A Polícia Militar de São Paulo publicou nesta quarta-feira (10) o decreto que transfere para a reserva o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53 anos, preso desde 18 de março sob acusação de feminicídio contra a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos. O ato, assinado pelo diretor de Inatividade e Pensão Militar, coronel Antonio Thomazelli Júnior, foi publicado no Diário Oficial do Estado.
Com a transferência para a reserva — equivalente à aposentadoria na estrutura militar —, o pagamento da remuneração de cerca de R$ 22 mil deixa de ser feito pela PM e passa a ser de responsabilidade da São Paulo Previdência (SPPrev), instituto de previdência do governo estadual. O tenente-coronel está preso no presídio militar Romão Gomes, na capital paulista.
Remuneração pode ser cortada em caso de condenação
De acordo com a PM, a remuneração de aproximadamente R$ 22 mil poderá ser cortada pela SPPrev caso o tenente-coronel seja condenado pela Justiça Militar à perda de patente. Segundo dados do Portal da Transparência, o salário bruto do oficial chegou a R$ 34.609,91 em janeiro, incluindo bonificações e o abono de permanência pago a servidores que já podem se aposentar, mas seguem na ativa.
O tenente-coronel enfrenta um processo no Conselho de Justificação (CJ), instaurado em 31 de março, que pode resultar na expulsão da corporação. Se perder a patente, a aposentadoria por tempo de serviço pode ser recalculada, reduzindo o valor para o teto do regime comum do INSS, atualmente em R$ 8.475,55.
“A eventual perda do posto e da patente, bem como impactos sobre remuneração, somente podem ocorrer após decisão definitiva do Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo”, declarou a PM em nota.
Advogado da família critica celeridade da PM
O advogado Miguel José da Silva Junior, que representa a família da soldado Gisele, criticou a rapidez da aposentadoria. “Causou-nos espécie a celeridade da PM em aposentá-lo”, afirmou em vídeo publicado no Instagram. Ele disse que a decisão demonstra “privilégios” ao tenente-coronel e contrasta com a demora enfrentada por outros militares, incluindo oficiais doentes que precisam recorrer à Justiça para obter o benefício.
“Não é justo que esse cidadão, que cometeu um crime tão bárbaro, continue recebendo valores à custa da população e inclusive dos pais da Gisele, que pagam seus tributos”, declarou o advogado.
A PM respondeu que a transferência para a reserva “ocorreu em conformidade com a legislação vigente e não impede eventual responsabilização penal ou disciplinar”.
Investigação aponta feminicídio e fraude processual
Gisele Alves Santana foi encontrada morta em 18 de fevereiro, com um tiro na cabeça, no apartamento onde o casal morava, no bairro do Brás, região central de São Paulo. O tenente-coronel chamou o socorro e reportou o caso como suicídio.
Laudos do Instituto Médico Legal (IML) confirmaram marcas de agressão incompatíveis com suicídio, incluindo lesões provocadas por pressão de unhas. A investigação da Polícia Civil concluiu que o tenente-coronel matou a esposa e forjou a cena para simular suicídio. Ele é réu na Justiça comum pelos crimes de feminicídio e fraude processual.
A mãe da vítima afirmou às autoridades que o relacionamento era abusivo e repleto de proibições. O tenente-coronel nega ter matado a esposa. Em entrevista antes da prisão, afirmou ter a consciência tranquila e disse que encontrou a mulher ferida no chão.
A Polícia Civil concluiu o inquérito e o encaminhou ao Poder Judiciário. A Corregedoria da PM também concluiu o Inquérito Policial Militar (IPM) e o enviou à Justiça Militar. O Conselho de Justificação segue em fase de instrução, de forma independente do processo criminal.
Filha da vítima recebe pensão
A filha de Gisele, de 7 anos, fruto de um relacionamento anterior, recebe pensão da SPPrev pela morte da mãe até completar a maioridade.
A SPPrev confirmou que o tenente-coronel passará a receber os proventos de inatividade a partir da folha de junho, com pagamento em folha suplementar até o dia 18. “A SPPREV atua exclusivamente como gestora da folha de pagamento dos inativos e pensionistas do Estado e efetuará os pagamentos enquanto o respectivo ato administrativo permanecer válido”, declarou o órgão em nota.
Fontes: Agência Brasil – 10/06/2026, 15h42.

