos nas emissões, além de medidas de adaptação para reduzir a vulnerabilidade de pessoas, economias e ecossistemas.

O que significa ultrapassar 1,5°C?

O patamar de 1,5°C se refere ao aumento da temperatura média global em relação ao período pré-industrial, geralmente representado pela média de 1850 a 1900. No Acordo de Paris, os países se comprometeram a manter o aquecimento bem abaixo de 2°C e a perseguir esforços para limitá-lo a 1,5°C no longo prazo.

A ultrapassagem pode ocorrer inicialmente em médias mensais ou anuais. Isso não significa, por si só, que a meta de longo prazo do Acordo de Paris foi definitivamente perdida. A avaliação climática para esse objetivo considera tendências de várias décadas, porque as temperaturas de um mês ou de um ano também sofrem influência de fenômenos naturais, como El Niño e La Niña.

Ainda assim, um ano acima de 1,5°C é um sinal de aproximação perigosa do limite de longo prazo. O PNUMA afirma que o mundo já entrou em uma trajetória na qual o excesso precisa ser administrado, e não simplesmente ignorado.

O que o relatório projeta?

O relatório recomenda um caminho de “excesso, pico e declínio”. Nele, o aquecimento ultrapassa 1,5°C, atinge um pico idealmente inferior a 2°C e depois recua com a redução das concentrações de gases de efeito estufa. A velocidade e a extensão dessa queda dependerão das decisões tomadas agora e nas próximas décadas.

Segundo o PNUMA, mesmo que os compromissos e as políticas climáticas atuais sejam implementados, o aquecimento projetado chega a pelo menos 1,8°C. Esse número não é uma previsão de um único ano, mas uma indicação da trajetória de aquecimento associada ao conjunto de políticas consideradas.

Por que cada fração de grau importa?

O PNUMA afirma que picos mais altos e períodos mais longos acima de 1,5°C aumentam os riscos para a população e para a natureza. O aquecimento adicional tende a intensificar ondas de calor, incêndios, secas, chuvas extremas, elevação do nível do mar, perda de gelo e danos aos ecossistemas.

A organização também alerta para efeitos que podem se acumular ou se reforçar mutuamente. Entre os riscos citados estão o degelo do permafrost, o enfraquecimento da Floresta Amazônica, a perda de mantos de gelo e mudanças irreversíveis em sistemas ecológicos. A ocorrência e a intensidade de cada impacto variam entre regiões e dependem da evolução das emissões e da capacidade de adaptação.

A Organização das Nações Unidas destaca que cada décimo de grau adicional pode aumentar a frequência e a intensidade de extremos de temperatura e precipitação, além de agravar secas agrícolas e ecológicas em algumas áreas.

O que precisa ser feito para limitar o excesso?

O relatório recomenda que mitigação e adaptação avancem simultaneamente. Mitigação significa reduzir as emissões de gases de efeito estufa; adaptação envolve preparar cidades, comunidades, sistemas de saúde, agricultura e infraestrutura para os impactos que já não podem ser evitados.

Para diminuir o pico de aquecimento, o PNUMA defende reduções aceleradas de emissões de dióxido de carbono, metano e outros gases. A organização também considera necessário ampliar a remoção de dióxido de carbono da atmosfera, mas ressalta que essa estratégia não substitui a redução direta das emissões.

A remoção de carbono pode ocorrer por meio de práticas como restauração florestal e manejo do solo ou de tecnologias de captura direta do ar. O relatório aponta limitações para ambas: soluções baseadas na natureza dependem de terra e podem perder carbono em incêndios ou secas, enquanto tecnologias novas são caras, ainda têm capacidade limitada e enfrentam desafios de escala e governança.

É possível voltar abaixo de 1,5°C?

O PNUMA considera possível tentar retornar abaixo de 1,5°C, mas afirma que isso não é automático nem garantido. O caminho dependerá da profundidade dos cortes de emissões, do pico alcançado, da duração do excesso e da capacidade de remover dióxido de carbono da atmosfera.

Mesmo que a temperatura média global volte a cair, o planeta não retornará necessariamente ao estado anterior. Oceanos, geleiras, mantos de gelo, ecossistemas e níveis do mar respondem em ritmos diferentes e podem continuar mudando por décadas, séculos ou mais.

Por essa razão, a duração do overshoot é tão importante quanto o pico. Quanto menor o período acima de 1,5°C, menor a exposição a riscos cumulativos e a possibilidade de cruzamento de limites de adaptação ou de pontos de não retorno.

O que já aconteceu com a temperatura global?

Segundo o PNUMA, 2024 foi o primeiro ano em que a temperatura média global excedeu 1,5°C acima do nível pré-industrial. Essa informação se refere à média anual e não equivale, isoladamente, ao rompimento definitivo da meta de longo prazo do Acordo de Paris. [2]

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) já havia explicado que ultrapassagens anuais temporárias não são o mesmo que uma violação permanente do objetivo de 1,5°C, que é avaliado em escalas de décadas. A entidade também destacou que essas ultrapassagens são sinais de alerta da proximidade do limite. [4]

O que se sabe até agora

O relatório Limiting Overshoot, do PNUMA, afirma que a ultrapassagem de 1,5°C se tornou amplamente inevitável nas trajetórias atuais e que políticas existentes apontam para pelo menos 1,8°C de aquecimento. A recomendação central é reduzir imediatamente as emissões, limitar o pico e encurtar o período acima do patamar.

O alerta não significa que o aquecimento ficará automaticamente em 1,8°C nem que todos os anos superarão 1,5°C. Também não significa que um único ano acima do limite encerre formalmente a meta do Acordo de Paris. O sentido científico é que o mundo se aproxima de um período prolongado de excesso, com riscos maiores quanto mais alto e mais longo for o aquecimento..

Referências

[1] PNUMA — Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return. Relatório publicado em 2 de setembro de 2026 sobre os riscos do excesso e as trajetórias para limitar, adaptar e tentar reverter o aquecimento.

[2] PNUMA — Overshoot explained: 5 things to understand about a world beyond 1.5°C. Texto explicativo oficial com os principais achados do relatório, as projeções de pelo menos 1,8°C sob políticas atuais e as limitações da remoção de carbono.

[3] ONU — 1.5°C: what it means and why it matters. Explicação sobre a meta do Acordo de Paris, a linha de base pré-industrial e a diferença entre ultrapassagens mensais ou anuais e aquecimento de longo prazo.

[4] OMM — Global temperature is likely to exceed 1.5°C above pre-industrial level temporarily in next 5 years. Referência científica institucional sobre a diferença entre ultrapassagem anual temporária e rompimento permanente da meta climática.

Nota editorial

Foi confirmado diretamente em fontes do PNUMA que o relatório Limiting Overshoot considera amplamente inevitável a ultrapassagem de 1,5°C nas trajetórias atuais e defende uma sequência de excesso, pico, declínio e estabilização. O PNUMA também afirma que, caso os compromissos e as políticas atuais sejam implementados, o aquecimento projetado chega a pelo menos 1,8°C.

A matéria diferencia médias anuais e mensais do conceito de aquecimento global de longo prazo usado para avaliar a meta do Acordo de Paris. Essa distinção foi conferida em fontes da ONU e da Organização Meteorológica Mundial. O texto não afirma que todos os anos superarão 1,5°C, que o aquecimento ficará exatamente em 1,8°C ou que o retorno abaixo do limite esteja garantido.

O gráfico recomendado é esquemático e não deve ser apresentado como série histórica ou projeção quantitativa sem dados adicionais. Os impactos foram descritos como riscos e tendências científicas gerais, sem atribuir a um evento específico uma causa exclusiva ou uma consequência regional não demonstrada pelas fontes consultadas.

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Luiz Gomes
Sobre o autor

Luiz Gomes

Luiz Gomes é redator de notícias e produtor de conteúdo digital, Atua a mais de 20 anos como professor de Geografia com foco em Geopolítica.

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