|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é investigado pela Polícia Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro [1][2].
O inquérito foi autorizado em 22 de julho pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), após pedido da Polícia Federal e sem oposição da Procuradoria-Geral da República (PGR) [1][2]. A informação veio a público nesta sexta-feira (11), após o relator do caso levantar o sigilo a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin [1].
Segundo o despacho de Mendonça, a PF requer a apuração da “possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos correlatos, que teriam sido praticados, em tese, pelo Senador da República FLÁVIO NATES BOLSONARO, no contexto de financiamento para a produção de obra cinematográfica denominada Dark Horse junto ao Banco Master do banqueiro DANIEL BUENO VORCARO” [2].
Flávio Bolsonaro nega irregularidades na captação dos recursos [1][2]. O Estadão e o g1 procuraram a defesa do candidato, mas não obtiveram retorno até a publicação [1][2].
Áudios e pedido de R$ 134 milhões
Em áudios revelados pelo site Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para custear o projeto [1][2]. Desse total, mais de R$ 60 milhões foram pagos, segundo a Polícia Federal [2].
No áudio enviado ao banqueiro, Flávio diz:
“Meu irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. (…) E apesar de você ter dado liberdade, Daniel, da gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim, é porque está num momento muito decisivo aqui do filme e, como tem muita parcela para trás, cara, está todo mundo tenso” [2].
O senador também menciona a preocupação com o não pagamento de profissionais envolvidos: “Imagina a gente dando calote no Jim Caviezel, no Cyrus (Nowrasteh)… os caras, porra, renomadíssimos lá no cinema americano, mundial. Pô, ia ser muito ruim. Todo o efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme pode ter o efeito elevado a -1 aí, cara” [2].
Delação de operador financeiro
Na terça-feira (8), Mendonça homologou o acordo de delação premiada do empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos [2]. O empresário relatou que gerava dinheiro vivo e o entregava em malas a emissários de Vorcaro [2].
Na delação, Freixo Júnior afirmou que mantinha uma conta conjunta com Vorcaro para pagar despesas de interesse do banqueiro e apresentou comprovantes de operações de câmbio e documentos que mostram o envio de recursos para o exterior [2].
Entre as operações, o empresário detalhou transferências enviadas ao Havengate Development Fund LP, no Texas (EUA), administrado pelo advogado Paulo Calixto, que representa Eduardo Bolsonaro no exterior [2]. Comprovantes e diálogos do celular de Vorcaro registram o envio de ao menos US$ 10 milhões (R$ 61 milhões na época) ao fundo, com a justificativa de patrocínio do filme “Dark Horse” [2].
Os investigadores apuram o destino final desses recursos e se o dinheiro serviu para cobrir despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos [2]. A PF e a PGR buscam cruzar os documentos de câmbio entregues na delação com dados do celular de Vorcaro para corroborar as suspeitas de evasão de divisas e identificar os destinatários do dinheiro em espécie [2].
Dois inquéritos no STF
1. Sob relatoria de André Mendonça: apura os repasses feitos por Vorcaro, em que circunstâncias foram feitos, qual a origem do dinheiro, qual o montante exato e qual seu destino final. Investigadores suspeitam que parte dos recursos não tenha sido usada no filme. É neste inquérito que Flávio Bolsonaro consta como investigado [1].
2. Sob relatoria de Flávio Dino: investiga se a produtora Go Up Entertainment usou emendas parlamentares para bancar a produção [1]. A PF fez uma operação na quinta-feira (10) e cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal [1]. Entre os alvos estão o deputado federal Mario Frias (PL-SP) e Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável pelo filme [1].
Havia ainda uma investigação em São Paulo, conduzida pela Polícia Civil, para apurar um contrato de mais de R$ 150 milhões entre a Go Up e a prefeitura para instalação de pontos de wi-fi em bairros da periferia. O contrato não foi cumprido integralmente e existem suspeitas de que parte dos valores foi desviada. Esse inquérito passou a tramitar com Dino no STF [1].
Números do caso

Medidas cautelares
No âmbito da Operação Make Up, o ministro Flávio Dino determinou medidas cautelares contra o deputado Mario Frias, proibindo-o de deixar o país e de manter contato com os demais investigados no inquérito que apura desvios de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares [1]. Durante a operação, a PF apreendeu sete armas de fogo pertencentes ao parlamentar em um endereço diferente do informado oficialmente por ele [1].
Contexto da crise no STF
A crise no STF envolvendo Mendonça e Alexandre de Moraes começou a partir de decisões nas investigações sobre o Banco Master [1]. Envolve também o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e, posteriormente, o ministro Flávio Dino [1].
Em agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) havia orientado Andrei Rodrigues a procurar Mendonça para discutir a relação entre a PF e o gabinete do relator [1].
Referências
[1] G1 — Flávio Bolsonaro é investigado em inquérito no STF aberto para apurar financiamento do filme ‘Dark Horse’.
[2] Estadão — Flávio Bolsonaro é investigado por lavagem e corrupção em repasses de Vorcaro a ‘Dark Horse’.
Nota editorial:
As informações relatadas nesta matéria refletem o inquérito autorizado pelo ministro André Mendonça, do STF, em 22 de julho de 2026, e tornado público em 11 de setembro. A investigação apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, mas não representa condenação de Flávio Bolsonaro ou de qualquer outro envolvido. Os áudios e a delação premiada são elementos da investigação e não constituem, por si só, prova de culpa. O senador nega irregularidades. O espaço para manifestação da defesa permanece aberto.

